Os chatos de final de ano, parte 1

Você que trabalha em uma empresa com mais de 5 funcionários, já sabe: em dezembro um ou mais de seus colegas de trabalho vão sair do armário da normalidade e se revelar um dos chatos de final de ano.

A característica comum deste infalível personagem é o fato de acreditar que o ambiente profissional torna as pessoas “muito frias e distantes” e que não existe momento melhor do que a emoção do final do ano para aproximar todos os que dividem o mesmo relógio de ponto.

Essa mente doentia, então, decide que é imprescindível unir a empresa através de diversos eventos sociais.

Essa passa a ser a missão dos chatos de final de ano.

Digo “chato” porque, a bem da verdade, quando o ano está por terminar, tudo que a gente não deseja é mais um compromisso.
Mais uma demanda.

Mais um prazo.

O que você quer mesmo é que o ano acabe o quanto antes.

Esse ano, especialmente, você deve estar querendo que termine desde março.

Na minha experiência aprendi que, dependendo de cada empresa, esses personagens podem ser uma única pessoa, ou – o que é ainda pior – serem pessoas diferentes.

Uma pessoa é ruim, mas é mais fácil de escapar quando o chato é avistado no canto do café. Vários, complica, porque não há como se esconder.

De qualquer forma, o resultado é ter que lidar com um turbilhão de e-mails, memorandos, avisos das diferentes iniciativas sendo organizadas.

Chega o final do ano e, com ele, todos os eventos dos quais um personagem obriga você a participar

Passo então a descrever cada caso.

O chato do almoço de confraternização.

Geralmente seu papo é uma variante de:

– Pessoal, e um almocinho de final de ano, hein?

Tem que rolar, é ou não é?

Você sabe o que isso significa, já que preparou a agenda de final de ano com todas as entregas de trabalho minuciosamente planejadas para garantir que não precisará trabalhar entre 25 dezembro e 1 de janeiro, período em que o chefe informou que quem entregasse os trabalhos à tempo, poderia folgar.

Um almoço de final de ano vai exigir um completo replanejamento, pois você sabe que o evento vai tomar não apenas o horário de almoço, mas bem provavelmente a tarde toda.

O chefe é o primeiro a apoiar.

“Quem não for no almoço pode passar no departamento pessoal no dia seguinte” – faz a divertida brincadeira em
um e-mail.

Como ninguém quer parecer estraga-prazeres, acabam todos concordando.

Toca, então, procurar uma churrascaria rodízio que ainda tenha uma mesa livre para 43 pessoas.

Evidentemente, todos os restaurantes da região já estão com as agendas lotadas para almoços de final de ano desde outubro, o que deixa boa parte da equipe, inclusive você, com o coração repleto de esperanças.

Mas a alegria dura pouco.

O chato envia um email dizendo que encontrou um “lugarzinho delicioso” que serve uma rabada incrível.

O lugar, curiosamente, fica a duas quadras de distância da casa do chato, que mora a 48 km da empresa.

“Em anexo, o mapinha de como chegar lá”

Convencidos de que nada pode piorar, todos se resignam ao evento.

Mas como o inferno tem subsolo, na véspera, o chefe envia um memorando informando que, devido ao baixo faturamento do ano, a matriz não vai pagar pelo almoço, mas que todos podem ficar tranquilos, porque já falaram com o restaurante e o almoço vai custar apenas R$ 250 por pessoa.

O almoço acontece e você tem que admitir que foi melhor do que esperava.

Principalmente quando o chato, que não ia precisar dirigir, encheu o caneco e decidiu dizer tudo que acha
do chefe.

Nem tudo está perdido.

A coluna de hoje terminou, mas não os chatos de final de ano.

Na próxima semana apresentarei outros dois exemplares.

Não percam.


Sobre o autor

Mentor Muniz Neto, 51, é escritor. Mora em São Paulo com suas filhas Manuela, Olivia e Catarina e escreve crônicas do cotidiano que às vezes parecem realismo fantástico


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