Obras que excedem prazo e orçamento enterram mito da eficiência alemã

Obras que excedem prazo e orçamento enterram mito da eficiência alemã

"AGrandes projetos, como aeroportos, estações ferroviárias e salas de concerto, são concluídos com anos de atraso e bilhões acima do orçamento, enterrando estereótipo da eficiência alemã.O aeroporto de Berlim? Planejado para ser construído em cinco anos, concluído em 14. A estação central de Stuttgart? Ainda em construção após 16 anos. A sala de concertos de Hamburgo, a Filarmônica do Elba? Nove anos em vez de três. Os custos chegam a ser dez vezes maiores que o prometido inicialmente.

Canteiros de obra longevos viraram parte da paisagem alemã. Em Colônia, a reforma da ópera da cidade, construída na década de 1950 como um símbolo da democracia moderna, começou em 2012 e deveria durar três anos. Mas o complexo, composto pela ópera em si, um teatro com dois palcos e uma ópera infantil, está até agora em obras.

A cantora de ópera Emily Hindrichs lembra do seu otimismo quando ingressou na companhia, em 2015: "Na época, pensei: tudo bem, isso é algo que eles vão resolver logo."

Dez anos depois, Emily ainda não pisou no prédio. As apresentações são realizadas em locais temporários, e a frustração é grande.

O orçamento original de 250 milhões de euros (aproximadamente R$ 1,5 bilhão) aumentou para 850 milhões de euros (R$ 5,3 bilhões). Acrescente as taxas de juros e o custo dos locais provisórios, e a conta chega a 1,5 bilhão de euros (R$ 9,3 bilhões).

"Isso me deixa revoltada", diz Hindrichs. "Parece que estamos jogando dinheiro fora repetidamente."

Durante a década de construção, o ator Andreas Groetzinger passou por um turbilhão de emoções: "Esperança, desespero, raiva — é cada vez mais ridículo. Novas datas foram anunciadas repetidamente. Elas simplesmente nunca se concretizaram."

O que mais aborrece Groetzinger é que ninguém nunca conseguiu lhe explicar por que o projeto fracassou. "Ninguém sabe", diz ele, "ninguém consegue identificar exatamente o que deu errado. É tudo uma grande teia de causas e efeitos, confusa e supercomplexa".

Por que as obras atrasam na Alemanha?

Jürgen Marc Volm assumiu a liderança da reforma da ópera de Colônia em 2024, quando as obras já estavam nove anos atrasadas. Ele aponta para a enorme complexidade do projeto: 64 mil metros quadrados, 2 mil cômodos, 58 empresas diferentes com 72 contratos, além de 22 agências de planejamento.

"Muito trabalho teve que ser refeito porque as permissões não foram concedidas adequadamente e ocorreram falhas no projeto e na construção", diz Volm à DW.

Acrescente-se a isso um processo de licitação rígido que muitas vezes favorece a proposta mais barata. Quando as empreiteiras vão à falência, o trabalho para, novas licitações acontecem, e os atrasos se acumulam.

"As empresas entraram em insolvência", diz Volm. "Então tivemos que trazer novas empresas, e elas tiveram que entrar no projeto enquanto ele estava em andamento, então as coisas mudavam continuamente."

Em essência, as falhas de comunicação foram a raiz do problema em Colônia. "Somos muito bons em resolver problemas técnicos, mas não tão bons em comunicação."

Atrasos massivos em todo o país

"A Alemanha tem um problema enorme", diz Reiner Holznagel, presidente da Federação dos Contribuintes da Alemanha. "Grandes projetos não são mais construídos de forma rápida, eficiente e de acordo com os requisitos. Aquela boa e velha imagem positiva da Alemanha não é mais verdadeira."

Holznagel aponta para as várias camadas de regulamentação, desde ambientais até de segurança, que tornam os processos mais lentos: "Construir na Alemanha é muito, muito caro. Não por causa dos materiais ou dos salários, mas porque temos muitas regulamentações. Elas custam enormes quantias de dinheiro, tempo e esforço."

