Cultura

‘Op Art’ de Francisco Sobrino tem primeira mostra no Brasil


Parece incrível que um artista do porte do espanhol Francisco Sobrino (1932-2014), representante maior da arte cinética europeia, nunca tenha feito uma única exposição no Brasil. Corrigindo essa falha, a Dan Galeria, que completa 50 anos, convidou o curador francês Franck James Marlot para organizar a mostra Estrutura Modular e Luz (aberta quinta), com 20 obras históricas produzidas em meio século de trabalho de Sobrino entre a Europa e América Latina. Marlot é associado à galeria Denise René (1913-2012), marchande de Mondrian e Duchamp que, em 1955, organizou a exposição Le Mouvement, marco zero da arte cinética.

Nesse ano, Sobrino encontrava-se em Buenos Aires, frequentando a Escola de Belas Artes, em que Lucio Fontana era professor. Lá conheceu o argentino Julio le Parc, expoente da “op art” e da arte cinética, com o qual fundaria o experimental Groupe de Recherche d’Art Visuel (1960-68). O coletivo tinha como proposta promover a interação do público com a obra. Eles desafiavam a percepção do espectador com peças que recorriam à iluminação artificial e ao movimento, utilizando materiais industriais como chapas de aço e acrílico.

“As pesquisas do grupo foram muito importantes para Sobrino desenvolver a lógica modular e reducionista de suas obras”, avalia Marlot, evitando confinar o espanhol num único movimento. Compreensível, uma vez que Sobrino combina a grade modernista do holandês Piet Mondrian (1872-1944), as experiências de integração da luz com o espaço real do húngaro Moholy-Nagy (1895-1946) e o construtivismo do russo Naum Gabo (1890-1977). Esse é seu DNA artístico. Mas podem ser considerados suas afinidades eletivas os minimalistas norte-americanos Robert Morris (1931-2018) e Robert Smithson (1938-1973), pioneiro da land art, que, a exemplo de Sobrino, usou espelhos para refletir a beleza de ambientes naturais.

Mondrian

Já na entrada da galeria, no lado esquerdo, o visitante atesta a origem de seus trabalhos tridimensionais em estudos bidimensionais mondrianescos que evoluíram para as permutações cromáticas de seus guaches sobre papelão e até mesmo para seus relevos em plexiglass. Seus guaches e a pintura, lembra o curador Marlot, ele chamou de “progressões lineares e sistemáticas de formas geométricas”. A partir de obras bidimensionais, Sobrino desenvolveu relevos e esculturas que envolvem o olhar do espectador num jogo ilusionista. Nele, a vibração de figuras geométricas coloridas sugerem certa instabilidade, estabelecendo uma relação lúdica que, segundo o curador, tem muito a ver com música.

O compositor Pierre Boulez, colecionador de arte, era uma referência do grupo cinético de Sobrino. “O serialismo de Boulez tem, sim, ressonância em sua obra”, confirma o curador da mostra. Como se sabe, Boulez tinha enorme admiração por John Cage, autor de Silêncio (1952), peça musical que traduz o que o título sugere. E Sobrino é considerado justamente o escultor do silêncio, flutuando entre a arte cinética e conceitual quando se propõe a associar sua obra à percepção fenomenológica, seguindo a filosofia de Merleau-Ponty. Ascético, Sobrino transforma o espaço inerte em dinâmico, levando o espectador à vertigem cinética.

Brancusi

“O ritmo cinético de suas esculturas verticais sugerem a arquitetura utópica das colunas infinitas de Brancusi, mas sua expansão foge de nosso campo visual”, observa o curador em frente a uma escultura da série Structure Permutionnelle, que Sobrino começou nos anos 1960 e seguiu produzindo até sua morte. Nessa escultura em aço inoxidável polido e espelhado, que deu origem a uma obra pública em Grenoble com seis metros de altura, há notáveis traços das formas verticais do construtivista russo Anton Pevsner (1886-1962), que, nunca é demais lembrar, também usou materiais que absorvem a luz (como o cristal de baccarat) para refletir o mundo natural. Sobrino está em boa companhia. Falta só o reconhecimento do colecionador brasileiro.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.