O gim é a bebida da vez. Criado por monges holandeses e consumido desbragadamente pelos operários ingleses a partir do século 17, o destilado à base de cereais e de uma frutinha azulada chamada zimbro, virou uma coqueluche nos bares e supermercados brasileiros. Embora tenha surgido como bebida de massas, para operários que queriam algo forte e de baixo custo, ele é hoje sinônimo de sofisticação e exclusividade. No Brasil, a popularidade da bebida foi puxada por sua versatilidade, sendo consumido como a bebida principal de coquetéis clássicos como o Negroni e o Gin Tônica. O trunfo do destilado no gosto do brasileiro está também na facilidade de seu preparo — basta misturá-lo com tônica e gelo em seu formato mais básico — e na elegância com a qual as principais marcas têm apresentado as suas garrafas que aparecem em várias apresentações nas prateleiras das melhores adegas. Se antes só as marcas vindas do exterior, como as britânicas Beefeater e Tanqueray, eram valorizadas, agora versões nacionais ganham respeito e até preços nada adocicados.

“A coquetelaria cresceu muito nos últimos dez anos no Brasil e o gim é um dos principais insumos. É versátil e compõe coquetéis para todos os paladares” Nick Johnston, empresário

Marco Ankosqui

“A mixologia e a coquetelaria cresceram muito nos últimos dez anos no Brasil e o gim é um dos principais insumos. O Aperol Spritz é um drink, mas o gim pode ser consumido sozinho ou compor coquetéis para todos os paladares, é muito versátil”, explica Nick Johnston, um dos responsáveis pela destilaria São Paulo Urban Distillery e pela garrafa “Jardim Botânico Gin”. Escocês radicado no Brasil desde 2005, Johnston não acredita que o sucesso do gim no País seja passageiro. A Diageo, proprietária das marcas Johnnie Walker, Smirnoff, Tanqueray, Ypióca, mostrou que as vendas no Brasil cresceram 33% só no segundo semestre de 2020. Esse crescimento foi causado principalmente pelo aumento do consumo de gim e uísque, não só no Brasil, mas em toda a América Latina.

O bartender Alexandre Prates, responsável pelo preparo dos coquetéis do “G&T Gin Bar”, espaço que serve apenas gim na cidade de São Paulo, diz que é possível inovar mesmo nos clássicos. Os coquetéis que mais saem são os tradicionais Gim Tônica, Dry Martini, Negroni e o Aviation — todos feitos com a mesma matéria prima: o gim. “Isso não impede que os drinks ganhem versões com elementos brasileiros”, diz Prates. Um sucesso de vendas da casa é o “Tulum”, Gin Tônica feito com purê da fruta Pitaya, que garante sabor único e coloração rosa à bebida tradicionalmente translúcida. Prates, aliás, gosta de trabalhar com diversos ingredientes, como sal e pimenta, tradicionalmente usados na cozinha. Formado em Gastronomia, ele diz que fazer um bom coquetel demanda o mesmo conhecimento e experiência de um bom prato. Por possuir diversas destilarias e alambiques, o País tem levado produtores de cachaça a se aventurarem, com sucesso, na produção de gim. Por aqui é possível ver marcas nacionais com caju, erva-mate e até cana de açúcar.

Isso acontece para otimizar a ociosidade dos alambiques e garante garrafas de sucesso como “Virga” e “Vitória Régia”. As bebidas artesanais brasileiras é que são as grandes responsáveis pelos vários lançamentos de gim no mercado, muitas marcas são experimentais, outras são produzidas em larga escala — nomes como “Amázonni”, “BEG”, “At Five” ganham cada vez mais espaço. Johnston, contudo, não acredita que haverá uma saturação de gim brasileiro no mercado. “As matérias-primas usadas em um gim são o que os torna únicos. Há uma classificação de sabores — cítrico, especiado, herbáceo, floral e frutífero. Por essa extensa variedade e versatilidade que apresenta, o gim pode agradar a muitos paladares”, explica. A bebida que produz, o Jardim Botânico, conta, por sua vez, com a ajuda de dois perfumistas e leva até pau rosa como ingrediente, item do famoso perfume “Chanel N°5”. Ainda é cedo para dizer se o Brasil ficará conhecido mundialmente como um grande produtor de gim, mas a abundância de sabores é um grande passo já conquistado.