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Uma leitura sobre o animal print

Uma leitura sobre o animal print

Por Eugênio Bucci Foto Reprodução Um amigo me pede para escrever sobre oncinha. Let?s say ?leopard?. Ele se refere a esse padrão visual que imita pele de felinos leopárdicos, onça pintada, que serve para fantasiar a imaginação de tigresas contidas. ?Animal print?, elas dizem. ?Leopard print?. Esse amigo (da onça, evidentemente) quer me jogar numa fria. E eu, de braços abertos, caio. Fervendo. Caio porque esse padrão, essa ?textura?, elas dizem, não é, vejamos, a coisa dominante. Já não vemos por aí alguém com uma calça de onça peluda, só às vezes. Um par de botas de onça é raro. Anda em extinção. É meio over. E totalmente out. Caio na cilada (da oncinha) do meu amigo (da onça) porque a oncinha, hoje, não é mais roupa. É quase um acessório. Um toque. Um indicativo de que ali existe, como que num gene adormecido, mas presente, o fator da fera. A oncinha sinaliza que o animal selvagem foi subsumido pelos enfeites da temporada, mas, bobeou, pode dar o bote. Então eu caio. Eu caio porque uma mulher com um toque de oncinha, um toque de leve, homeopático, discreto ou quase, às vezes oculto, um toque de oncinha na peça íntima que você não vê, já pensou?, uma mulher assim justifica uma cilada. É uma fria, plantada por esse meu amigo (da onça), mas eu caio feliz da vida. Toda mulher, mesmo que não confesse, é amiga da oncinha ? e toda mulher será perdoada (menos aquela). Espere, espere, espere. É preciso que eu me explique melhor. Espere ainda mais. Antes que eu me explique é preciso que eu declare que, a bem da verdade, vivo me explicando. Vivo de explicar-me. E vivo reclamando ? inclusive do sujeito que aconselhava ?do not complain, do not explain?. Aliás é só por isso que escrevo. Escrevo para explicar o que não ficou bem claro no parágrafo anterior, escrevo para dizer que o texto anterior não era bem o que eu queria dizer, escrevo para complementar, para aprofundar, para confundir. Quase nunca escrevo para fazer uma colocação. A prosa é o amálgama do inferno. Um mal-entendido carnal e proverbial. Sempre. Não fosse assim, estaríamos todos mudos, pois tudo estaria claro. E então eu escrevo. Você não me entendeu bem, maldita hora em que comecei a escrever. Agora preciso continuar escrevendo. Tivesse ficado quieto, não teria que ficar escrevendo sem parar para dizer que não era bem aquilo que eu queria dizer quando disse aquilo. E assim ronca o discurso. Rugindo. Miando. Esturrando. Oncinha que é oncinha esturra baixinho. Isto posto, explico-me. Esse meu amigo (simpatizante da oncinha) pede que eu interprete a oncinha (e a onça). Veja se pode. A oncinha tem raízes aquém da interpretação. É como os caninos que a gente traz na boca mesmo quando se converte ao vegetarianismo: os caninos estão lá, a postos, polidos, pouco afiados, mas prontos para dizer que a qualquer momento podemos acordar carnívoros outra vez. A qualquer momento podemos virar vampiros. A oncinha é o traço ancestral que não se apaga em nenhuma coleção porque não se apaga na memória feminina. Não se apaga da carne da mulher. Mulher com M maiúsculo é mulher com H maiúsculo. Mulher com H maiúsculo vira onça pintada. Aquele lenço com ar de por acaso é um aviso: ela vira onça. E dessa onça não dá para ser amigo. Ou você é presa, ou caçador. Amigo, nunca. Viu, amigo? Leia mais colunas no Vida Boa Vida Boa é um novo espaço no mundo virtual com artigos sobre cultura, moda, beleza, comportamento, gastronomia e viagens. Eugênio Bucci é jornalista, professor da ECA/USP e assina a coluna O Inferno Democrático para o site de Yara Baumgart

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