Cultura

O sobrevivente

Em “O Retalho”, o jornalista francês Philippe Lançon revela como saiu com vida do atentado terrorista contra a redação do jornal “Charlie Hebdo” e explica por que não se identifica com a campanha Je Suis Charlie, que tomou o mundo após o ataque em 2015

Crédito: Divulgação

SENSAÇÕES Philippe Lançon: apoio em Pascal e afeto pela cirurgiã (Crédito: Divulgação)

“Toda a infelicidade dos homens decorre de eles não saberem ficar quietos dentro de um quarto.”A frase, que pode soar como a reclamação de algum adolescente isolado e ansioso em tempos de pandemia, é de autoria do filósofo Blaise Pascal. Apesar de ter sido escrita no século 17, serviu de mantra para ajudar outro francês a refletir sobre seu drama pessoal trezentos anos mais tarde. Preso a um quarto de hospital, Philippe Lançon repetiu o mantra durante todo o período em que se recuperava do atentado terrorista sofrido por ele e seus colegas do jornal “Charlie Hebdo”.

LIBERDADE DE EXPRESSÃO Homenagens na redação do “Charlie Hebdo”: atentado comoveu os franceses (Crédito:AFP PHOTO/ BERTRAND GUAY)

Essa e outras memórias compõem o magnífico relato “O Retalho”, lançado no Brasil pela editora Todavia. Desafiador e satírico, o “Charlie Hebdo” foi o alvo escolhido pelos terroristas após publicar charges ridicularizando o profeta Maomé. “Se for para respeitar os que não nos respeitam, melhor fechar as portas”, defendia o editor Stéphane “Charb” Charbonier – um dos doze mortos no atentado de 7 de janeiro de 2015.

O dia do ataque ocupa um bom espaço na narrativa do jornalista francês. Apesar de escrito em primeira pessoa, o livro não traz traços de autopiedade nem foi concebido como uma aula de superação stricto sensu. Mas é impossível não se inspirar pela prosa racional e envolvente de Lançon, principalmente nos trechos em que ele apresenta sua alta cultura como arma para manter a sanidade e enfrentar os desafios médicos que surgiriam a partir da internação.

“O Retalho” não surpreende pela trama, que é conhecida de todos. O que chama a atenção no estilo de Lançon é a objetividade extraordinária com que conta a própria história. Ele escreve para exorcizar o trauma, sim, mas durante o processo as reflexões profundas e existenciais parecem se impor e exigir espaço, quase que à força, entre as páginas.

Na véspera do atentado, Lançon assistiu com amigos a uma peça de Shakespeare, “Noite de Reis”. A maneira como ele narra seu cotidiano corriqueiro antes do momento em que sua vida mudou é de uma racionalidade visceral. Os eventos são lembrados não pelo homem que não sabia o que ia acontecer, mas pelo homem que sabe o que aconteceu. Não há sentimentalismo, não há desespero. Apenas uma sucessão inevitável de acontecimentos.

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Ainda na noite que antecedeu o atentado, Lançon lembra que assistiu na TV a uma entrevista do autor francês Michel Houellebecq. Seu livro “Submissão”, que seria lançado no dia seguinte, trazia uma visão pessimista da França em 2022, com o país dominado por uma maioria islâmica e sob o regime de um presidente muçulmano. Lançon, que planejava uma entrevista com Houellebecq para o jornal “Libération” no sábado seguinte, nunca poderia imaginar que o fantasma do islamismo radical bateria à sua porta na manhã seguinte – literalmente, para seu horror.

A manhã em que ocorreu o atentado, obviamente, é um dos trechos mais intrigantes do livro. Há uma descrição de pormenores que impressiona pelo distanciamento. Antes de sair de casa, por exemplo, Lançon lembra que pensou em se livrar de um tapete puído comprado em Bagdá, em 1991. Ao recordar o momento em que deixa o Iraque carregando esse pesado tapete, Lançon ironiza o que o futuro lhe reservava. “Então eu disse adeus ao mundo árabe no qual começava a me sentir à vontade e que, 24 anos depois, sob uma forma imprevisível e no coração de Paris, viria atrás de mim.” Enquanto entra em um site para comprar uma passagem para Nova York, onde daqui a alguns meses daria um curso de literatura em Princeton, Lançon sabe que, simultaneamente, os terroristas se vestem para cometer o atentado.

De tão bem escrito, “O Retalho” parece ficção. Em vez de descrever o atentado por meio de fatos, Lançon narra a ação por meio das sensações. Embora o tempo seja artificialmente desacelerado em situações extremas como essa, Lançon revela que não teve sequer tempo suficiente para entender o que estava acontecendo. Restou a ele apenas sucumbir diante de uma sucessão de imagens desconexas, personagens fora de lugar e vozes gritando “Alá Akbar, Alá Akbar”. Enquanto esse caos acontecia, foi baleado três vezes e caiu. Para escapar, fingiu-se de morto. Depois, ficou sabendo que toda aquela eternidade havia durado apenas dois minutos.

