Edição nº2568 15/03 Ver edições anteriores

O vulcânico Boechat

Ricardo Boechat, o príncipe do jornalismo — e uso príncipe porque ele sempre se dirigia àqueles mais chegados de forma carinhosa com a expressão “meu príncipe”, que decerto e de direito era só ele em pessoa – foi o âncora da indignação nacional em uma era de mudanças radicais, ânimos extremados e sonhos desfeitos. Boechat, nosso mestre, que por 11 anos ocupou com brilho singular a coluna de duas páginas em ISTOÉ (hoje ela se encontra, dolorosamente para nós e seus leitores, vazia), combinava ali o tom inconfundível e inimitável de recados certeiros sobre os fatos nacionais e internacionais, que o tornaram uma unanimidade. O mesmo que o projetou no rádio, na TV, nos meios digitais, nas palestras, no contato direto com o público, que ele fazia questão de exercer rotineiramente. Boechat era isso: uma multiplataforma jornalística de credibilidade, um andarilho da informação que perseguia a verdade, o fato acima de tudo, com faro, sagacidade e um poder analítico e de raciocínio incomparáveis e que fizeram de seus comentários verdadeiros libelos na defesa da cidadania. Diante do universo inesgotável, mas inóspito e traiçoeiramente diversionista das redes digitais, ele também pontificava. Tinha a ousadia de divulgar abertamente no ar o número pessoal de celular para quem quisesse falar com ele. E atendia direto, em pessoa, à cata de mais um relato sobre qualquer assunto. A notícia era a sua profissão de fé. Fascinava-o. E na diversidade fecunda de suas habilidades e pensamentos Boechat conquistou lugar cativo nos corações e mentes dos brasileiros. Foi soberano na empatia popular. Existiam vasos comunicantes entre os dois lados e dessa relação, em muitos momentos, surgia a centelha do protesto geral contra o que estava errado. Boechat arrebatava credibilidade. Era aquele cara em quem a maioria confiaria sem pestanejar um talão de cheques assinados ao portador. Distribuía simpatia e respeito indistintamente enquanto praticava uma forma muito peculiar e firme de fazer jornalismo: humanizando os acontecimentos, dando voz e protagonismo a quem era devido, fosse o cidadão comum, do gari da esquina ao transeunte incomodado com desmandos e malfeitorias, ou a autoridade aboletada nos rincões do poder que na maioria dos casos imaginava ter a palavra final e que, com Boechat, em geral, não conseguia levar adiante tamanho intuito. Aliás, quase nunca. Ele não permitia que os poderosos modulassem a verdade a sua maneira e interesse. Fez do ouvinte, do leitor, do seguidor, do espectador, gente comum a despeito de cargos e posses, as maiores fontes das histórias, situações e casos que relatava. Não por menos, uma passeata ruidosa e entristecida de taxistas lhe rendeu homenagem com uma espécie de buzinaço do lamento em frente à sede da Rede Bandeirantes, em São Paulo, onde diariamente ele brilhava. Foi apenas um dos inúmeros tributos. A comoção nacional que se seguiu a sua perda é comparável apenas a de grandes ídolos e heróis nacionais. Boechat, todos sabem, não era inclinado aos rapapés e mesuras, mostrava-se em geral perturbadoramente acanhado diante de elogios, mas ficaria decerto comovido com tantas demonstrações de carinho.

Autênticas, da alma, dado o que ele representa junto a uma legião interminável de fãs que corta o País do Oiapoque ao Chuí. O Boechat locutor, apresentador, comentarista e repórter, que cultivava seu jardim de informações e notícias com o sentimento de missão de vida, talvez sequer aceitasse conferir a si mesmo a devida atenção em um texto que falasse do Boechat personagem, mas o fato (e fatos são fatos, Boechat, como você bem sabe!), é que nos últimos tempos, em especial por esses dias, em meio a um luto que não cessa, muitos enredos e histórias dignos de figurar na memória convergiram para a sua figura. Certa vez um empresário colérico, do alto de suas credenciais como presidente de um portento dos negócios, ligou para ISTOÉ aos berros, reclamando da “irresponsabilidade e mentira” do colunista de ter divulgado que ele havia passado a noite na cadeia, “um insulto calunioso”, no seu entender. Informado sobre a queixa, Boechat não se fez de rogado: prontamente enviou à redação o B.O (Boletim de Ocorrência), o testemunho do delegado que estava de plantão, confirmando o acontecido e, não satisfeito, no dia seguinte, ainda encaminhou os trechos do processo que pesavam sobre a figura. Boechat era isso: o repórter acima de tudo, preciso, rigoroso com ele mesmo quando a missão era informar. Levou ao extremo da dignidade o ofício. E construiu uma saga. O colunista de notas irreverentes e irônicas se misturou ao comentarista mordaz, ao apresentador compenetrado e ao blogueiro indócil para produzir um fenômeno da comunicação. As intervenções de Boechat soavam, de hábito, deliciosamente humanas. Sinceras, autênticas, cortantes quando necessário, compreensivas e consoladoras quando a situação pedia. Boechat era vulcânico (explosivo e carinhoso ao mesmo tempo). E virou referência. Dignificou uma atividade tão atacada, à esquerda e à direita, tão vilipendiada pela onda demolidora das fakes news nas redes e pelos sabugos do poder rasteiro e venal, que se transformou em expoente da imprensa, tricampeão do Prêmio Esso, recordista com 18 estatuetas do Comunique-se e de um sem número de honrarias do tipo. Quando precisou recarregar as baterias após uma avassaladora crise de pânico, prestes a entrar no ar, ele resolveu reagir de forma incomum: dividiu publicamente, sem rodeios ou receios, logo após o tratamento, o impacto do mal que o afligia. Mostrou-se inteiro e assim se aproximou ainda mais de seu público. Boechat não foi eleito por ninguém. Não precisava provar mais nada do seu valor. Era o sujeito oculto de nossos sentimentos, de uma crença no Brasil viável. Sobrevivente teimoso de um formidável elenco de ataques, processos e queixas dos poderosos contra a sua atuação, ele espelhou, de certa forma, a tenacidade com que o brasileiro comum vai vivendo a vida, pancada após pancada.

Quis a fatalidade que Boechat nos deixasse cedo. Cedo demais para quem experimentava o auge do reconhecimento após tanta peleja. Quis o destino que Boechat partisse para despertar a consciência sobre a importância do jornalismo maiúsculo. Quis afinal o tempo que Boechat fosse representante de toda uma geração de repórteres desbravadores que lutam, incansavelmente, para mostrar o valor da verdade e a dignidade de uma profissão. Boechat nos fará uma imensa falta. Como seguir sem ele? Sem a sua cobrança e vigilância corriqueiras no ar e nas páginas de suas colunas, que confortava e vocalizava o sentimento geral? Como acordar não o escutando mais falar aquilo que queríamos ouvir e que todo mundo queria dizer? Com os solavancos da vida e a experiência da trajetória, Boechat se converteu em um incansável perseguidor de transformações pelo bem geral. Ficou a missão, de “tocar o barco”, como sugeria aos inúmeros colegas de trabalho, aqui e na Band, por onde deixou discípulos com certeza. O repertório indefectível, as tiradas zombeteiras que divertiam, a gargalhada escrachada e a figura única e extraordinária do amigo restarão na lembrança. Boechat, que nunca mimetizou a verdade, não tem substituto. Deixa o exemplo, o legado, a saudade.

FOTO: ANDRE LESSA/ISTOÉ


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