O terrível caso de Bolsonaro e do paradoxo de Parrondo

Crédito: AFP

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Implementar um lockdown e derrubar a economia, ou abrir a economia e ver crescer o número de mortes por Covid-19?

Desde o início da pandemia, a escolha entre essas duas alternativas foi relativamente tranquila na maioria dos países. Elegeu-se como prioridade salvar o máximo de vidas, o que levou a medidas bem rigorosas de fechamento do comércio. As reaberturas foram cautelosas, e o processo se repetiu quando necessário.

Mas no Brasil foi diferente. Houve uma polarização entre o “partido da saúde” e o “partido da economia”. Neste fim de semana, o embate voltou a produzir faíscas. O presidente Jair Bolsonaro apontou o dedo nas redes sociais para governadores que falavam em restringir novamente o comércio. Os governadores revidaram com uma carta coletiva, seguida de uma manifestação de secretários estaduais de Saúde em favor de um lockdown nacional.

Não sabemos como vai acabar a rusga, mas sabemos o que ela já produziu. No Brasil, não houve nem lockdown radical, nem abertura plena dos negócios. Sem consenso, o país ficou num meio termo que se mostra desastroso: o PIB vai mal e as mortes são muitas.

Um trio de matemáticos da Universidade de Tecnologia e Design de Singapura aplicou a teoria dos jogos exatamente a essa situação, um embate acirrado entre os estrategistas do fecha e os estrategistas do abre. Vou mandar um e-mail a eles, sugerindo que batizem essa situação como “Impasse Brasileiro”. O país pode ficar imortalizado nos estudos que unem matemática e epidemiologia. Chique no último.


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A teoria dos jogos procura deduzir os custos e os benefícios de situações em que os indivíduos podem escolher entre cooperar ou agir de forma egoísta. Os matemáticos analisaram duas situações hipotéticas. Numa delas, todos os participantes do “jogo da pandemia” concordam com o lockdown. Na outra, todos decidem manter tudo aberto.

O negócio é cabeçudo, tem equações que eu não tenho a menor competência para decifrar. Mas eles fizeram uma tradução competente do raciocínio, em linguagem que até jornalista entende.

Ao longo do tempo, tanto a estratégia do lockdown quanto a da abertura são perdedoras. A primeira aniquila a economia, enquanto a segunda impõe um custo intolerável em sofrimento e perda de vidas. Nesse momento, entra em cena o misterioso “paradoxo de Parrondo”. Ele surge quando a combinação de duas estratégias perdedoras produz uma estratégia vencedora. Esse é exatamente o caso da pandemia: uma alternância entre as estratégias da abertura e do fechamento acaba sendo a mais efetiva para reduzir os custos da doença, tanto econômicos quanto em vidas.

Tudo isso é matemática pura. Mas quando comparamos os resultados obtidos dessa forma com os resultados da vida real, em países que combinaram períodos de fechamento com outros de abertura cautelosa, as coisas se encaixam. O experimento dos professores é uma espécie de justificativa teórica daquilo que a Nova Zelândia, por exemplo, fez durante a pandemia. Não foi por sorte nem por acaso que o país se saiu bem, há lógica por trás da história.

Ok, dirão os leitores. E nós com isso?

Para combinar as estratégias da abertura e do fechamento, isoladamente perdedoras, numa única estratégia campeã, os políticos brasileiros precisariam falar a mesma língua e colaborar. Mais ainda, precisaria haver coordenação entre todos os jogadores. Um técnico ou capitão do time.

Infelizmente, Jair Bolsonaro abdicou dessa posição logo no começo da nossa tragédia. Quando o STF lhe disse que não poderia mandar e desmandar como bem entendesse, ele fez biquinho e não brincou mais.

Como não existe lockdown sem que o governo federal adote medidas que lhe são próprias – como controle do tráfego aéreo ou do tráfego terrestre entre estados, por exemplo – a estratégia vencedora descrita pelos matemáticos nunca esteve de fato ao alcance brasileiro.

Desde o início, estava escrito que íamos nos dar mal, porque Bolsonaro decidiu não fazer o que é exigido de seu cargo pela Constituição, em um sistema federativo.

Os presidentes da Câmara e do Senado dizem que não é hora de instalar uma CPI da Pandemia. Segundo o deputado Arthur Lira, não interessa ficar perguntando, neste momento, quem errou ou acertou. Mas a questão não é de erro, é de responsabilidade.

Mesmo sem falar em vacinas, leitos, cloroquina e tudo mais que não deu certo na “logística” brasileira, mesmo sem falar em Eduardo Pazuello, Jair Bolsonaro bloqueou, lá no começo, a possibilidade de que o Brasil desse respostas coordenadas ao desafio da Covid.

Se Bolsonaro tivesse conseguido dar um golpe autoritário em 2020, como chegou a sonhar, o Brasil já estaria todo aberto há muito tempo. Como ele não teve força para isso, e a oposição não teve força para arrancá-lo de seu bunker mental, ficamos presos no Impasse Brasileiro.

A moral desta história não é que Jair Bolsonaro precisa estudar teoria dos jogos. A moral é que, em certas circunstâncias, não existe final feliz sem cooperação política. E cooperação só existe onde há líderes capazes de dialogar.

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