Os 23 pecados capitais do governo

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No último domingo de Ramos — não o da festa cristã que celebra a semana anterior à Páscoa, mas sim no do ministro Luiz Eduardo Ramos, da Casa Civil, dias atrás —, Messias, não o da dimensão superior, o terreno, aquele mesmo que atende também pela alcunha de capitão Bolsonaro, teve de se curvar no altar do purgatório para espiar seus 23 pecados. Era uma lista de malversações sanitárias, crimes à saúde de toda a natureza, decisões erráticas, orientações fraudulentas de tratamento e inomináveis barbeiragens, contra as quais o governo buscava justificativas para a sua defesa junto à CPI da Covid. A relação de Ramos constituía um verdadeiro compêndio de aberrações, quase uma delação premiada, com provas e práticas a evidenciar a perversão do mandatário, responsável maior pela “causa mortis” de milhares de brasileiros. Fatos concretos estão ali. Não há nem como contestar, visto serem de conhecimento e testemunho geral. Da negligência no processo de aquisição de vacinas à promoção e produção indevida de medicamento comprovadamente ineficaz (com gastos inexplicáveis), desprezando orientações da OMS.

Desde o início, com o seu negacionismo, o governo minimizou a gravidade da pandemia. Tripudiou sobre ela. Fez pouco caso dos enfermos e de seus familiares. “Vamos deixar de mimimi”, dizia. “E daí?”, questionava quando indagado sobre o número de mortos, emendando logo a seguir com o atributo pejorativo de “País de maricas”, devido ao luto generalizado a tomar o povo. Não restam dúvidas hoje – quando a Nação alquebrada pelo demolidor número de mais de 400 mil mortos, cai desolada – sobre a investida bolsonarista desfavorável à vida. O mandatário parece alimentar algum tipo de obsessão funesta e singular de desprezo ao semelhante — bem descrita na literatura psiquiátrica. Para ele, é natural que “os fracos” tombem pelo caminho. 30 mil, 100 mil, 400 mil? “Paciência, fazer o que? É da vida”. Vida e morte ao alcance do dedo do “mito”. Foi ele, no topo da hierarquia de decisões de Estado, quem retardou recursos e deliberações para o enfrentamento da crise no Amazonas, levando pacientes a morrerem por asfixia, em um colapso do sistema sem precedentes. Foi ele quem repudiou campanhas de prevenção. Quem cancelou leitos de UTIs do SUS, quando mais eram necessários. Quem politizou a pandemia. Quem deixou apodrecer até o vencimento estoques de testes da doença, condenando o Brasil a ter o mais baixo índice de testagem do mundo (apenas 13,6% da população), segundo o “Our World Data” da Universidade de Oxford. Bolsonaro, em pessoa, não aceitou 70 milhões de doses da vacina da Pfizer, ainda em meados do ano passado. Reclamou da pressa sobre o assunto. Disseminou fake news. Promoveu aglomerações. Pressionou, exigiu e obrigou ministros a defenderem a hidroxicloroquina. Fez o diabo. Pesquisadores da Universidade de Michigan e da FGV elaboraram um estudo, denominado “Global Health Security Index”, que integrou o relatório comparativo das políticas globais anti-covid, e constataram que Bolsonaro usou de seus poderes constitucionais para negligenciar a pandemia e boicotar estados e municípios envolvidos no combate à doença. Por quatro vezes, em meio à pandemia, trocou o ministro da Saúde, algo inédito na história. Interferiu como pôde nos protocolos de tratamento, na forma de divulgação dos dados, nas escolhas de contratos e caminhos. Rejeitou nada menos que 11 ofertas de vacinas da Covid — e isso considerando apenas os episódios em que há comprovação documental de tal omissão. Por duas vezes recusou a participação nacional no consórcio da Covax Facility para aquisições de imunizantes a preços mais em conta. E, quando finalmente o fez, encomendou doses para apenas 10% da população, o menor limite de pedido possível. Uma das maiores publicações científicas do mundo, a Revista “Nature”, definiu, com todas as letras, sem ressalvas, que Jair Bolsonaro “provocou uma crise épica na Saúde” com a sua postura anticientífica e de falta de diálogo junto aos especialistas. Para a “Nature”, enquanto o Brasil e o mundo enfrentavam a “fase mais negra” da doença, o presidente da maior nação latino-americana passeava de Jet Ski, recusava-se a usar máscara, desprezava a dor alheia e reclamava do isolamento. “Não há exemplo paralelo de tamanha omissão no planeta”. Outro artigo, da “The Lancet”, revista médica de maior alcance internacional, aponta erros crassos na subutilização dos fundos de emergência de R$ 44,2 bilhões e o desmantelamento técnico da estrutura de enfrentamento do Ministério da Saúde, com a substituição de especialistas por militares sem a devida competência. A publicação “Science” relaciona o número de mortes no Brasil ao descompasso das ações federais. A comunidade global já tem o seu veredicto: Bolsonaro é um genocida em escala, de perigo crescente. Assombrosa é a espera de sua punição pelas autoridades competentes. A CPI da Covid inicia, com certo atraso, as investigações. O “mito” Messias, como qualquer réu em vias de prisão, alega não ter feito nada de errado. Ou não percebe, ou escolhe o papel de sonso. Tenta procrastinar os trabalhos. Recorre a ardis nos tribunais para dificultar a evolução das sessões e faz manobras paralelas buscando tirar o foco do assunto. O que move o presidente, para variar, é única e exclusivamente o desejo de se perpetuar na cadeira do Planalto. E, por incrível que possa parecer, conta com a morte como a sua grande aliada. Ao menos acredita nisso. Senão, vejamos: segundo ele próprio prega na sua cartilha de encíclicas do apocalipse, a melhor solução vem por via de uma contaminação de 70% das pessoas para atingir a esperada imunidade de rebanho. É o ideal, prega ele. Vacinação, no ritmo trôpego a seguir, não contará com a sua ajuda, nem mesmo por meio de campanhas destacando a importância da adesão. Afinal, o temor acalentado no Planalto é sobre o risco de muitos virarem jacaré. No plano destrutivo do mandatário, o melhor a fazer é armar, literalmente, a população e retirar controles de segurança — como os radares das estradas e as cadeirinhas de proteção dos bebês nos carros. Nessas deliberações expõe o grau de responsabilidade devotado aos eleitores que o colocaram no cargo. Anote qualquer decisão do Messias de araque.

Invariavelmente, irá comprovar o pendor irrefreável ao morticínio. Pedagógico seu comportamento. Grilagem, liberação de garimpos, invasão de terras, confrontos indígenas, incitação ao caos nas ruas estão juntos na mesma pajelança assassina. No momento, é necessário foco nas investigações da Comissão de Inquérito do Congresso. Na grotesca versão oficial, já disse Bolsonaro, “a melhor vacina contra a Covid-19 é o próprio coronavírus”. Talvez contra os seus 23 pecados capitais, a CPI da Covid lhe caia bem. O culto ao negacionismo está com os dias contados. E nem mesmo um salvador da pátria pode escapar do julgamento por tamanho mal. Até porque, como ele mesmo afirmou: é Messias, mas não faz milagres. No Juízo Final, as 400 mil mortes sairão bem caras ao capitão.


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