Os “frouxos” cadáveres de Bolsonaro

Crédito: Vladimir Vladimirov/istockphoto

(Crédito: Vladimir Vladimirov/istockphoto)

O País entregará ao menos 400 mil mortos aos seus familiares no próximo dia das mães, no início de maio. Macabra lembrança, sem direito a comemoração. Na última semana, na mesma fatídica terça-feira 6, do registro de 4,2 mil vítimas fatais da Covid-19 em apenas 24 horas, o capitão insano, mandatário de uma nau que naufraga na tragédia da pandemia, voltou a chamar os brasileiros de “frouxos” por aderirem ao isolamento como saída. Impossível classificar tanta podridão mental. Algo inominável de um ser desprezível que comanda o País. Sem sentimento, senso de responsabilidade ou o mínimo de dever humanitário. Enquanto líderes globais reuniram-se para lançar um comunicado estabelecendo a pandemia como o maior dos problemas do planeta hoje, Jair Messias Bolsonaro tratou, em simultâneo, de arquitetar uma ofensiva para evitar o combate eficaz ao coronavírus. Queria ir contra os governadores e suas medidas. Articulou a liberação de cultos nas igrejas e templos. Bradou em oposição a qualquer chance de lockdown que, em outras paragens e tempos, deu resultados concretos. Bolsonaro imuniza a população contra a sensatez, enquanto a doença avança. Dita um comportamento típico de escroque da fé alheia que conduz hordas ao genocídio. No figurino de garoto propaganda da cloroquina forneceu ainda mais provas contundentes da postura criminosa. Institutos de análise acabam de apontar que aumentaram em 558% os casos de reações adversas provocadas pela droga. A nebulização à base de cloroquina matou, comprovadamente, ao menos quatro brasileiros.

A quem deveria ser legada, diretamente, a responsabilidade pelas vidas perdidas? Qual é o líder a coordenar esforços e recursos significativos para entupir brasileiros de cloroquina, tratamento precoce sem comprovação científica, pressionando hospitais, médicos e centros do SUS nesse sentido? A sanha psicopática do capitão seguirá em frente impunemente? Não são “frouxos”, nem “maricas” aqueles que tentam se proteger da hecatombe sanitária em voga por aqui. Não é mero “mimimi”, como diz o capitão, nem dá para reagir, a exemplo dele, dizendo “e daí? É da vida”, diante dos calamitosos números de cadáveres a abarrotarem cemitérios, muitos sem vagas, esgotados pela absurda demanda. Mais de um ano depois do banho de sangue que mancha a Nação, ele resolveu criar a contragosto, movido por pressões do Congresso e visando fins eleitoreiros, um comitê de crise, sem efeito prático, sem aliança e movimento uniforme com as demais autoridades, sem nada. Mera atitude marqueteira para demonstrar cinicamente que se importa. A ocupação de leitos de UTIs superando a capacidade máxima, médicos esgotados, hospitais sem insumos mínimos de oxigênio e kits de intubação são a realidade. Mas Bolsonaro garganteia ser capaz de “resolver o problema do vírus em minutos”. Cada dia mais perigoso, o mandatário passou a ser apontado em inúmeros veículos internacionais – do “The Guardian”, em editorial, ao “Washington Post” e “Financial Times”, em artigos, além de outros – como um perigo ao Brasil e ao mundo. A carnificina em curso dá mostra dessa ameaça. Em meio ao negacionismo, o número de infectados e de vitimas fatais dispara, enquanto as previsões de doses da vacina são rotineiramente revistas para baixo, numa equação que não fecha. Paradoxalmente, o revés na vacinação é acompanhado da constatação de avanço do programa em outras praças em todos os continentes. Tardiamente, o presidente alega hoje não existir “tanta vacina disponível assim”. A surpresa está na comparação dessa sua assertiva com a anterior, de meses atrás, quando falava que muitos fabricantes de imunizantes iriam correr para atender ao imenso mercado brasileiro. Nem nesse caso, nem nos demais, ele se redime dos erros. Muda o discurso e bola para frente. Questionado pelo Supremo Tribunal Federal sobre a política anti-vacina que empreendeu, negou tudo. Disse não ser responsável. E fica a pergunta: quem recusou e esnobou as ofertas de doses dos inúmeros laboratórios ainda em meados do ano passado? De quem foi a célebre frase “não vou comprar a vacina chinesa do Doria e ponto”? Hoje, basicamente, existe apenas a Coronavac para salvar os brasileiros. Oito em cada dez cidadãos estão sendo atendidos por ela. Bolsonaro praticou tantas traquinices cretinas nesse hiato de tempo que fica difícil relacionar todas elas.

Quem tomasse vacina poderia virar jacaré, já alertou esse Messias. Ele mesmo recusou a vacinação, voltou atrás e depois recuou de novo. No pendular de hesitações, virou símbolo de mau exemplo. Seus pares mundo afora foram os primeiros a entregarem os braços em apoio ao movimento. Bolsonaro, não. Ele é diferente. Oferece a garganta para trombetear ilações e dúvidas ignorantes quanto à eficácia do tratamento. Talvez nunca na história do País – com o perdão do opositor, antecessor e propagador do mantra, Luiz Inácio – um mandatário tenha contribuído tanto para o obscurantismo. Ofereceu ataques a Organização Mundial da Saúde. Desobedeceu procedimentos de isolamento, comandando aglomerações em massa. Pregou contra as máscaras. Foi o senhor do caos. Mórbido. Aparelhando o sistema com titulares despreparados e nada conhecedores do que iriam enfrentar, trouxe aventureiros de teorias mirabolantes anti-saúde, sem sequer a menor noção sobre o uso de uma seringa. A traficância ilegal de imunizantes passou a acontecer. O estímulo a privilégios para os mais ricos, idem. Quem puder pagar pulará na frente com a nova ordem a favor de aquisições de doses pela iniciativa privada. A morte espreita na esquina daqueles mais necessitados, para quem a infraestrutura básica colapsou, entrou em falência. Faltam leitos. Milhares estão morrendo à espera de atendimento. É o Juízo Final, tenebroso e fatal, marcado pela assinatura e endosso firme do Messias. A pátria chora enlutada, enquanto a cara de pau, lavada a óleo de peroba, sem máscara, do capitão, sorri, alegando não ser com ele. “Não posso ser responsabilizado”, alega. E quem deveria? O “kit Covid”, de sua lavra, tem gerado – por registros clínicos – dores abdominais agudas, cefaleia, taquicardias, náuseas e óbitos em escala crescente. Bolsonaro age como um médico que não é, sem diploma nem nada. Propaga certezas da cadeira do Planalto e toma decisões, baseadas em falsos preceitos, afetando doentes no Brasil inteiro. Mas não é culpado? Levado ao pé da letra da Lei, ele deveria até indenizar quem acreditou em suas lorotas da cloroquina e enfrentar a cassação do mandato, impedido por crime de responsabilidade. A sorte lhe é parceira. As alianças espúrias com o baixo clero congressista lhe dão sobrevida. Mesmo assim, o mandatário não tarda por esperar. Em qualquer tribunal ainda há de receber a condenação devida pelos cadáveres que deixou. Ao despejar doses abusivas de charlatanismo aos brasileiros, já ganhou o título de doutorado em infrações. Nem todos os aliados irão livrá-lo do julgamento. Cedo ou tarde, acontecerá. E o genocida, finalmente, cairá em si sobre a real dimensão dos seus atos. Nesse momento, veremos realmente quem é o “frouxo” da história.


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