Brasil

Os bigodes bélicos

Antes de se encontrar com Bolsonaro no Rio de Janeiro, Bolton, conselheiro de Trump, deixou claro que o que não falta é afinidade entre seu chefe e o brasileiro

Crédito: HO / JAIR BOLSONARO'S PRESS OFFICE / AFP

FRUGAL Bolsonaro, à esq., recebe Bolton, à dir., para café da manhã em sua casa no Rio (Crédito: HO / JAIR BOLSONARO'S PRESS OFFICE / AFP)

Na manhã de quinta-feira 29, aumentou o cheiro de pólvora na casa do presidente eleito Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, quando, pontualmente às 7h, os vastos bigodes brancos de John Bolton, conselheiro de Segurança Nacional do presidente americano Donald Trump, foram recebidos com uma rápida continência batida pelo brasileiro. Bolton passou pelo Brasil a caminho da reunião do G20, o grupo dos países mais ricos do mundo, em Buenos Aires, na Argentina, para fazer a primeira aproximação entre os governos Trump e Bolsonaro. O diplomata foi recebido com um café da manhã simples, em uma mesa sem toalha, queijos em bandeja de isopor e sucos servidos direto de garrafas TetraPak. Não foram divulgados detalhes sobre o que se conversou no encontro. “Não haverá espaço para jornalistas”, avisou, antes, a embaixada americana no Brasil.

Como se vê, o que não faltam são afinidades para fazer prosperar as relações Bolsonaro-Trump. E se existe uma coisa que Trump aprecia é descobrir alguém que concorda com ele. Ambos têm uma predileção por se comunicar diretamente com os cidadãos, sem intermediação da imprensa. Ambos, também, desprezam o sistema político multilateral que atualmente rege a ordem mundial.

As recentes declarações de Bolton, dadas antes de seu embarque para o Brasil, foram calibradas para realçar essas semelhanças. Ele falou, por exemplo, de uma certa “troika da tirania”, “esse triângulo de terror que se estende de Havana (Cuba) a Caracas (Venezuela) e a Manágua (Nicarágua), é a causa do imenso sofrimento humano, motivo de enorme instabilidade regional e a origem de um sórdido berço do comunismo no hemisfério ocidental”. Bolton deixou claro que a Casa Branca considera a eleição de Bolsonaro um passo positivo no sentido de fazer essa “troika desmoronar”. As afirmações certamente deixaram lisonjeada a equipe de Bolsonaro, cujo indicado para o Ministério das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, que também estava presente no encontro com Bolton, na semana passada anunciou que pretende “extirpar” o “marxismo cultural” do Itamaraty.

Antes de passar pelo Brasil, Bolton também declarou que pretendia falar com Bolsonaro sobre a preocupação dos Estados Unidos com o terrorismo. Trump espera que o Brasil classifique o Hezbollah, um grupo fundamentalista libanês, como uma organização terrorista. O pleito não é infundado. O Hezbollah tem laços estreitos com o PCC, a principal facção criminosa do Brasil, e os utiliza para financiar suas operações ao redor do mundo.

Em tempo: a referência ao cheiro de pólvora no início desse artigo remete à fama militarista que John Bolton adquiriu quando trabalhou para o ex-presidente americano George W. Bush. Ele foi um dos principais protagonistas da invasão do Iraque, em 2003, que depôs o ditador Saddan Hussein. À época, justificava a intervenção com o argumento de que o Iraque tinha armas de destruição em massa, o que nunca se confirmou. Na gestão Trump, Bolton tem mantido uma postura bem menos intervencionista, obedecendo à promessa do chefe de não imiscuir-se em problemas militares dos outros. Não seja por isso: Bolton também é um grande defensor do direito de cidadãos comuns portarem armas. Quanta semelhança.

 

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