Na semana em que o presidente dos Estados Unidos Donald Trump comemorou seu primeiro ano do segundo mandato, protestos se intensificaram pelas ruas de Copenhague, na Dinamarca, e em Nuuk, capital da Groenlândia. As manifestações eram resposta ao recrudescimento de sua obstinação pela maior ilha do mundo. Em seu primeiro governo, ele já falava em comprá-la, o que soava uma excentricidade, à época.
+ Espanha e Alemanha recusam ‘Conselho de Paz’ de Trump; veja países que participarão
Hoje, o mundo sabe que a intenção é real. Depois de ter cercado e invadido a Venezuela e ter sequestrado Nicolás Maduro, mantendo-o preso em Nova York – e isso logo no terceiro dia de 2026 –, Trump voltou sua atenção para seu antigo “objeto do desejo”. Ele está empenhado em conseguir a ilha e agora há uma preocupação global em torno do que efetivamente pretende fazer para realizar seu sonho. Afinal, o presidente não teme organismos internacionais como a ONU. Pelo contrário, está empenhado em desacreditar a entidade.
Trump assumiu a presidência em 20 de janeiro do ano passado, mas poucos dias antes da posse já tinha mencionado a ilha, um território autônomo da Dinamarca que adentra o Círculo Ártico. Em março, em discurso no Congresso Nacional, em sessão conjunta da Câmara e do Senado, ele disse que tinha uma mensagem para o povo da Groenlândia.
“Nós apoiamos firmemente o direito de vocês de determinar o próprio futuro. E, se escolherem, nós os acolheremos nos Estados Unidos. Nós precisamos da Groenlândia para a segurança nacional e até para a segurança internacional, e estamos trabalhando com todos os envolvidos para tentar obtê-la. Mas precisamos dela, de fato, para a segurança global. E acho que vamos conseguir, de um jeito ou de outro”, declarou.
Desde então, essa ideia foi ganhando corpo, em meio a ações e pressões de seu governo sobre outros territórios, da Faixa de Gaza até o Canal do Panamá. Ao mesmo tempo, Dinamarca, países-membros da Otan (a Organização do Tratado do Atlântico Norte) e a própria União Europeia deixavam claro que a Groenlândia não está à venda. Neste ano, no sábado 17, veio a atitude mais contundente de Trump para tentar concretizar seu plano.
Ele ameaçou países europeus com tarifas de até 25%, como forma de pressão para obter o aval do continente sobre o controle da ilha, o que ele considera essencial para a construção do projeto chamado “Domo de Ouro”, um sistema de defesa antimísseis anunciado pelo mandatário em maio do ano passado.
Tarifas para quem discordar
Foi na rede social Truth, plataforma que pertence a Trump, que o republicano comunicou sua intenção de aumentar as tarifas dos países europeus que estão interferindo em seu plano. A mensagem avisava que, a partir de 1º de fevereiro, Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia – todos integrantes da Otan e todos aliados –estariam sujeitos a sobretaxas de 10% sobre produtos enviados aos Estados Unidos.
“Em 1º de junho de 2026, a tarifa será aumentada para 25%”, acrescentou no post, explicando que a taxa seria aplicada “até que se alcance um acordo para a compra completa e total da Groenlândia”. Na visão de Trump, as nações mencionadas estão envolvidas em um jogo muito perigoso ao assumirem “um nível de risco que não é sustentável, nem tolerável”. E emendou: “Portanto, é imperativo que, a fim de proteger a paz e a segurança mundiais, sejam tomadas medidas para que essa situação potencialmente perigosa termine rapidamente”. Por fim, veio o recado. Ele estava aberto a negociar imediatamente com a Dinamarca ou com qualquer um dos países ameaçados com o novo tarifaço.
Em resposta, os presidentes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa, divulgaram um comunicado, assinado em conjunto, repudiando a decisão do republicano. “A imposição de tarifas prejudicaria as relações transatlânticas e acarretaria o risco de uma espiral descendente perigosa. A Europa permanecerá unida, coordenada e comprometida com a defesa de sua soberania”.
Indignação nas ruas
Em Nuuk e na Dinamarca, eclodiram protestos. Muitas pessoas usavam um boné que virou uma espécie de marca da indignação. Eles estampam a frase “Make America Go Away” (“Faça a América Ir Embora”), em alusão ao lema trumpista “MAGA – Make America Great Again” (“Faça a América Grande Novamente”). Outro slogan fez sucesso: “Nu det NuuK”, trocadilho em dinamarquês que se assemelha a “Nu det nok” (“Agora é o bastante”) e que remete à capital da ilha.
