O surto da liberdade

O presidente entra em sua sala, irritado, depois de interromper mais uma entrevista.

A secretária, experiente, entra logo atrás tentando acalmá-lo:

— Bom dia, presidente! Quer um pãozinho com leite condensado?

— Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! Não faz pergunta idiota!

A mulher gira nos calcanhares e volta rapidamente para sua mesa.

O presidente anda assim, ultimamente.

Fontes próximas ao Palácio do Planalto garantem que o mandatário está impossível, brigando com Deus e o mundo.
Dizem que foi visto mandando o jardineiro do Palácio do Planalto voltar para a faculdade.

Ou calar a boca. Ou nascer de novo. Existem várias versões.

A moça do café também já foi calada pelo presidente em plena reunião ministerial, após um simples “bom dia, cafezinho?”.

Alguns falam em impeachment, outros em intervenção, mas a solução mais rápida veio do próprio presidente

— Nasce de novo! Cala a boca! Volta pra faculdade! – o presidente respondeu, para constrangimento de um ou outro ministro. Não todos, pois alguns concordaram.

A bem da verdade, o mandatário nunca foi lá muito gentil, mas suas reações pioraram muito desde que a CPI começou.

E conforme foram surgindo novas revelações, seu comportamento foi se tornando cada vez mais errático.
Hoje não é capaz de manter sequer um breve diálogo com quem quer que seja.

Se o presidente tivesse partido, a essa altura estariam muito preocupados, afinal, o político que ocupa o cargo máximo
da Nação precisa dar exemplo.

Mesmo para ele, um contumaz grosseirão, não pega bem mandar os outros calarem a boca.

Mas o presidente está praticamente abandonado.

Largado a sua própria sorte, precisa tomar suas próprias decisões, coisa para qual nunca teve nenhuma habilidade.
Resta apenas sua família, que de tão preocupada, resolveu tomar uma atitude:

Uma feijoada.

Não deu certo.

— Cala boca Zero Um! Nasce de novo Zero Dois! Volta pra faculdade Michelle!

— Mas eu não fiz faculdade, querido.

— Então, nasce de novo. Ou cala boca.

De volta para a secretária.

Nos últimos dois anos ela estava certa de que tinha aprendido a lidar com o presidente.

Mas ultimamente, confessa, está perdida.

E, coitada, resta a ela preparar aqueles que arriscam um contato. Seu telefone toca. É o ministro do planejamento:

— Como é que tá o homem hoje? – pergunta.

— Daquele jeito, ministro… daquele jeito… – responde
a secretária, já transferindo a ligação.

O presidente atende ao primeiro toque.

— Que?

— Caro presidente, é o ministro…

— Cala a boca e passa logo. – ela passa a ligação.

— Bom dia presidente! Estive pensando…

— Ah, faça-me o favor! Volta pra faculdade! Nasce de novo! Cala a boca! – o presidente interrompe o ministro e desliga.

Foi então que aconteceu.

Num surto, o presidente se ergueu da cadeira e começou a gritar sozinho, andando em círculos:

— Cala a boca! Deixa o presidente falar! Volte pra faculdade! Nasce de novo! Estou falando! Eu que mando! Cala a boca!

Na sala da secretaria, alguns funcionários de segundo escalão atraídos pelos gritos do presidente, vieram ver o que estava acontecendo. De surpresa, o presidente abre a porta:

— Dá pra calar a boca aí atrás!? – o mandatário berra espantando os curiosos e sai correndo pelo Palácio do Planalto, seguido de perto por seus assessores mais fieis.

Agora, somados aos de seus asseclas, os gritos da comitiva ecoam pelos corredores como um mantra:
— Cala a boca! Volta pra faculdade! Nasce de novo!

De lá, o presidente desceu a rampa e se uniu a seus seguidores, que mal podiam acreditar.

Ministros, eleitores, filhos, num congraçamento jamais visto.

— Cale a boca! Volta pra faculdade! Nasce de novo! Entoavam como um hino.

Em tresloucada corrida, pegaram a Belém-Brasília e rumaram para o norte.

E nunca mais foram vistos, para deleite da Nação.


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