Nossa República nunca navegou em mar de rosas. Acumula alto número de abomináveis atentados políticos, diversos deles com três particularidades. A primeira: raramente mudaram o destino do País e só precipitaram, ainda assim poucas vezes, alguns fatos que já estavam na iminência de acontecer. A segunda: quase sempre o autor errou o alvo e feriu ou matou quem não pretendia assassinar. A terceira: o criminoso, geralmente, é “lobo solitário”. Principais casos:

Acertou-se o alvo

1915 – o senador Pinheiro Machado, apelidado de “o condestável”, mandava e desmandava no Brasil. Ao sair de um hotel no Rio de Janeiro, levou duas facadas nas costas — na época noticiou-se que fora uma punhalada, mas na verdade tratava-se de uma faca enferrujada comprada num camelô. A sua morte em nada mudou os rumos republicanos, os “condestáveis” estão aí até hoje. O assassino chamava-se Francisco Manso Coimbra.

1930 – o então governador da Paraíba João Pessoa é assassinado a tiros no Recife. João Pessoa concorrera à eleição como vice de Getúlio Vargas, e a sua chapa perdera para a de Julio Prestes. Não foi a sua morte que necessariamente levou Getúlio ao poder com a Revolução de 1930. Precipitou a revolução e a deposição de Washington Luís, mas elas viriam de qualquer forma: era inevitável que a incipiente burguesia derrotasse a velha estrutura agrária do País.

Errou-se o alvo

1897 – um soldado tentou matar a tiros o presidente Prudente de Moraes, que estava acompanhado do ministro da Guerra, marechal Carlos Machado (venceu a Guerra de Canudos). O soldado errou o tiro, o marechal se atracou com ele, levou duas facadas e morreu. Nenhum trauma profundo com o episódio mudou o rumo da história.

1954 – é o ano do atentado da rua Toneleros. Nela, morava Carlos Lacerda, adversário de Getúlio. Ao chegar em casa, seu carro foi metralhado. Lacerda saiu ferido no pé, e, por engano, assassinou-se o major da Aeronáutica, Rubens Vaz. Ocorreu a 5 de agosto. Dezenove dias depois, Getúlio se matou. A sua queda, no entanto, já era fato definido, o seu governo se esgotara com a ditadura do Estado Novo e o “mar de lama” da corrupção. O atentado deu-se a mando de Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio. O crime antecipou a queda e o suicídio, mas não o determinaram.

1963 – o senador Arnon de Mello, pai de Fernando Collor, é desacatado no Congresso pelo senador José Kairala. Arnon disparou a sua arma mas errou o alvo, matou o colega Silvestre Péricles, que nada tinha a ver com a briga. O Brasil não se abalou.

1966 – O grupo de esquerda Ação Popular queria matar o general Arthur da Costa e Silva no aeroporto de Guararapes, no Recife. Quando o avião pousou, uma bomba foi detonada. Dois militares morreram. Costa e Silva não estava na aeronave.