Comportamento

Os novos piratas de Santos

Invasão de cargueiro italiano por criminosos expõe brechas de segurança no maior porto da América Latina e revela as artimanhas do narcotráfico internacional

Crédito: Divulgação

VIGILÂNCIA Policial observa o navio Grande Francia, que sofreu ataque de piratas e recebeu carregamento de droga (Crédito: Divulgação)

TRÁFICO Cocaína descoberta totalizou 1,3 tonelada: em 2018, foram 27 operações

Foi uma ação cinematográfica. Pelo menos cinco homens armados invadiram, no domingo 12, o navio Grande Francia, de bandeira italiana, que estava ancorado a 15 quilômetros do acesso ao Porto de Santos. Junto a mais ou menos 60 outras embarcações, o navio da armadora Grimaldi aguardava a atracação no Fundeadouro 4, local onde os cargueiros ficam ancorados esperando a liberação para entrar em um terminal. O mar estava muito agitado. Mesmo assim, os assaltantes subiram a bordo, no convés do navio, que transportava contêineres, usando cordas com ganchos, provavelmente alçadas nas aberturas que ficam na proa. Diante da movimentação, a tripulação se escondeu em compartimentos fechados e a Polícia Federal foi acionada. Os bandidos fugiram duas horas depois na mesma lancha. Uma revista no navio revelou que haviam deixado, no porão da embarcação, 41 bolsas contendo 1.202 tabletes, equivalente a 1,3 tonelada da droga. “A pirataria foi um ato de simulação. Os criminosos abriram alguns contêineres aleatoriamente, mas a real intenção era içar cocaína para o navio”, diz a delegada da Polícia Federal Luciana Fuschini, que está à frente do caso. Há 20 anos, não se registrava a invasão de um cargueiro por piratas em Santos.

Recorde histórico

O porto paulista, o maior da América Latina e também o principal escoadouro internacional do tráfico no País, tem apresentado recordes sucessivos de apreensões de cocaína. Apoiada pela Receita Federal na parte aduaneira e pela Patrulha Naval da Marinha, a Polícia Federal fez, em agosto, quatro operações em que descobriu cerca de 3,5 toneladas da droga. Além da carga encontrada no Grande Francia, mais 1,2 tonelada foi descoberta dia 7, dentro de contêineres no navio Grande Nigéria, também operado pela Grimaldi. Na terça-feira passada, outros 444 quilos foram apreendidos em uma carga de tiras de aço e, alguns dias antes, mais 558 quilos haviam sido descobertos em um carregamento de polietileno. O traço em comum nas quatro apreensões era o destino final da carga: o porto da Antuérpia, na Bélgica, uma das principais rotas de entrada das remessas de cocaína na Europa. Em nenhum dos casos houve prisão de traficantes. A Grimaldi informou que seus agentes e representantes foram colocados à disposição das autoridades brasileiras para auxiliá-las nas investigações.

Mais inteligência

Para a delegada Luciana, o crescimento das apreensões em Santos está associado a um reforço da fiscalização e a novas técnicas de investigação orientadas para a repressão do tráfico internacional. Mas também reflete o aumento da importância da rota marítima brasileira de envio da droga para a Europa e o Norte da África. Normalmente, os contêineres que chegam ao porto são analisados por amostragem. Somente 5% deles passam pela fiscalização. A investigação da polícia, porém, tem garantido uma amostra mais qualificada, considerando, por exemplo, o risco da origem e destino da carga desde a fronteira e outras informações obtidas pelo setor de inteligência. Sabe-se, por exemplo, que a logística da droga em Santos é controlada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). No caso do Grande Francia, a suspeita de que havia droga embarcada surgiu por causa da ousadia da ação dos piratas. “O mar estava muito revolto e perigoso. Alguém só se arriscaria numa iniciativa desse tipo se fosse para ganhar muito dinheiro”, diz Luciana. “Além do mais, ficou claro que era uma manobra de traficantes porque os piratas típicos não se interessam pela carga que vai para Europa, mas só pela que chega no Brasil”, afirma.

De 2015 para cá, a Polícia Federal tem intensificado suas operações de busca e apreensão de drogas no porto de Santos. Há três anos foram feitas somente cinco operações policiais que garantiram a apreensão de uma tonelada de cocaína. Em 2018, até agora, já foram realizadas 27 operações que resultaram na apreensão de 14 toneladas da droga. Para cada tonelada de cocaina apreendida, segundo os cálculos da polícia, o tráfico deixa de colocar cerca de R$ 26 milhões nos seus cofres.