Cultura

Os inéditos de Anne Frank

Cartas, versos infantis e até o esboço de um romance — tudo isso, agora publicado, homenageia os 90 anos de idade que ela completaria na semana passada se estivesse viva

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ESCRITA “Obra reunida”, livro lançado na Holanda na semana passada, compila, além das três versões do “Diário”, os textos infantis de Anne: a tristeza já se fazia presente (Crédito: Divulgação)

Uma adolescente alemã de quinze anos de idade, morta no campo de concentração alemão de Bergen-Belsen, na Baixa Saxônia, deu rosto ao holocausto — extermínio de aproximadamente seis milhões de judeus promovido pelo regime nazista ao longo da Segunda Guerra Mundial, sob o comando de Adolf Hitler. Seu nome: Anne Frank. Ela foi assassinada em fevereiro de 1945. Se não tivesse caído nas mãos de seus algozes, na quarta-feira passada, 12 de junho, estaria comemorando noventa anos. Anne tornou-se símbolo da luta contra toda e qualquer tirania pelas três versões do “Diário” que deixou, já traduzidas para sessenta idiomas com mais de 40 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Para homenageá-la na data de seu aniversário, na última semana a fundação que leva o seu nome e abriga vasto acervo sobre a sua vida lançou na Holanda o livro “Obra reunida” (chegará ao Brasil pela Record). Trata-se, agora, não de depoimentos ou da narração do dia a dia de Anne nos cruéis tempos de guerra mas, isso sim, da compilação de textos que a mostram quando criança. Ainda que não guardem valor literário, têm eles extremo valor histórico.

INFÂNCIA Anne, aos cinco anos de idade, tomando sol, e uma de suas tantas cartas (abaixo) escritas para a sua avó: precoce na literatura

Ilustre prefácio

“Obra reunida” traz, acima de tudo, um marcante traço da personalidade de Anne Frank: desde muito cedo na vida ela gostava de escrever. A destinatária de seus versos infantis e de uma infinidade de cartas comentando presentes que ganhara e novos amiguinhos que conquistara era, invariavelmente, a sua avó — escrita que teve início em 1936, quando a menina contava com sete anos de idade. O ponto alto, digamos assim, desse livro de uma criança precocemente madura, é o esboço de um romance que ela começou a escrever (e que também mandava página por página para a avó), ao qual deu o nome de “A vida de Cady”. E são dessa época, também, os seus relatos sobre o gosto de estar lendo a respeito de faraós e do Antigo Egito. Pode-se considerar que a obra agora lançada é praticamente composta por textos inéditos, uma vez que somente a parte que traz os “Contos do esconderijo” já é conhecida. Eis um trecho de uma de suas cartas, revelada pela primeira vez e endereçada à avó:“Querida Omi. Desejo-lhe tudo de bom no seu aniversário. Como vão o Stephan e o Bernd? Agradeço a tia Leni pelo lindo boneco de esqui; você ganhou presentes? Me escreve, um beijinho, Anne”.

“Cady estava com uma dor aguda na perna direita  e no braço esquerdo e, sem dar-se conta, gemia baixinho. Logo em seguida, se curvou sobre ela um rosto amável, que a olhava sob um capuz branco. ‘Você está sentindo dor, minha pobre menina? Você se lembra de algo do que aconteceu com você?’, perguntou a  irmã (…)”

No novo livro, em seu capítulo “Contos do esconderijo”, constam as três versões do famoso “Diário de Anne Frank”, obras que se tornaram um dos principais libelos contra o nazismo e a mais crua narração do desespero de estar-se escondida em meio a uma guerra. A primeira versão do “Diário” apresenta relatos que ela redigiu quando teve de viver nos fundos de um prédio em Amsterdã, numa Holanda ocupada pelas forças de Hitler. A segunda versão é, na verdade, a reescrita da primeira, com certeza a pedido de algum adulto que decidiu atender aquilo que Gerrit Bolkestein, ministro da Educação alemão exilado na Inglaterra, tanto implorava: “escrevam testemunhos sobre a guerra”. Finalmente, há a terceira versão do “Diário”, lançada em 1947. Com ela, as memórias de Anne Frank fizeram o mundo civilizado nunca mais esquecer do selvagem nazismo, sobretudo a partir de 1952, quando o livro foi publicado nos EUA com prefácio da ex-primeira-dama Eleanor Roosevelt. Ela foi esposa de Fanklin Delano Roosevelt, presidente americano entre 1933 e 1945 — ano em que a guerra acabou, ano em que Anne morreu.

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