Edição nº2594 13/09 Ver edições anteriores

O Twitter do Giovanni

Giovanni, 68 anos, e Amélia, 62, moram em Higienópolis, em um daqueles prédios Gomes de Almeida coloniais, clássicos. Almoço de domingo é sagrado. Giovanni não permite que ninguém falte, não tem desculpa. Vêm os filhos, netos, primos, tias, sobrinhos, todo mundo. Até o irmão da Amélia e a mulher, uma chata, não podem faltar. Coisa de família italiana. Quem olha de fora acha lindo. Mas não é o amor que os une, não se engane. É o dinheiro mesmo.

Giovanni ficou rico e saiu da Mooca após ter criado uma bem-sucedida confecção no Bom Retiro. Uniformes de tudo quanto é tipo. A firma emprega a família toda.

Giovanni é um patriarca à moda antiga, linha-dura, com uma tendência — conhecida por todos — de gostar de um puxa-saquismo. Não é um sujeito fácil de se lidar. Autoritário, meio chucro, sem papas na língua. O pessoal aguenta, fazer o quê?

Giovanni nunca ligou para política, mas ano passado a confecção fez umas camisetas para a campanha do Bolsonaro. Foi o primeiro sinal.

– Mandei fazer 3 mil. Os funcionários todos têm que usar até hoje — obriga Giovanni.

Foi nessa época que ele começou a mudar de comportamento. A família toda notou, mas ninguém teve coragem de comentar. Em janeiro, criou uma conta no Twitter: @GiovanniMito. Obrigou a família, os funcionários e todos os fornecedores a segui-lo. Delegou ao filho publicar o que ele mandasse.

Pelo Twitter, Giovanni anuncia o cardápio do almoço de domingo, que não varia há anos, discute com fornecedores e até demite funcionários. Mas não é só isso que mudou. Aos poucos, Giovanni passou a imitar o presidente em tudo. Nos maneirismos, nas frases, às vezes impensadas, nas trapalhadas e futricas pelo Twitter — que ninguém sabe se tem ou não o dedo do filho.

A família começou a se preocupar. O irmão da Amélia quebrou o silêncio e mandou um WhatsApp: “Melinha, tem que ver isso aí. O Giovanni anda muito esquisito com essas coisas de imitar o Bolsonaro. Isso ainda vai dar em confusão das grandes”.

No almoço, Giovanni agora quer fotos para publicar no Twitter. Sempre fazendo os revolvinhos com as mãos, para o constrangimento geral. Menos para Amélia, que não liga para as manias do marido.

– Deixa ele, gente. Ele faz o que quiser, não é problema de ninguém.

Mas a vida, meu amigo, imita a arte. A arte da política, no caso.

Um belo dia, Amélia estava em casa, terminando de fazer um bolo de cenoura, quando recebeu um WhatsApp de um número desconhecido. Achou que era propaganda mas, quando ia apagar, viu que a mensagem era um diálogo do Giovanni com a gerente da loja da 25 de Março.

Amélia leu a conversa com o coração apertado. Ela sempre desconfiou que o marido desse lá suas puladas de cerca, mas enquanto cuidasse bem da família, Amélia preferia fazer vista grossa.

Só que aquelas mensagens, pela primeira vez nos 40 anos de casada, Amélia não podia ignorar. Não tinham nada de mais, na verdade. Apenas uma ou outra frase mais picante. Mas no final da mensagem, o autor anônimo informava que enviaria outras mais comprometedoras. E assinava: “Intercept Giovanni”.

Amélia, chorando, mostrou tudo para o irmão. Preocupado com as consequências para o próprio emprego no caso de um divórcio, ele marcou uma reunião com os diretores da confecção, que basicamente eram Amélia, os filhos, ele mesmo e sua mulher, a chata. Sem Giovanni saber, claro.

Após muito conversar, chegaram à conclusão que as mensagens, realmente, não eram lá tão graves assim.

– Me desculpe, Melinha, mas isso é coisa de velho babão. Deixa pra lá! — sugeriu a cunhada chata tentando ser bem legal.

Amelinha deixou, mas com uma condição: a gerente da loja da 25 tinha que ser demitida. E foi. O filho cuidou disso. Pelo Twitter.

O patriarca era toscão, soltava uns absurdos de vez em quando, mas dava para levar. Até a família ser atingida pelas conversas dele com a gerente da loja da 25 de Março

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