RESPEITO Onoda recebe de volta a espada de samurai que pertenceu a sua família desde o século 17: apesar dos ataques aos moradores locais, ele foi perdoado pelo presidente Ferdinand Marcos (Crédito:Alfonso del Mundo)

O Japão é uma terra de sagas milenares, mas quem narra uma de suas histórias mais incríveis é um alemão. Werner Herzog é um dos vértices do triunvirato do cinema contemporâneo germânico. Ao lado de Wim Wenders e Rainer W. Fassbinder, o “duque” de Munique já dirigiu mais de 60 produções, entre filmes de ficção e documentários. De lendas de vampiros a manifestos sobre a revolução digital, não existe tema proibido para o seu olhar curioso. Há, no entanto, um assunto pelo qual ele é obcecado: a turbulenta relação entre o homem e a natureza. Seu longa mais famoso, Fitzcarraldo, é um bom exemplo: a problemática produção conta a vida de Carlos Fermín Fitzcarrald, o barão da borracha que transportou um navio de quase 400 toneladas pela selva Amazônica.

Apesar de sua especialidade ser a linguagem cinematográfica, Herzog também se aventura pela literatura. A própria memória das filmagens de Fitzcarraldo chegou a ser contada em um diário, A Conquista do Inútil, de 2010. Seu novo livro também trata da relação de um homem com a natureza, mas por razões bem diversas do ambicioso barão amazônico. O Crepúsculo do Mundo conta de forma brilhante um dos enredos mais incríveis da Segunda Guerra: a vida de Hiroo Onoda, o soldado japonês que viveu na floresta e levou quase trinta anos para se render.

RETORNO Onoda volta à ilha de Lubang, nas Filipinas: primeira vista à floresta onde viveu por quase trinta anos ocorreu em 1996 (Crédito:Divulgação)

Tudo começa em 1944, um ano antes dos ataques norte-americanos a Hiroshima e Nagasaki que levam à rendição do Japão. Aos 22 anos, o tenente Onoda recebe a missão de manter a posição de seu país na ilha de Lubang, nas Filipinas. Seu superior, o major Taniguchi, lhe comunica as ordens do quartel-general: “o senhor defenderá essa área empregando a guerra de guerrilha, custe o que custar. Só não lhe é permitido uma coisa: morrer por sua próprias mãos.” Começava ali o período de três décadas em que Onoda se transformou em um ser da floresta, comendo raízes e plantas para sobreviver, e se escondendo em buracos e cavernas. Aos poucos, torna-se um fantasma, um ser que a população não sabe mais se é real ou apenas uma assombração.
Em 1974, o estudante Norio Suzuki desembarca em Lubang para descobrir se Onoda ainda está vivo. Ao ser rendido pelo tenente, conta a ele que a guerra acabara havia quase trinta anos, e que o Japão havia sido vencido pelos EUA e seus aliados.

O Crepúsculo do Mundo
Werner Herzog
Todavia
Preço: R$ 45 (Crédito:Divulgação)

Onoda não acredita e exige provas. Suzuki volta ao Japão e, meses mais tarde, retorna à ilha com o major Taniguchi, agora com 88 anos. De seu superior, Onoda recebe a ordem: “o Comando de Guerra põe fim imediato a todas as hostilidades. Tenente, sua guerra acabou.” Onoda pede apenas para caminhar até uma árvore oca, onde escondia a espada de samurai que pertence a sua família desde o século 17. Perdoado pelo presidente Ferdinand Marcos, volta ao Japão como herói. Decepcionado com o consumismo de seu país, decide mudar-se para o Brasil, para onde seu irmão mais velho, Tadao, havia emigrado. Começam a criar gado no município de Terenos, a 30 quilômetros de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Volta ao Japão em 1996, onde vive até sua morte, em 2014, aos 91 anos. Uma narrativa real e mais inacreditável que qualquer ficção.

Como tudo na carreira de Werner Herzog, seu livro surge de um momento fora dos padrões: uma gafe. Em 1997, o alemão estava em Tóquio para dirigir a ópera Chushingura, de Shigeaki Saegusa. Durante um jantar, o compositor afirma que o imperador Akihito quis conhecê-lo. Para surpresa de Saegusa, Herzog declina o convite e afirma que há um único personagem japonês que ele gostaria de conhecer pessoalmente. “Quem?”, pergunta Saegusa. “Hiroo Onoda.” O Crepúsculo do Mundo nasce desse encontro.

O diretor em 3 filmes

Entre documentários e longas de ficção, Werner Herzog já dirigiu mais de 60 produções e compõe o triumvirato do cinema alemão, junto com Rainer Fassbinder e Wim Wenders

Homem-Urso
Filme sobre a vida e morte de Timothy Treadwell, que acreditava na real interação entre homens e animais

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Fitzcarraldo
Estrelada por Klaus Kinski, uma das produções mais problemáticas da história terminou em tragédia

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Encontrando Gorbachev
Série de entrevistas com o ex-líder russo que encerrou a Guerra Fria e levou a União Soviética à extinção

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