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Ofensivo, Manchester City de Pep Guardiola se destaca atuando sem atacantes


Gabriel Jesus, Agüero e Sterling, trio ofensivo de peso que qualquer treinador do planeta gostaria de contar em sua equipe titular, têm algo muito em comum na atual temporada. Ambos são companheiros de Manchester City e reservas de luxo de Pep Guardiola. Sim, o vitorioso espanhol não é diferenciado por acaso. O treinador acaba de conquistar seu nono título em 12 disputas por pontos corridos na carreira abrindo mão de uma escalação com atacantes de origem. Seu esquadrão, apontado por muitos o melhor da atualidade, é ofensivo e goleador sem ter homens de referência entre os 11 titulares.

Kevin De Bruyne, Mahrez, Foden e Bernardo Silva, meio-campistas com características ofensivas, são os “atacantes” de confiança de Guardiola. Óbvio que seus homens de frente atuam por vezes, mas nos “jogos grandes” ficam a seu lado na reserva, como opções para o decorrer dos 90 minutos. E o elenco ainda tem o promissor Ferran Torres, de 21 anos, outra ótima peça de ataque em busca de espaço.

No Brasil, Guardiola seria taxado de retranqueiro e até maluco. Como um time gigante joga sem atacantes? Nem os nanicos abrem mão de terem ao menos um homem no ataque. Visionário, na Europa é chamado de gênio, pois prova contra equipes graúdas que sabe muito bem como sufocar defesas e balançar as redes sem os famosos “artilheiros”. A qualidade e versatilidade de seus escolhidos são os diferenciais.

“As pessoas não entendem o fato de não ter um homem na frente, um centroavante, o 9, mas o Guardiola conta com jogadores de meio com muita qualidade, versáteis e que fazem muito bem o rodízio no ataque”, avalia o ex-técnico Candinho. “Todos ocupam o espaço com qualidade. Um vem buscar o jogo, os outros abrem e jamais ficam batendo cabeça. É um sincronismo muito bem treinado”, pondera. “Requer tempo e trabalho. E o De Bruyne tem enorme qualidade e aparece sempre para decidir.”

Para Candinho, poucos times no mundo conseguiriam repetir tão façanha. Vê o Liverpool com esquema parecido, mesmo com homens de frente na escalação. “Vai fazer com os cabeças de bagre que hoje temos aqui no Brasil para ver… O Santos fez muito bem isso com Pagão, bem antes do Pelé. Falavam que o time não tinha centroavante e todo jogo marcava cinco, seis gols. Por causa da movimentação. No time do Guardiola você não vê ninguém parado, é muita movimentação na frente, até com o Fernandinho, que é volante. Repito, é muita qualidade, e não temos nada disso aqui no Brasil, hoje”, admite Candinho, sem esconder o encanto com o City do espanhol.

Não há como questionar a ousadia tática de Guardiola. Dos 31 títulos na vitoriosa e bela trajetória à beira do campo de 12 anos, conquistou nove por pontos corridos, em três grandes e diferentes ligas da Europa: com Barcelona, na Espanha (somou 14 taças), Bayern de Munique, na Alemanha (ergueu 7), e na semana passada com o Manchester City, na Inglaterra, com três rodadas de antecedência e números incontestáveis. Já são 10 conquistas na Inglaterra. Também já havia erguido a Copa da Liga Inglesa na temporada e está a um passo da glória eterna. Dia 29 de maio, decide a Liga dos Campeões com o Chelsea, em Portugal.

Com 72 gols anotados, o City não apenas é campeão inglês antecipado, como conta com o ataque mais positivo do campeonato mais disputado da Europa. Faz muitos gols na frente, mesmo sem atacantes de ofício na escalação, e ainda tem um esquema defensivo de qualidade. A melhor defesa foi vazada somente 26 vezes. Além de produzirem com maestria na frente, os homens utilizados no setor ofensivo ainda dão enorme ajuda para deixar a equipe compacta e extremamente competitiva.

“Ele não utiliza sempre esse esquema, mas difícil abrir mão, pois são meias bem avançados que fazem gols e toda hora chegam na frente. E Guardiola é inteligente”, afirma Edu, ex-ponta esquerda da seleção brasileira e do Santos, revelando que o técnico espanhol sempre teve apreço pelo lendário time de Pelé, influenciado por seu pai, e que aprendeu muito com Pepe, integrante daquela magnífica esquadra com o rei, Dorval, Mengálvio e Coutinho.

