Os chatos de final de ano, parte 2

Na semana passada, os leitores que acompanham esta coluna devem lembrar, tratei de um personagem bastante comum no mundo corporativo, os chatos de final de Ano. Naquela ocasião, tratei das características fundamentais desse personagem e desenvolvi, com mais detalhes, uma de suas principais variantes: o chato do almoço de confraternização. Na coluna desta semana, concluo o assunto com mais dois exemplares destes sujeitos que, no futuro, devem ser extintos do planeta ou a seleção natural não passa de uma lenda. Sem mais delongas, vamos a eles.

O chato do amigo secreto (ou oculto)Verdade seja dita, esse chato não se restringe apenas ao ambiente profissional. Pode ser encontrado, também, na turma do futebol, na família e, mais recentemente até em versão digital, nos grupos de WhatsApp.

Ou seja, quanto mais sociável você for, mais presentes terá que comprar.

Há quem desconfie, inclusive, que foi para este fim que criaram o 13º salário.

Por rigor científico, vamos nos ater aqui ao chato do amigo secreto corporativo.

Para esse ser inconveniente, não só os colegas de trabalho precisam de um momento de congraçamento, como tal momento precisa ser traduzido em presentes.

Assim o chato produz de próprio punho uma caixinha tosca com 72 papeizinhos dobrados com o nome de cada funcionário da empresa. Feito o sorteio, é inevitável.

O desgraçado esqueceu da dona Cleudes do financeiro, então o processo todo precisa ser refeito.

Você, como não poderia ser diferente, cai com o Magal da expedição, indivíduo desconhecido, de poucos amigos e de quem ninguém faz a mais remota ideia dos interesses.

A troca de presentes, obviamente, fica combinada para o almoço de confraternização.

A saga do final do ano chega aos seus derradeiros momentos e, com ela, a sua paciência

Bem intencionado, você compra um livro de auto-ajuda, que o Magal pede a nota, porque já leu.

Finalmente, na hora de receber o seu presente, você descobre que sua amiga secreta era a dona Cleudes do financeiro que, ofendida por ter sido esquecida, faltou.

O chato da doação.

Antes de mais nada, quero deixar claro que acho louvável qualquer atitude caridosa. Sou o primeiro a reconhecer
a importância de ajudar aqueles que necessitam.

Mas acredito que essa deveria ser uma decisão pessoal e não imposta. O chato da doação não pensa assim.

Por isso, se prepara com antecedência, buscando uma paróquia, uma ONG, uma entidade com a qual você pode não ter nenhuma afinidade, mas que ele descobriu que precisa muito de auxílio.

Para isso, o chato da doação produz uma lista do que precisa ser angariado.

As opções incluem alimentos não perecíveis, brinquedos, roupas ou até mesmo quantias em dinheiro.

Você desconfia que, muitos dos seus colegas, também não sabem se aquelas instituições são as que gostariam de ajudar.

Alguns, inclusive, o fazem mensalmente, programando parte de sua renda para essa nobre iniciativa.

Mas, sob risco de parecerem desumanos, cedem ao chato.

Como era de se esperar, a lista de doações cresce e, você tem que admitir, acaba sendo motivo de orgulho de todos que participaram.

Mas o chato da doação não se dá por satisfeito.

Geralmente ali pelo dia 20 de dezembro, o canalha envia um e-mail, intimando todos a irem com ele entregar tudo que foi coletado. No sábado, às 8h.

Num bairro tão distante, mas tão distante, que você não encontra nem no Google.

“Segue mapinha anexo”, conclui o email.

A boa notícia é que, depois dessa, mais um ano está oficialmente encerrado.

Aos leitores dessa coluna, aos colegas da ISTOÉ (que não participaram do almoço, do amigo secreto ou das doações) deixo meus sinceros votos de um feliz final de ano e um 2022 repleto de boas notícias, saúde e sorte.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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