Para completar o quadro, a responsabilidade e a supervisão dessas regulamentações ficam a cargo de diferentes departamentos de uma grande e pouco integrada administração.

A história de duas catedrais

A reforma da ópera não é o primeiro atraso épico de Colônia. A famosa catedral da cidade, o monumento mais visitado da Alemanha, levou 600 anos para ser concluída. A construção começou em 1248. Quando a cidade ficou sem dinheiro, um guindaste abandonado no topo de uma torre inacabada se tornou um marco por muitos séculos.

Muito tempo depois, em 1880, é que a igreja ficou finalmente pronta. A conclusão tornou-se uma missão nacional enquanto a Alemanha unia os seus muitos pequenos reinos e ducados num único Estado-nação pela primeira vez.

"Eles levaram 600 anos para terminar", diz o ator Andreas Groetzinger e brinca: "Espero que a gente se saia melhor".

No centro de Paris, 500 quilômetros a sudoeste de Colônia, ergue-se outra catedral famosa: Notre-Dame. Ela foi concluída muito mais rapidamente do que sua contraparte de Colônia, em 1345, e também pode servir de modelo para a Alemanha superar os problemas atuais com prazos e estouros orçamentários.

O espírito de Notre-Dame

A torre e grande parte do telhado de Notre-Dame foram destruídos num incêndio em 2019. Pouco depois, o presidente francês, Emmanuel Macron, anunciou que a igreja seria reconstruída em cinco anos. E foi — dentro do prazo e do orçamento.

Jean-Louis Georgelin, um general aposentado do exército, supervisionou o projeto com rigor militar. "Ele chamou isso de batalha de cinco anos", lembra Philippe Jost, que assumiu após a morte de Georgelin e liderou o projeto até sua conclusão.

Jost diz que foi um senso de propósito comum que criou o "Espírito de Notre-Dame". "Trabalhamos como uma grande família, juntos", disse ele aos chefes de todas as empresas envolvidas no projeto.

Jost também disse a eles que estava lá para ajudá-los caso encontrassem problemas. "O dinheiro gasto para resolver um problema rapidamente é dinheiro bem gasto. É como combater um incêndio antes que ele se espalhe", diz Jost.

Ele estava preparado para o pior. Quase um quarto do orçamento da reconstrução era destinado a provisões para aumentos de preços, eventos imprevistos e riscos de programação.

Em vez de apontar o dedo, os franceses priorizaram a confiança e a comunicação. E mantiveram a equipe pequena. Jost dirigia uma organização que nunca teve mais de 35 pessoas e foi criada especialmente para esse fim.

Eles passaram mais de um ano procurando os empreiteiros certos. "Tivemos que escolher os melhores", diz Jost. "O melhor nem sempre é o mais barato."

O resultado foi uma reconstrução de 700 milhões de euros (R$ 4,3 bilhões), concluída conforme prometido, em cinco anos.

Lições para a Alemanha

É hora de a Alemanha aprender com as melhores práticas de outros lugares, defende Holznagel, presidente da Federação dos Contribuintes. "Quando vejo o estado de algumas pontes ou estradas — sem falar dos trens —, percebo que o Estado alemão tem um problema enorme, e dá para entender por que as pessoas estão tão insatisfeitas."

A cantora Emily Hindrichs se surpreende com o que ela considera uma falta de flexibilidade na Alemanha: "Sempre existe essa mentalidade teimosa e rígida: 'Temos um plano, nós o escrevemos, deve ser assim!'. Mas não há um plano B."

O ator Groetzinger acrescenta que, durante décadas, os edifícios de ópera e teatro de Colônia não receberam a manutenção adequada, o que agravou o problema: "A Alemanha investiu tão pouco em sua infraestrutura que, quando finalmente começam a fazer isso, os problemas se tornam insuperáveis."

A boa notícia? A ópera de Colônia está programada para reabrir no último trimestre de 2026. Para Emily, será emocionante: "Se eu puder cantar lá, será como um retorno ao lar. É por isso que tenho esperado."