O trem de Minas

Crédito: José Manuel Diogo

(Crédito: José Manuel Diogo)

Aterrissando em BH nos tempos que o Galo grita como se tivesse de novo conhecido o gelo; o Cruzeiro se agacha como se o futuro nunca mais chegasse; e o América, entregue ao seu costumeiro aurea mediocritas, continua “nem aí”, a gente percebe o mundo inteiro.

Quer saber como? Até parece que eu entendo de futebol, mas não é tanto assim. Dê um passo atrás e respire fundo. Não esqueça o Galão da “massa” porque ele é do povo e é ao povo que é sempre preciso saber falar. Fique esperto! Nem tudo o que reluz é ouro; e o deserto, todos sabem, é fértil em fantasias e miragens. Faz duas semanas, estando no Dubai, entrei no pavilhão do Brasil na Expo 2020 e percebi imediatamente que o governo em Brasília já tinha entendido que o negócio da próxima década vai ser a mobilidade global do trabalho e do investimento. Mas também ficou claro que eles ainda não têm a narrativa certa para essa boa ideia.

O pavilhão brasileiro na Expo das Arábias é a prova de que uma boa ideia é quase tudo, mas que só isso não chega. Por cima do laguinho artificial que enumera destinos turísticos brasileiros — atenções divididas entre Porto de Galinhas, Rio de Janeiro e Salvador na Bahia — o Brasil grita como o Galo, mas não comunica bem. O pavilhão é agradável, os promotores simpáticos e o passaporte amarelo tem carimbo “facinho”. A nossa casa na exposição — logo na Entrada da Sustentabilidade, uma das melhores frequentadas por príncipes e dignitários com carros de grande cilindrada e poucos algarismos na placa — é tão bonita, como uma oportunidade perdida. É apenas legal quando devia ser genial. As molduras “instagramáveis” do laguinho, onde turistas acidentais partilham suas memórias com a Terra Amada, são massa, mas menos que a do Galo; e infelizmente elas oferecem pouca “call to action”.

O Brasil grita como o Galo, mas não comunica bem. O pavilhão é agradável, os promotores simpáticos e o passaporte amarelo tem carimbo “facinho”

Há muito apelo ao turismo, mas pouca conversa sobre o investimento que o Brasil precisa. Talvez seja por isso que o estado de Guimarães Rosa, tradicionalmente focado na economia, tenha compreendido mais rápido a verdadeira utilidade da narrativa do turismo: nos dias de hoje ela é a melhor âncora para atrair o investimento. Hoje o estado de Minas coloca os seus melhores políticos, com experiência internacional e conhecimento do mundo e dos negócios, na gestão das políticas de turismo e da atração de investimentos. Em todas as viagens o “trem” mais importante é não perder o trem certo para entrar. Este é o trem das Milena Pedrosa, dos João Braga e dos Romeu Zema das Gerais.


Sobre o autor

Fundador da Informacion Capital Consulting e Diretor da Câmara de Comércio e Industria Luso Brasileira em Lisboa onde coordena o comité de Trade Finance é o autor do estudo "O Potencial de Expansão das Exportações Brasileiras para Portugal”. Atua atualmente como investidor e consultor, estando envolvido em projetos de intercâmbio internacional nas áreas do comércio, tecnologia e real estate. Vive com um pé em cada lado do Atlântico, entre São Paulo e Lisboa. É autor e colunista na imprensa internacional sobre temas de investimento, importação e exportação e inteligência de mercado. É um entusiasta da cultura e da língua portuguesa.


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