A tensão em torno da Groenlândia teve sua temperatura elevada e avançou sobre uma discussão a respeito de ruptura da ordem mundial porque, ao mesmo tempo, em Davos (Suíça), líderes e chefes de governo e o topo da elite empresarial do planeta se encontravam no Fórum Econômico Mundial. Na pauta, claro, entrou a forte pressão do mandatário norte-americano para incorporar a ilha.
Um dos pronunciamentos mais fortes do Fórum foi do premiê canadense, Mark Carney, na terça-feira, 20. Ele ressaltou que o mundo não atravessa uma transição: há uma quebra. E disse que há forças intermediárias importantes, com outros valores e posturas. “Vou falar sobre uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade dura, em que a geopolítica da grande potência não está submetida a limites, nem restrições. Por outro lado, outros países, especialmente as potências intermediárias como o Canadá, não são impotentes. Eles têm a capacidade de construir uma nova ordem que incorpore nossos valores, como o respeito aos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a solidariedade, a soberania e a integridade territorial dos diversos Estados”, declarou.
Carney pontuou que nas últimas duas décadas, uma série de crises (financeiras, sanitárias, energéticas e geopolíticas) expôs os riscos da integração global extrema. “Mais recentemente, as grandes potências passaram a usar a integração econômica como arma, tarifas como alavanca, infraestrutura financeira como coerção e cadeias de suprimento como vulnerabilidades a serem exploradas. Não é possível viver na mentira do benefício mútuo da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação”, argumentou.
O prêmie canadense afirmou ainda que as instituições multilaterais nas quais as potências intermediárias confiam — ONU, OMC e COPs — estão sob ameaça. “Como resultado, muitos países chegam à mesma conclusão: precisam desenvolver maior autonomia estratégica em energia, alimentos, minerais críticos, finanças e cadeias produtivas”.
Diante desse cenário, para enfrentar “problemas globais”, o Canadá decidiu investir em uma “geometria variável”, ou seja, diferentes coalizões para diferentes temas, como explicou Carney. “Firmamos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia, incluindo a adesão aos mecanismos europeus de compras de defesa. Assinamos 12 acordos comerciais e de segurança em quatro continentes em seis meses. Nos últimos dias, concluímos novas parcerias estratégicas com China e Catar”, enumerou. O prêmie fez uma proposta: “Diante da rivalidade entre grandes potências, os países intermediários têm uma escolha: competir por favores ou se unir para criar um terceiro caminho com impacto real. (…) Sabemos que a velha ordem não vai voltar. Não devemos lamentá-la. Nostalgia não é estratégia”.
Sobre a questão nevrálgica da semana, foi direto: “Na soberania do Ártico, estamos firmemente ao lado da Groenlândia e da Dinamarca. O Canadá se opõe firmemente a tarifas relacionadas à Groenlândia e defende negociações focadas para alcançar nossos objetivos comuns de segurança e prosperidade no Ártico”.
Também na terça-feira, 20, o primeiro-ministro belga Bart De Wever usou palavras duras em Davos para criticar Trump. Ele disse que o presidente dos Estados Unidos estava se tornando um “monstro” ao pressionar a Dinamarca a abrir mão do controle do território ártico, rico em minerais. De Wever comentou que, até então, a União Europeia vinha tentando “apaziguar o novo presidente na Casa Branca”, referindo-se ao acordo comercial firmado com os Estados Unidos no ano passado, que recebeu críticas por alguns que consideraram uma capitulação do velho continente a Washington. Porém, ele salientou que agora muitas “linhas vermelhas” estão sendo ultrapassadas. “Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo miserável é outra”, emendou.
O presidente francês Emmanuel Macron também condenou a postura de Trump. “A competição com os Estados Unidos busca subordinar a Europa, o que é inaceitável. Aceitar passivamente uma nova subordinação dos EUA não faria sentido. Não faz sentido ameaçar seus aliados com tarifas”, criticou. Ele ainda acenou que a UE poderia recorrer a medidas de retaliação, como o instrumento anticoerção, o que significa impor tarifas, restringir acessos a contratos públicos europeus e limitar investimentos do país que pratica a coerção.
