Cultura

‘Os Miseráveis’ e a construção do ódio na França atual

Havia grandes filmes na competição do Festival de Cannes, em maio. Alguns já entraram em cartaz nos cinemas brasileiros – Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Parasita, de Bong Joon-ho. Curiosamente, são filmes que têm muito a ver, pois abordam o que se pode definir como a revolta dos excluídos. Parasita ganhou a Palma de Ouro outorgada pelo júri presidido pelo diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, Bacurau dividiu o prêmio do júri com Les Misérables, do diretor Ladj Ly.

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Neste fim de semana, os atores Amalmy Kanouté e Alexis Manenti, também roteirista, apresentam Os Miseráveis no Festival do Rio. É um filme impactante. O maior da seleção de Cannes neste ano? Talvez. De uma maneira muito simplificada, Os Miseráveis já foi definido como uma mistura de Tropa de Elite com Cidade de Deus, dois filmes que fizeram história na Retomada do Cinema Brasileiro. Como o polêmico filme de José Padilha, põe o foco em policiais que patrulham áreas potencialmente explosivas de Paris. Como o clássico de Fernando Meirelles, enfoca minorias, criminosos e a garotada na linha cruzada do fogo policial. A verdadeira origem é um filme que completa 30 anos em 1989 – Faça a Coisa Certa, de Spike Lee, que passou em Cannes em 1989. Lembram-se da pizzaria do Brooklyn, naquele dia quente de verão? Havia lá um equilíbrio precário – um mundo prestes a explodir. Negros e italianos. O confronto tornava-se inevitável, como aqui.

O estopim é a caçada a um garoto que sequestrou um leãozinho do circo. Os policiais – três, e o mais graduado não reza pela cartilha da legalidade – enfrentam a revolta da garotada, um deles perde o sangue frio, dispara e a porcaria está feita. A partir daí, o chefe tenta limpar os vestígios, eliminar o crime da polícia. O novato do trio reage. Assim como o confronto da polícia com a comunidade, a explosão interna do grupo também é inevitável. Ladj Ly não acredita em heróis – acredita na ética, e o personagem mais íntegro é um muçulmano, que tem uma lanchonete, e enfrenta altivamente a pressão da polícia. Esse tira ‘violento’, não por acaso, é o ‘ariano’ do trio, que também inclui um negro, e os três terminam espelhando a diversidade da sociedade francesa.

Mais uma história de anti-heróis – como a do brasileiro Macabro, de Marcos Prado, que concorre na Première Brasil do Festival do Rio. A construção da ética, no personagem mais íntegro do trio, entra em choque com a realidade no explosivo final – em suspenso. É a suprema provocação de Ladj Ly, autor francês de ascendência maliana, que transfere para o espectador a possibilidade de terminar essa história. Para ele, é difícil, senão impossível, imaginar um desfecho quando duas correntes estão frente a frente, e armadas. Há algo de Coringa, de Todd Phillips, nessa explosão final, um mundo fora de controle. A construção do ódio, e vale lembrar que, nesse sentido, Os Miseráveis não deixa de ser um desdobramento, 24 anos depois, de La Haine, de Mathieu Kassovitz, com o qual o cinema francês descobriu a periferia da França. Muito justamente, o título. Les Misérables evoca Victor Hugo, e Ladj Ly termina seu filme com a epígrafe do escritor: “Não existem ervas daninhas nem homens maus, apenas maus cultivadores (do terreno)”.

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