UNIÃO Multidões em todo o mundo saíram às ruas entoando o bordão “Eu Sou Charlie”

Temporada no hospital

Boa parte do livro é dedicada ao processo de recuperação de Lançon e às diversas cirurgias de reconstrução por que passou. Seu rosto, em especial a boca e o queixo, foram as áreas mais afetadas – vem daí “O Retalho” do título. Os nove meses passados nos hospitais Salpêtrière e Invalides, ambos em Paris, são regados a livros, jazz e música clássica – Lançon aproveita o isolamento médico para desfilar sua extensa cultura e abusar das comparações com sua própria situação. Como nas impressões sobre “A Montanha Mágica”: no clássico de Thomas Mann, o protagonista Hans Castorp, internado com tuberculose no sanatório onde boa parte do livro se passa, ouve do primo Joachim: “Aqui não fazem muita cerimônia com o tempo da gente”. Em outro episódio, Lançon cita trechos de “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, que leu pela primeira vez sob a fraca luz de um hotel em Mogadíscio, na Somália.

Eu não sou Charlie

Nascido em Vanves, França, em 1963, Philippe Lançon recorre à infância para explicar suas origens culturais. O amor pela música, por exemplo, vem de cedo. As melodias suscitam constantemente passagens aleatórias de sua vida, como a lembrança do primeiro álbum que comprou, aos 16 anos – “My Favorite Things”, de John Coltrane. Em digressões não-lineares, Lançon permite ao fluxo de pensamento navegar por imagens nostálgicas de sua vida. Em meio a uma noite em Cuba, Lançon volta à redação do “Charlie Hebdo” e aos “pernas pretas”, maneira como descreve seus algozes. Durante uma conversa com Gabriela, a namorada chilena que mora em Nova York, lembra de um livro de jazz que mostrara a um colega pouco antes do ataque. Para a memória, a ordem cronológica dos episódios não existe: todos os pensamentos de Lançon o levam de volta à fatídica manhã.

Durante sua odisseia por hospitais parisienses, Lançon lembra da primeira vez que ouviu o bordão “Je Suis Charlie” (Eu Sou Charlie), slogan que representou a solidariedade em defesa do jornal e da liberdade de expressão em todo o mundo após o atentado. “Eu escrevia no Charlie, fora ferido no Charlie e vira meus companheiros mortos no Charlie. Mas eu não era Charlie”, escreve. “Eu era Chloé”, referindo-se à cirurgiã que o operou e por quem desenvolveu uma relação de afeto.

Lançon revela também uma mágoa com seus colegas da imprensa. Chega a culpá-los pelo destaque que as sátiras do “Charlie Hebdo” ganharam na luta solitária, segundo ele, pela liberdade de expressão mundial. Para ele, a maioria dos jornais não se solidarizou com o “Charlie Hebdo”, “alguns por bom gosto, outros porque acreditavam que os muçulmanos não deviam ser provocados”, alfineta. E arremata com uma crítica contundente: “Essa ausência de solidariedade não foi apenas uma vergonha profissional, moral. Ela contribuiu para, ao isolá-lo e apontar o dedo para ele, fazer do ‘Charlie Hebdo’ um alvo dos islamistas”.

“O Retalho” lhe rendeu prêmios como Femina, Roger Caillois e Renaudot. Lançon recebeu ainda os prêmios Henri de Régnier, da Academia Francesa, o Jean-Luc Legardère, como Jornalista do Ano, e foi condecorado pelo governo francês com a Ordem das Artes e das Letras. Apesar do reconhecimento popular e de crítica, o livro não parece ter sido escrito para o público. Soa mais com desabafo pessoal dele para si mesmo, como se o “jornalista” estivesse pagando algum tipo de dívida para o “homem”, a vítima que ele se tornara.

Charlie Hebdo, o alvo

Em 2011, o jornal já havia sido alvo de um atentado à bomba, sem feridos. O motivo foi o mesmo: publicação de charges protagonizadas por Maomé. O ataque de 2015, no entanto, deixou 12 vítimas fatais: os cartunistas Charb, Georges Wolinski, Jean Cabu, Bernard Verlhac e Philippe Honoré; o economista Bernard Maris; o revisor Mustapha Ourad e a psicanalista Elsa Caya, autora da coluna ‘Divã’. Morreram ainda o funcionário Frédéric Boisseau, um convidado que visitava a redação, Michel Renaud, e os policiais Franck Brinsolaro e Ahmed Merabet.

Acostumada a vender 60 mil cópias semanais, a edição do “Charlie Hebdo” após o massacre teve uma tiragem de
7 milhões de cópias e foi traduzida para seis idiomas. Na capa, o jornal manteve o tom que sempre o caracterizou, com uma charge de Maomé chorando e segurando um cartaz que dizia “Je Suis Charlie – Tudo está perdoado”.
“O Retalho” termina de forma simbólica exatamente no dia seguinte a outro episódio de intolerância que atingiu a capital francesa: o ataque à casa noturna Bataclan, em 13 de novembro de 2015.

Isso não é um spoiler, uma vez que a história é pública e as 130 vítimas fatais, reais. Também não é um spoiler simplesmente porque a história de Lançon ainda não chegou ao fim. Ele continua vivo – assim como o islamismo radical que o atacou.

Trecho

” Fechei os olhos, depois abri-os novamente, como uma criança que pensa que não será vista ao se fingir de morta; pois eu me fingia de morto.

Eu era essa criança que uma vez existira, era essa criança de novo, brincava de morto pensando que talvez o dono das pernas pretas não me visse ou que me julgasse morto, pensando também que ele me veria e me mataria.
Eu esperava ao mesmo tempo a invisibilidade e o golpe de misericórdia – duas formas de desaparecimento.

 

 

 

 

 

Lançamento

“O Retalho” (2020)
Philippe Lançon
Editora Todavia
Tradução: Julia de Rosa Simões
461 páginas
Preço: R$ 79,90 (e-book: R$ 49,90)

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