Artes Visuais

O técnico e o poético

Panorama da obra de Artur Lescher traz 120 trabalhos escultóricos articulados em torno da ideia da suspensão

Crédito: Divulgação
CONSTRUÇÕES Duas obras de Artur Lescher: no alto, vista da sala “Suspensão”, com esculturas pendulares; acima, “Sem titulo” (2013-2018) da série “Afluentes” (2004-2019) (Crédito:Levi Fanan)

Artur Lescher: Suspensão/ Pina Estação, SP/ até 24/6

Artur Lescher é um artista construtor — de objetos e de significados. Nesse sentido, poderia ser considerado também um artista escritor. Quando articula em sua escultura materiais como o ferro, o cobre, o alumínio, o latão ou o feltro, ele constrói objetos como se escrevesse textos, ou arquitetasse conceitos. As relações entre as palavras e as coisas são centrais em seu trabalho. A palavra “Suspensão”, título da exposição retrospectiva da obra de Artur Lescher na Pina Estação, em São Paulo, é, portanto, uma chave de acesso e entendimento de seu pensamento.

Com curadoria de Camila Bechelany, a exposição está montada em três seções. “Suspensão” é também o título da sala central, dando a entender que o desafio à gravidade, e o tensionamento entre peso e leveza são condições estruturais em toda a trajetória do artista. “Colocar em suspensão o significado das coisas é um papel da arte”, diz Lescher à ISTOÉ. Nessa sala estão reunidas dezenas de esculturas pendulares e verticalizadas, que mal tocam o chão. A sensação do visitante é de caminhar ao longo de uma constelação de astros.

Dois eixos se estruturam a partir da seção central Suspensão. O primeiro, intitulado “Narrativas Líquidas”, é composto por obras da série “Rios” e “Afluentes” (2004-2019). “Rio Máquina” (2009) é a grande engrenagem do discurso desses grupos de trabalhos, que operam um apagamento ­— ou desmonte — da palavra e da ideia de rio. “Me refiro aqui ao rio não como natureza, mas como máquina, como operação de linguagem”, diz Lescher. Feita de malha de aço inoxidável, a escultura articula qualidades de resistência e flexibilidade e remete, afinal, a uma rotativa gráfica. Nesse sentido, a escultura remete-se à imprensa e à escrita.

“A gramática e a equação sintática do trabalho são feitas das escolhas de encontros entre materiais. O metal, que é duro e pesado, na forma de correntes pode ser fluido e estabelecer conexões”, continua o artista. A operação poética proposta por Lescher é primeiro extrair a função e o sentido de uma palavra-objeto, depois inseri-la dentro de um sistema que não é natural, ou seja, ressignificar. “Nisso reside uma operação de suspensão. Entrar em um hiato, em um lugar de liberdade”, diz.
O segundo eixo articulado com a sala dos objetos e dos conceitos suspensos é “Engenharia da Memória”. Nessa última sala, são apresentadas cerca de 50 maquetes e cadernos de estudos. A obra central aqui é “Nostalgia do engenheiro” (2014), que faz uma homenagem ao mais metafísico dos artistas, o italiano Giorgio de Chirico. A obra é composta por 16 objetos em metal e madeira, que reeditam ferramentas, objetos e espaços utilizados por de Chirico para colocar tempo e espaço em suspensão. “Eu gosto das coisas circulares e bem amarradas”, resume Lescher.

Roteiros

Reconhecer Tarsila
Tarsila Popular/ Museu de Arte de São Paulo (Masp), SP/ de 5/4 a 28/7

TARSILA popular “Operários” (1933), óleo sobre tela, 150 x 205 cm: do Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo (Crédito:Divulgação)

A mais popular das artistas brasileiras, Tarsila do Amaral (1886-1973), ganhou há um ano uma retrospectiva no MoMA-NY, onde foi chamada “inventora da arte moderna no Brasil”. No rastro do reconhecimento proporcionado pela exposição, o MoMA fez, em fevereiro último, sua primeira aquisição de uma tela da artista paulista. O óleo “A lua” (1928), daquela que é considerada pelo mercado a melhor fase de Tarsila, custou US$ 20 milhões ao museu nova-iorquino — a maior quantia já paga por uma obra de artista latino-americano. Antes, o MoMA-NY só contava com um desenho da artista doado pelo galerista e colecionador Max Perlingeiro, na ocasião da retrospectiva.

Agora chegou a hora do Brasil (re)conhecer Tarsila do Amaral. Com cerca de 120 obras, entre pinturas e desenhos, a mostra “Tarsila Popular”, no Masp, se volta para a relação de sua obra com o universo popular brasileiro — leia-se o Carnaval, as favelas, as feiras, a religiosidade, as lendas populares e indígenas. Com curadoria de Adriano Pedrosa e Fernando Oliva, a expo integra o ciclo “Histórias das mulheres, histórias feministas”, eixo temático da programação do Masp em 2019. Detalhe digno de nota é que 85% dos textos do catálogo da exposição são escritos por mulheres. Entre eles, seis são inéditos, apontando para um novo olhar sobre a inventora do modernismo brasileiro. PA