Água com alta concentração de cálcio e magnésio deixa o cabelo mais ressecado, poroso e embaraçado. Minerais não provocam queda capilar, mas podem levar à quebra dos fios.Brasileiros têm a sensação de que a água da Europa faz o cabelo ficar "pior" do que no Brasil: mais ressecado, com aumento de queda, perda de brilho e menos movimento. "Toda vez que eu lavo o meu cabelo, vai caindo cada vez mais. Então, são tufos e tufos de cabelo que, às vezes, eu fico assustada", conta a brasileira Luana Santiago que mora na Alemanha.
"Você começa a ver mais do seu couro cabeludo. Você começa a perceber que, quando você penteia, saem mais fios", diz Rafael Gonsalez, brasileiro residente na Alemanha. "Meu cabelo tem muito mais nós. Então, eu tenho dificuldade de desembaraçar, e isso faz com que ele quebre também", conta a brasileira Juliana Makalima, que também vive na Alemanha.
Quando esse assunto surge em rodas de imigrantes, não faltam dicas para tentar driblar os efeitos negativos da água europeia: instalar filtro no chuveiro, lavar o cabelo com água mineral ou destilada, tomar vitaminas, usar produtos específicos e até aplicar vinagre. Mas o que de fato acontece e o que é mito?
Água dura
Grande parte da água na Europa é considerada "água dura" – termo que se refere à alta concentração de minerais, principalmente cálcio e magnésio. Eles são responsáveis pelo famoso calcário que se acumula em pias e eletrodomésticos, formando manchas brancas. Existem até medições específicas para ver em quais regiões a água é mais ou menos calcária.
A interação desses minerais com o cabelo altera a textura e o aspecto dos fios, deixando-os mais ressecados, porosos, opacos e embaraçados. Essa água mais calcária também contribui para a quebra do fio, que pode ser percebida quando a pessoa penteia ou escova o cabelo, por exemplo. Mas um mito bastante disseminado é de que o calcário causaria queda capilar.
"Não tem queda da raiz do cabelo. Essa queda não é verdadeira. A gente tem uma queda normal, diária, de 100 fios", explica o dermatologista Leonardo Spagnol Abraham. "Muitas vezes, o paciente vai para um país frio, acaba lavando menos o cabelo. Isso vai acumulando mais cabelo na cabeça e vai aumentando uma queda proporcional."
Abraham, que é especialista em cabelos, lembra que o ciclo capilar é influenciado por diversos fatores, incluindo aspectos emocionais. A migração, por exemplo, costuma gerar estresse significativo, e esse impacto pode se refletir no cabelo três meses depois, causando queda.
Além disso, condições médicas como alterações na tireoide – tanto hiper quanto hipotireoidismo – podem causar queda e valem ser investigadas. Outras causas comuns incluem a alopecia androgenética, conhecida como "calvície". Em menor proporção, deficiências graves de nutrientes também podem estar envolvidas. "Menos de 1% das causas de queda de cabelo, de eflúvio telógeno, é falta de vitaminas", afirma Abraham.
Como amenizar os danos
Se a queda não é provocada diretamente pela água dura, os danos ao fio são reais. Isso leva muitos imigrantes brasileiros a buscarem soluções. Uma rotina de cuidados pode incluir shampoos de limpeza profunda que são antirresíduos ou até que agem especificamente contra o calcário da água.
O farmacêutico Victor Infante, especialista em cosméticos, destaca que produtos fabricados no Brasil podem não ter o desempenho esperado na Europa, pois não são formulados para a água dura. Segundo ele, produtos europeus tendem a ser mais eficazes nesse cenário.
Porém, imigrantes com cabelo crespo e cacheado relatam dificuldades para encontrar diversidade de produtos adequados no mercado europeu. Luana, por exemplo, mantém o hábito de trazer a maior parte de seus produtos do Brasil: "Eu diria que 70% da minha mala é produto de cabelo".
Na busca por soluções, alguns métodos caseiros também são utilizados. Juliana, por exemplo, aplica uma mistura de água destilada e vinagre de maçã após o shampoo.
Há fundamento químico nessa técnica. Segundo Victor Infante, o vinagre pode ajudar a fechar as cutículas do cabelo, reduzindo a interação com o cálcio e magnésio. Contudo, ele alerta para o risco de irritação no couro cabeludo e recomenda produtos cosméticos acidificantes, que possuem pH adequado.
Quanto à água destilada, comprada em farmácia, de fato ela não tem nada de metais. E a água mineral, comprada em supermercado, tem menos cálcio e magnésio que a do chuveiro. Elas até podem ser uma boa ideia para enxaguar o cabelo e não deixar muito calcário acumulado, mas são pouco práticas no dia a dia, especialmente no inverno.
Uma outra opção para tentar tirar o calcário da água é usar filtros no chuveiro. No geral, eles funcionam por um tempo limitado, até que o material filtrante sature de cálcio e magnésio – o que pode exigir uma substituição constante.
Rotina de tratamento
Como não existe solução mágica, para muitos imigrantes, o que ajuda mesmo é desenvolver uma rotina de tratamento para reparar os danos causados pela água. Luana lava o cabelo uma vez por semana e sempre realiza etapas de nutrição, hidratação, reconstrução e acidificação. Ao todo, ela precisa de cerca de três horas por lavagem.
"Ser como era no Brasil, acho que não volta a ser", acredita Rafael, que mora há sete anos na Europa. Além de máscaras de tratamento, ele utiliza óleos para reduzir a quebra e facilitar o penteado ao longo do comprimento.
"Eu já aceitei, porque não tem como mudar. Quando eu me mudei para cá, afetava bastante minha autoestima, porque eu via que meu cabelo estava muito seco", conta Luana. "Mas aqui você percebe que a cultura em relação a beleza é muito diferente. Eles não dão essa importância que talvez damos no Brasil", diz.