Outra liderança que escancarou seu descontentamento foi Ursula von der Leyen. Ela afirmou, em discurso no Parlamento Europeu, em Estrasburgo (França), que “a velha ordem mundial acabou”. A presidente da Comissão Europeia alertou que essa mudança não é sísmica, mas permanente, citando um quadro instável que engloba Groenlândia, os bombardeios incessantes da Rússia na Ucrânia e tensões no Irã, no Oriente Médio e no Indo-Pacífico.
Na quarta-feira, 21, foi a vez de Trump se pronunciar em Davos. O mandatário afirmou que não usará a força para obter o controle da ilha. Mas recorreu à palavra diversas vezes. “Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida usar a força excessiva, caso em que seríamos, francamente, imparáveis, mas não farei isso. Agora todos estão dizendo: ‘Ah, que bom’. Essa é provavelmente a declaração mais importante que fiz, porque as pessoas pensavam que eu usaria a força. Não preciso usar a força. Não quero usar a força. Não usarei a força”.
O recuo e o acordo
No mesmo dia, o republicano recuou em suas ameaças de impor tarifas como alavanca para tomar a Groenlândia e disse que um acordo estava à vista. “É um acordo com o qual todos estão muito satisfeitos”, disse Trump aos repórteres após sair de uma reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. “É um acordo de longo prazo. É o melhor acordo de longo prazo. Ele coloca todos em uma posição muito boa, especialmente no que diz respeito à segurança e aos minerais.” Ele acrescentou: “É um acordo que é para sempre”. Um porta-voz da Otan informou que as negociações entre Dinamarca, Groenlândia e Estados Unidos seguiriam em frente “com o objetivo de garantir que a Rússia e a China nunca consigam se estabelecer — econômica ou militarmente — na Groenlândia”.
O ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, disse à emissora pública DR que era crucial “encerrar essa questão”, respeitando a integridade e a soberania da Dinamarca e o direito do povo da Groenlândia à autodeterminação. Detalhes não foram abertos, mas, de acordo com o jornal The New York Times, está em discussão a entrega de áreas da ilha para o governo norte-americano construir bases militares nesse território que desperta tanta cobiça por parte de Trump.
Do aperto de mão à ameaça de “tarifaço no champanhe”
A relação entre o presidente francês Emmanuel Macron e o republicano Donald Trump consolidou-se como um eixo complexo da diplomacia ocidental contemporânea. A tentativa de alinhamento pragmático dos líderes alterna com visões de mundo incompatíveis: de um lado, o multilateralismo defendido pela França; do outro, o protecionismo expansionista da Casa Branca.
A tensão aumentou quando Trump apresentou a ameaça de barreiras tarifárias sobre produtos de alto valor agregado – como o champagne francês – atrelada à discordância em relação à Groenlândia.
O histórico de fricção entre Trump e Macron remonta a episódios de carga simbólica, como o aperto de mão durante a Conferência de Paz no Oriente Médio, em 2025. Ao se encontrarem diante das câmeras, o cumprimento transformou-se em um embate de resistência física que durou alguns segundos. Os mandatários pressionaram a mão um do outro enquanto realizavam uma espécie de “queda de braço” não planejada, o que gerou estranhamento no público.
Na mais recente picuinha entre os dois, Trump divulgou mensagens trocadas com o presidente francês depois que Macron manifestou à imprensa sua intenção de não aderir ao Conselho de Paz criado pelo republicano para administrar a Faixa de Gaza no pós-guerra. Em sua rede social, o presidente dos EUA mostra que o mandatário francês o chama de amigo, concorda com a atuação de seu homólogo na Síria e no Irã, porém, traça um limite em relação à ilha. “Eu não entendo o que você está fazendo sobre a Groenlândia”, escreveu Macron. No fim, ele o convida para uma reunião e um jantar em Paris e assina “Emmanuel”.
Fiel aos preceitos da ONU, Macron se consolida como o contraponto europeu ao ceticismo de Trump às organizações internacionais. Como represália a essa resistência diplomática, a administração Trump sinalizou a possibilidade de tarifas retaliatórias de 200% contra vinhos e champagne franceses. O foco na bebida não é casual, trata-se de um setor estratégico para a balança comercial do país, desenhado para atingir a base de apoio econômica de Macron.