“Vi um documentário dele no qual ele lembra que seu pai sempre o dizia como jogava o Santos”, revela Edu. E conclui: “Guardiola teve a oportunidade de trabalhar com o Pepe na Arábia Saudita e sempre elogiava o trabalho, o profissionalismo, e se inspirou no Santos. Aquele famoso Santos procurava impor um jogo rápido, com menos dribles e mais toques. Dorval, Coutinho, Pepe faziam a bola correr e foi justamente a cara do Barcelona quando ele estava trabalhando lá. Todo mundo fazia a bola correr, de pé em pé, e é bem complicado ficar correndo atrás da bola. Ele é um baita treinador”, elogia Edu, ponta driblador, empolgado em ver o time inglês atuar.

Embaixador do Bayern de Munique, o ex-atacante Giovane Elber não se espanta com o brilhante trabalho de Guardiola, ao qual acompanhou de perto em Munique e aponta como imprescindível e responsável pela mudança no jeito de os clubes e a seleção alemã jogarem.

“Para um cara de aérea não é fácil uma situação dessas. Mas o Guardiola já usou bastante no Bayern. Ele falava que era preciso. E no final acabava ganhando e anotando muitos gols”, lembra Elber. “No Bayern de hoje até o Lewandowski está se adaptando a esse esquema de muito toque de bola, velocidade e movimentação, não fica mais centrado, procura sair (da área).”

E explica a maneira de Guardiola enxergar futebol com sucesso. “O sistema de Guardiola envolve o adversário com toques sem pressa, protegendo a bola e chegando no ataque com muita gente. Acompanhei bastante e posso falar que existe um Bayern antes e um pós Guardiola. Antes, o futebol alemão era chegar no fundo e cruzar para área, pois sempre teve jogadores altos e bons para finalizar”, se recorda. “Após Guardiola, mudou tudo. Até a seleção campeã de 2014 no Brasil atuava no estilo Guardiola, no que ele impôs aqui.”

Centroavante dos bons, Dadá Maravilha até perde o fôlego ao falar do time inglês. “Que sucesso faz o City”, mostra surpresa o grande artilheiro do Atlético-MG e da seleção brasileira. “Mas esse sucesso já era esperado, porque Pep (Guardiola) é um nome consagrado mundialmente. Foi um grande jogador e é um cara humilde, que está conquistando tudo o que fez por merecer, com futebol bonito e disciplinado, mesmo sem atacantes”, enfatiza.

Para Dadá, o fato de o City marcar muitos gols vem da valorização de Guardiola para com seus atacantes. “Você o vê falando e está sempre valorizando seus atletas. Não é igual a alguns técnicos que ficam no ‘eu fiz, eu faço, eu conquistei…”, observa. “Se as pessoas gostam dele de longe, imagine quem está perto, trabalhando junto”, diz. “Ele entende como os jogadores rendem, compreende como usá-los. Ele jogou, esteve dos dois lados e sabe onde a bola vai, onde tem de estar e tira o melhor da equipe.”

Soberano no Inglês, o City tem campanha na Liga dos Campeões ainda mais impressionante. São 11 vitórias e somente um empate, com 25 bolas nas redes adversárias. Contra oponentes fortes, casos de Olympiakos, Porto e Olympique de Marselha na primeira fase, e seis vitórias nos mata-matas contra os Borussias Mönchengladbach e Dortmund e o Paris Saint-Germain de Neymar e Mbappé, o que o coloca como favorito na decisão do dia 29, no Estádio do Dragão, em Portugal.

Mesmo rasgando muitos elogios a Guardiola, Dadá não vê o City favorito na final da Liga dos Campeões pelo fato de ser apenas um jogo. “Não é favorito porque lá dá muita zebra. Seu time pode estar numa noite ou dia ruim e acaba derrotado. Se fossem dois jogos, perdia no dia ruim por 1 a 0, mas faria 2 a 0 no segundo.”

Diferentemente de Dadá, Edu e Elber apostam em triunfo dos Citizens e a coroação do treinador espanhol. “Com certeza, na final o Guardiola vai usar um centroavante, porque o Chelsea é um time pouco vazado e tem ótima defesa com o Thiago Silva. Acredito que vai utilizar um artilheiro e vencer. Espero que seja o Gabriel Jesus, um brasileiro”, torce Edu.

Elber relembra que o Chelsea eliminou o poderoso e 13 vezes campeão Real Madrid, nas semifinais, mesmo assim vê o oponente em vantagem. “O Chelsea passou pelo Real, que não é um time qualquer, mas vejo o City melhor preparado. Ele não tem pressa, trabalha a bola, e se o Chelsea só ficar se defendendo, uma hora ele encontra um buraco na defesa e decide.”

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