Brasil

O voo kamikaze de Alckmin que afundou levando junto o PSDB inteiro

Naufrágio anunciado da candidatura tucana, após sucessivos erros cometidos por Geraldo Alckmin, mergulha a legenda numa crise sem precedentes. Resta, agora, unir esforços pelo governo paulista

Ilustração: Lézio Júnior

A política está longe de ser uma ciência exata. E as eleições de 2018 no Brasil mostraram justamente isso. Todas as premissas básicas contidas em qualquer manual de estratégia política pareciam estar do lado do candidato do PSDB, Geraldo Alckmin: tempo de TV, amplo financiamento de campanha, coligação forte com diversos partidos e apoio político… O problema é que a receita elaborada por Alckmin ignorou justamente a variável que, segundo o matemático José Roberto Bonjorno, é a mais importante e que ele resume com o seguinte termo: “Se, somente se”. Segundo Bonjorno, uma fórmula só alcança seu resultado se as condicionantes corretas estiverem em seus devidos lugares. Alckmin escorou toda a sua campanha nas premissas dos velhos almanaques de política. E tudo o que o eleitor demonstrou desejar nestas eleições foi o novo. Os sinais já estavam dados há algum tempo. A campanha tucana ignorou-os. O voo kamikaze de Alckmin não poderia ter tido outro destino. Esboroou-se na parede da rejeição do eleitorado. Deixou o PSDB muito menor, sem rumo e dividido.

As condições perfeitas previstas no velho almanaque político estavam todas dadas. Alckmin teve R$ 54 milhões para usar na campanha. Mais de seis minutos de tempo de TV. Os nove partidos que compunham a sua coligação somavam quase 300 deputados. Tinha a postura moderada que sempre pareceu agradar um eleitorado que em sua maioria sempre tendeu ao centro. As aparências enganaram. Alckmin perdeu as eleições para Jair Bolsonaro, do PSL, que gastou no primeiro turno R$ 1,2 milhão e teve apenas sete segundos de tempo de TV. As premissas determinadas por Alckmin só poderiam dar resultado “se, somente se” não tivessem sido completamente modificadas pelo atual espírito do eleitorado brasileiro.

FÁTIMA MEIRA/FUTURA PRESS; RODOLFO BUHRER/FOTOARENA; Renato S. Cerqueira/Futura Press; reprodução

As estratégias estabelecidas por Alckmin para tentar empinar a campanha tucana também se revelaram um desastre. Aliou-se à banda prodre da política, o desgastado Centrão, em nome de um tempo de televisão cujo peso com a explosão da campanha nas redes sociais já se anunciava bem menor. Ou seja, Alckmin com os olhos voltados para um projeto meramente pessoal fez apostas erradas e preferiu o óbvio caminho do abismo, em detrimento de uma candidatura mais viável que despontava dentro de casa.Os próprios integrantes do PSDB admitem que foram pegos de surpresa com o resultado. “Ele era o cara no momento errado”, resume o líder do partido na Câmara, Nilson Leitão (MG). Poderia até ser o candidato certo para um tempo em que a velha política dominava. Tornou-se o candidato completamente errado quando o eleitorado resolveu tentar varrer a velha política do mapa. A insistência de Alckmin em partir para uma candidatura imposta de cima para baixo, embora houvesse uma solução doméstica mais adequada para o momento, o então prefeito de São Paulo, João Doria, consistiu no seu maior equívoco. Alckmin jamais despertou a empatia do eleitorado. Faltou-lhe sangue nos olhos, faca nos dentes e retórica contundente capaz de encarnar o anti-PT, características estas que sobravam em Doria.

DIDA SAMPAIO/ESTADÃO, CELSO JUNIOR/AG ESTADO

Pior: sua derrocada levou o PSDB para o abismo. De roldão. Na terça-feira 9 pós-primeiro turno eleitoral, numa tensa reunião da Executiva do partido em Brasília, os tucanos tentavam entender o que aconteceu. Consideravam como um dos fatores mais determinantes o fato de o partido ter se aliado ao impopular governo de Michel Temer, afundado após as denúncias do empresário Joesley Batista, que levaram pelo mesmo ralo a reputação do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Nas eleições passadas, Aécio foi o candidato do PSDB e perdeu para Dilma Rousseff, do PT, por uma diferença mínima. De clara antítese ao PT, Aécio, após a denúncia, igualou no PSDB o rótulo de corrupção que marcava seu adversário. A Operação Lava Jato, que determinou os protestos que enfraqueceram os petistas, produzindo o terreno para o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão de Lula, atingiram da mesma forma os tucanos. Não apenas Aécio. Levaram o senador José Serra (PSDB-SP) a praticamente sair de cena. E não pouparam mesmo o próprio Geraldo Alckmin. Que, indiferente aos sinais, ainda levou o PP, partido mais enrolado na Lava Jato, e o Centrão montado por outro corrupto preso, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para o seu lado. Outros políticos do partido, como o ex-governador do Paraná, Beto Richa, foram presos no primeiro turno. Uma balada que prossegue, enfraquecendo ainda mais o PSDB: na quarta-feira 10, o ex-governador de Goiás Marconi Perillo, que perdeu as eleições para o Senado, acabou detido pela Operação Cash Delivery, que investiga pagamento de propina em campanhas eleitorais. Na terça-feira 9, após uma reunião marcada pela troca de acusações, Alckmin foi cobrado pelo candidato do partido ao governo de São Paulo, João Doria, pelos sucessivos erros cometidos. Ouviu verdades e parece não ter gostado. Como contragolpe, apelou: “Eu não sou traidor”. O mal-estar se estabeleceu no encontro.

Caso vença as eleições ao governo de São Paulo, João Doria
poderá liderar a legenda sobre os escombros do velho PSDB

O futuro do PSDB é agora uma incógnita. Caso João Doria vença as eleições ao Palácio dos Bandeirantes, ele reunirá amplas condições de liderar a legenda sobre os escombros do velho PSDB. Antes, porém, o partido tentará recolher os cacos do primeiro turno. Em relação à sua representação na Câmara, o partido caiu da 3ª para a 9ª maior bancada da Casa. Dos atuais 49 parlamentares, o partido chegará a 2019 com apenas 29 cadeiras na Câmara. A ideia de Alckmin, presidente do partido, é acionar o Instituto Teotônio Vilela, braço acadêmico do PSDB, para que faça um diagnóstico sobre o processo eleitoral. Buscar explicações científicas, como primeira medida efetiva pós-derrocada, é visto por outros tucanos como mais um equívoco do partido. Em um processo político totalmente atípico, o estudo acadêmico das eleições de 2018 só será uma boa ideia “se, somente se” avaliar o que aconteceu pelas premissas corretas.