Todos os dias, pontualmente às 16h, um ritual de afeto e literatura se repete na casa de Ruth Rocha, aos 95 anos. Ao atender o telefone, ela ouve a voz da irmã, Rilda, de 97, que cumpre a tradição de ler para a mais nova. Essa cena cotidiana resume a essência da escritora que, há cinco décadas, dedica-se a cultivar o gosto pela leitura e o espírito crítico nas crianças brasileiras. É este universo de descobertas que a Ocupação Ruth Rocha descortina para o público a partir do dia 9 de maio, no Itaú Cultural, em São Paulo.
Resumo
Marco histórico: a exposição celebra 50 anos de sucessos como “Marcelo, marmelo, martelo” e o compromisso da autora com a alfabetização.
Ineditismo: o público terá acesso a vídeos de Ruth cantando com a filha, sua máquina de escrever original e cadernos de anotações pessoais.
Expografia lúdica: projetada na altura dos olhos das crianças, a mostra utiliza cores vibrantes, instalações de madeira e telefones que transmitem histórias na voz da própria autora.
Acessibilidade: toda a mostra conta com mapas táteis, objetos para o toque e interpretação em Libras, garantindo a democratização do acervo.
Futuro: além da exposição, a editora Salamandra prepara lançamentos especiais e a escritora será enredo da Mancha Verde no Carnaval de 2027.
A mostra ultrapassa a simples exposição de livros; ela propõe um diálogo sensorial entre as diferentes fases da vida da autora. Com um projeto expográfico pensado no campo de visão infantil, a visitação é guiada por cores vibrantes e estruturas que convidam ao toque. No coração da mostra, a instalação “Ruth de A a Z” utiliza 26 módulos de madeira para guardar segredos biográficos: de monóculos com fotos de família a vídeos inéditos de Ruth cantando com a filha, Mariana.
Links relacionados
Entrevista: “O livro nunca vai acabar”, diz Ruth Rocha
Há 50 anos, Ruth Rocha dedica-se à escrita para crianças
Um dos grandes destaques é a homenagem ao personagem Marcelo, de “Marcelo, marmelo, martelo”. O visitante pode acompanhar a evolução do menino curioso por meio dos traços de diversos ilustradores que o imortalizaram nestes 50 anos. Há ainda as “caixas de história”, pequenos teatros que dão vida a contos como “Bom dia, todas as cores!”, acompanhados de áudios do projeto Mil Pássaros, parceria da autora com a dupla Palavra Cantada.
A exposição também funciona como um manifesto pela autonomia da criança. O clássico camaleão que muda de cor para agradar os outros, mas acaba exausto, serve como metáfora para a importância de se ter opinião própria — um pilar central na obra de Ruth. No espaço “Ruth para Ler”, pais e filhos são convidados a sentarem-se em tatames para manusear o acervo completo da autora, em um ambiente que abriga inclusive a máquina de escrever original e manuscritos pessoais da homenageada.
Totalmente acessível, a Ocupação Ruth Rocha integra um calendário de celebrações que inclui o relançamento de “Um cantinho só para mim” (ilustrado por Ziraldo) e a expectativa para o Carnaval de 2027, quando a escritora será o tema central da escola de samba Mancha Verde. A mostra é um lembrete necessário de que, como diz a própria Ruth, “toda criança do mundo mora no meu coração”, e que a literatura é a ferramenta mais poderosa para formar cidadãos livres.