Brasil

Onyx encolheu

Alvo de reclamações de apoiadores do presidente eleito e citações em inquéritos têm criado uma saia justa para o futuro ministro da Casa Civil

Jorge William / Agência O Globo

Em seu conto “O Espelho”, Machado de Assis dizia que toda criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para dentro. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade de sua existência. Quando se olha no espelho, o futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, garante que seu capital político e suas atribuições não têm diminuído. E que as reuniões que fez esta semana com as bancadas do MDB e do PSDB seriam uma prova cabal disso. Mas, na visão de outros integrantes da equipe de transição ouvidos por ISTOÉ, Onyx é hoje metade do que se imaginava que ele seria logo depois da eleição do presidente Jair Bolsonaro. E não seria uma surpresa se daqui até 1º de janeiro ele acabasse perdendo também a outra metade. O seu maior problema agora é a investigação que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, autorizou que se abrisse contra ele pela denúncia de recebimento de R$ 200 mil de caixa 2 da JBS.

Na quarta-feira 5, o presidente eleito Jair Bolsonaro disse com todas as letras que Onyx pode acabar sendo alcançado por sua sanha moralizadora. Afirmou que pode “usar sua caneta Bic se houver denúncia robusta” contra o deputado Onyx (DEM-RS). Além dos embaraços com a Justiça, o virtual ministro da Casa Civil vem sendo duramente bombardeado por pessoas próximas a Bolsonaro, no sentido de que ele está distante dos parlamentares. Na prática, o ministério que deverá ocupar já perdeu espaços tradicionais no redesenho que o presidente eleito imaginava para a Casa Civil. A investigação contra Onyx funciona agora como espada de Dâmocles sobre seu pescoço. Até o vice-presidente, general Hamilton Mourão, fez eco a Bolsonaro, dizendo que é óbvio que Onyx terá de se retirar do governo caso se comprove alguma irregularidade contra ele.

Pasta esvaziada

Por enquanto, a possibilidade de afastamento de Onyx ainda ocupa o terreno das hipóteses. Mesmo que assuma a Casa Civil como anunciado desde o início pelo novo presidente, no entanto, ele já não exercerá o cargo com a mesma força que vinha tendo até aqui. No início, Bolsonaro dizia que ele seria um “superministro”. Mas foi lhe tirada a importante função de negociar emendas, cargos, compor a base do governo. As tarefas de negociação política serão agora de três outras pessoas: o próprio Bolsonaro; o futuro secretário de Governo, general Santos Cruz, e o futuro secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebbiano.

A aliados, Onyx se defende das críticas. Diz ter se concentrado no conhecimento profundo da máquina pública para repassar as informações que colhe dos representantes do atual governo para o presidente eleito, o que ele elegeu como prioridade de seu trabalho até aqui. O problema é que sem o poder de negociar emendas, por exemplo, Onyx terá bem pouco a oferecer nas negociações com a base aliada necessária para a governabilidade.

Os escorregões de Onyx

CAIXA 2

A abertura de investigação no STF contra Onyx para apurar recebimento de dinheiro em caixa 2 da JBS abalou a reputação do ministro. Bolsonaro admite demiti-lo se houver “denúncia robusta”

FAMÍLIA

Onyx tem sofrido bombardeio até dos filhos de Bolsonaro, que têm comentado com aliados não confiarem plenamente na capacidade de negociação do futuro ministro chefe da Casa Civil

MOURÃO

O vice-presidente Hamilton Mourão quer fazer ele mesmo uma das atribuições da Casa Civil, que é a gerência interna do andamento dos projetos nos Ministérios. Além disso, Mourão é um dos principais críticos da manutenção de Onyx no governo por conta da investigação de crime de caixa 2

BOLAS NAS COSTAS

Aliados reclamam que Onyx teria se isolado demais depois que passou a comandar a transição. Descuidou da pauta do Congresso e acabou levando ali “bolas nas costas”. A maior delas aconteceu no aumento do salário para os ministros do STF, que cria um efeito cascata com impacto financeiro de R$ 1,6 bi anual aos cofres públicos federais

DESAUTORIZAÇÕES 

Embora não tenha sido o único, Onyx sofreu com as desautorizações públicas de Bolsonaro. A última foi com relação à decisão de não mais sediar no ano que vem a Conferência do Clima

EMENDAS

Apesar de ter que negociar com parlamentares, Onyx não vai ter a chave do cofre. A liberação de emendas ficará com o próprio Bolsonaro e com o secretário de Governo, general Santos Cruz

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