Semanal

Operação vergonha alheia

Depois do desfile por Brasília, quando finalmente chegou a hora de o famoso exercício militar da Marinha do Brasil na cidade de Formosa, foi impossível conter o riso

Crédito: Reprodução/TV Brasil

Após a longa viagem do Rio de Janeiro até Goiás, com a malfadada passagem por Brasília, a “Operação Formosa” teve seu desfecho nesta segunda-feira, 16. Com direito a tiros de artilharia disparados não só pelo presidente Bolsonaro como também pelo ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, tudo correu como o esperado e, além do bolso do e da paciência do contribuinte, ninguém saiu ferido.

Como se o País não tivesse grandes problemas – uma pandemia que já tirou a vida de quase 570 mil pessoas –, Bolsonaro liberou sua agenda presidencial da manhã para se dedicar totalmente à operação. O maior exercício realizado pela Marinha tem sua tradição e ocorre anualmente desde 1988 – até aí quase tudo bem, não fossem os R$ 4 milhões gastos para a “brincar de guerrinha”.

A novidade do ano, no entanto, foi a presença do mandatário – aliás, é a primeira vez que um presidente da República assiste e participa da operação. Com duração de duas horas, e transmitido pela TV Brasil, as manobras que deveriam passar alguma seriedade e capacidade militar começam com o presidente e o ministro da Casa Civil simulando disparos com peças de artilharia.

Chamou ainda atenção a estranha transmissão televisiva, que contou com a trilha sonora da franquia “Missão Impossível” e com narração saída dos anos setenta, auge dos militares no poder. Quem estivesse zapeando pelos canais, poderia até pensar que se tratava de um episódio de “Os Trapalhões” ou ainda um quadro do “Programa do Ratinho”.

Os elementos usados na simulação, como uma simplória casinha de bonecas com telhado e janelas vermelhas, deram um tom ridículo ao que um dia talvez tenha sido sério. A internet, claro, foi ao delírio com as imagens, com internautas distribuindo diversas montagens, nunca elevando ou valorizando qualquer trabalho das Forças Armadas. Pelo contrário.

Ministros como Braga Netto, Augusto Heleno e até Marcelo Queiroga, o responsável pela Saúde, estavam presentes. Isso mesmo, o ministro da Saúde estava no evento militar. Para quê liderar o País em sua maior crise sanitária em um século se é possível fazer arminha com a mão ou aplaudir quem atira por prazer?

Voos de reconhecimento, destruição de objeto suspeito de apresentar risco químico ou biológico, helicópteros, aviões e até o salto de paraquedistas que entregaram uma bandeira do Brasil ao presidente.

Bolsonaro assistiu a tudo como quem vai para a Disney pela primeira vez. Como disse emblematicamente o antigo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, no dia histórico do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff: “Que Deus tenha misericórdia dessa nação”.