Cultura

Orgulho e preconceito

Steven Spielberg arriscou-se ao dirigir uma nova versão para um clássico, mas se deu bem: “Amor, Sublime Amor” mantém a mágica de um dos musicais mais incríveis da história do cinema e ainda aborda a presença dos latinos nos EUA

Crédito: Niko Tavernise

ROMEU E JULIETA Jets e Sharks: trama de Shakespeare adaptada para os anos 1950 (Crédito: Niko Tavernise)

Quando “Amor, Sublime Amor” (West Side Story) estreou na Broadway, em 1957, foi uma verdadeira revolução: com músicas de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim, o espetáculo trazia o romance de “Romeu e Julieta”para as ruas decadentes do Upper West Side, em Nova York. A sacada genial do autor da história, Arthur Laurents, foi trocar as famílias rivais na trama de Shakespeare, Montéquio e Capuleto, por gangues de americanos, os Jets, e porto-riquenhos, os Sharks, adicionando uma complexa camada social à tragédia original do dramaturgo inglês. O sucesso foi tão grande, que apenas quatro anos depois o musical ganhava uma versão cinematográfica estrelada por Natalie Wood, Richard Beymer e Rita Moreno.

“Um filme assim poderia ser lançado todos os anos porque diz algo sobre nós, não importa a época” David Alvarez, ator (Crédito:Niko Tavernise)

De lá para cá, passaram-se seis décadas. Muita coisa mudou desde que o filme de Jerome Robbins e Robert Wise chegou aos cinemas, mas o preconceito e a discussão sobre a presença dos imigrantes latinos na sociedade americana ainda existe. Diante disso, Steven Spielberg tomou uma decisão arriscada: dirigiu o remake de um filme perfeito, vencedor de dez Oscars. O diretor reconheceu que sua tarefa era assustadora: “É muito intimidante pegar uma obra-prima e recriá-la por meio de um olhar diferente, sem comprometer a integridade de um dos grandes musicais da história. Ele tem cativado o público por décadas porque não é apenas sobre o amor. É uma obra com significado cultural e a premissa não perdeu sua relevância ao longo do tempo: a ideia de que o amor transcende o preconceito e a intolerância”. O filme ganha tom de tributo póstumo com a morte de Sondheim, aos 91 anos, na última sexta-feira 26. Há outra homenagem, mas em vida: a atriz porto-riquenha Rita Moreno, que interpretou Anita na versão original, agora é Valentina, proprietária da farmácia onde trabalha o jovem Tony (Ansel Egort). Ex-líder dos Jets e recém-saído da prisão, o “Romeu” se apaixonará por Maria (Rachel Zegler), irmã do líder dos Sharks, Bernardo (David Alvarez). O relacionamento proibido colocará ainda mais fogo na disputa entre as gangues que brigam pelas ruas de Nova York.

Apesar dos avanços tecnológicos, a versão de Spielberg é bem parecida com a original. As coreografias ganharam mais cenas aéreas – os drones facilitaram a vida dos cineastas – e algumas mudanças de locação. Por que, então, lançar esse filme agora? O próprio Spielberg responde: “Acredito que grandes histórias devem ser contadas e recontadas ao longo dos anos, para refletirem diferentes perspectivas e períodos”. O ator David Alvarez, que interpreta Bernardo, líder dos porto-riquenhos, afirma que a história é universal: “Um filme assim poderia ser lançado todos os anos porque diz algo sobre nós, não importa a época. É sobre amor, mas também sobre a divisão que o ódio pode causar. É importante mostrar às novas gerações o que é essencial para nós como seres humanos”.

TRILHA SONORA Bernstein e Sondheim: magia nas ruas de Nova York (Crédito:Niko Tavernise)

Para Mike Faist, ator que faz o papel de Riff, líder dos brancos, o filme é um espelho da comunidade. “O que nos divide é o medo, sentimento universal que extrapola o tempo. Se formos capazes de superar isso e ouvirmos, uns aos outros, podemos conquistar qualquer coisa.” Alvarez, porém, acredita que assistir ao filme atualmente é diferente. “Hoje vemos imigrantes de países que estão entrando em colapso. Não apenas em Porto Rico, como no filme, mas em Cuba, Síria, Líbia e outros lugares ao redor do mundo sabem o que é imigrar para um novo lugar para começar de novo.” A atriz Rita Moreno, primeira latina a ganhar um Oscar, em 1961, acha que o filme tem uma mensagem social: ‘Amor, Sublime Amor’ tem um lugar importante não apenas na história do cinema, mas na sociedade.”