Comportamento

Onde a vida não tem valor

Retrato da impunidade, história real de pistoleiro é relançada após sucesso fora do Brasil e de adaptação para o cinema

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MATADOR O ator Marco Pigossi no papel de Júlio Santana (abaixo): o homem que cometeu 492 assassinatos sempre foi carinhoso com a mulher e os filhos (Crédito: Divulgação)

Parceira da impunidade, a cultura da pistolagem assombra o Brasil há tempos. A crença de que matar é fácil e de que o crime compensa produziram no País assassinos como Júlio Santana, o Julião, matador profissional desde os 17 anos. Ele entrou no ofício levado pelo tio, Cícero, que também lhe ensinou a rezar dez “Ave-marias” e vinte “Pai-nossos” depois de cada execução. Foram nada menos que 492 pessoas assassinadas, das quais Julião catalogou 487: ele marcou cada uma em sua macabra “caderneta da morte”. Ali anotava o nome do mandante e da vítima, o valor pago e onde efetuou o “serviço”. Só não matou gestante e outros pistoleiros. Não aceitava “fiado” e nem tirava a vida de quem estivesse dormindo. A história de Júlio Santana e de seus crimes foi detalhada pelo jornalista Klester Cavalcanti no livro-reportagem “O nome da morte”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2006. A obra será relançada pela editora Planeta na terça-feira 14 após ter sido publicada em 13 países e render um longa-metragem. O filme homônimo, dirigido por Henrique Goldman, estreou no início de agosto e segue em cartaz nos cinemas. A trama revela um homem de duas faces: o assassino implacável que sabia ser carinhoso com a esposa e filhos, de fala mansa e pausada, bem-humorado e dono de uma fé inabalável. Mostra também uma triste realidade brasileira, na qual a vida não tem nenhum valor. Ou melhor, tem: vale uma ninharia.

Aposentado

Julião fez fama em Porto Franco, cidade à beira do Rio Tocantins, no Estado do Maranhão. Foi lá que Cavalcanti obteve o telefone do pistoleiro junto a um policial federal. “É muito comum os fazendeiros contratarem pistoleiro por aqui”, disse o agente ao repórter. É espantoso que Julião só tenha sido preso uma vez – mais ainda que tenha sido solto depois de sua mulher subornar o delegado com a motocicleta que ele usava para cometer os crimes. Ele até contribuía para a Previdência e hoje vive de sua aposentadoria.

Além de matar, Julião participou da captura de José Genoino, em 1972, durante a Guerrilha do Araguaia. Reza a lenda que foi Julião quem acertou um disparo no braço do guerrilheiro que se embrenhara na selva. “Júlio fez de sua profissão um trabalho comum. O pistoleiro é muito diferente de um serial killer,” diz Cavalcanti. No Brasil, essa profissão se perpetua em assassinatos encomendados como o da vereadora Marielle Franco, cujos autores permanecem impunes.

“Júlio Santana fez de sua profissão um trabalho comum. O pistoleiro é muito diferente de um serial killer” Klester Cavalcanti, autor de “O nome da morte” (Crédito:Divulgação)