Cultura

O silêncio do inocente

No papel mais corajoso de sua carreira, Anthony Hopkins volta a disputar o Oscar de Melhor Ator com o emocionante “Meu Pai”

Crédito: SEAN GLEASON

MESTRE SIR ANTHONY Hopkins: excelente interpretação de senilidade (Crédito: SEAN GLEASON)

ESTREANTE Florian Zeller: primeiro filme do dramaturgo foi indicado a seis Oscars (Crédito:ADAM HINTON)

A inocente pergunta feita por um homem de 81 anos quebra o silêncio e corta o coração de qualquer um. “Quem sou eu, exatamente?” Pronunciada por Anthony Hopkins, então, com seus olhos azuis trêmulos e perdidos em meio ao semblante ansioso, evoca uma emoção ainda maior. Há algo tristemente familiar nesse drama. Estamos acostumados a ver o rosto do ator britânico há décadas, mas a força dessa atuação nos remete à alguma memória pessoal, um avô, um tio distante, um amigo querido. Essa cena tem algo de estranho: não estamos acostumados a ver Anthony Hopkins em uma situação de fragilidade, mesmo sabendo que ele passou dos oitenta anos na vida real. Na nossa cabeça, Sir Anthony Hopkins será sempre o Dr. Hannibal Lecter, de “Silêncio dos Inocentes”, Richard Nixon ou o Rei Lear. Foi muita grandeza por parte do maior ator da atualidade esquecer tudo isso e, por um momento, se entregar ao papel mais corajoso de sua carreira.

No papel mais corajoso de sua carreira, Anthony Hopkins volta a disputar o Oscar de Melhor Ator com o emocionante “Meu Pai”

Anthony, personagem homônimo, é o protagonista de “Meu Pai”. A produção concorre a seis estatuetas do Oscar – uma delas, obviamente, na categoria de Melhor Ator. Aos 82 anos, Hopkins é o mais velho a receber uma indicação. O filme conta a história de um homem que mora sozinho em um apartamento em Londres e se recusa a tratar bem as enfermeiras que sua filha, Anne (Olivia Calmon), tenta contratar. Ela, apesar de ver o Alzheimer do pai avançar, decide se mudar para Paris e seguir sua vida.

O filme, que estreia em 9 de abril, é inspirado na peça do francês Florian Zeller, ganhadora do prêmio Molière em 2012. O autor também dirige essa adaptação para as telas, seu primeiro filme, e é co-autor do roteiro ao lado de Christopher Hampton (de “Desejo e Reparação” e “Ligações Perigosas”). Zeller diz que, apesar da carga emotiva da trama, concebeu o filme como um thriller: “Quis que o público se sentisse próximo dos personagens, como é no teatro. Hopkins tem uma presença forte e Olivia é, para mim, a maior atriz da atualidade”. Zeller prossegue: “A história é sobre aquele momento em que nos tornamos pais de nossos pais. Anne é o coração da narrativa, pois ela tem de decidir se vai viver sua própria vida ou se vai continuar vivendo a vida do seu pai.”

Uma carreira espetacular

 

 

 

 

 

 

 

 

Dos palcos à tela

A direção de Zeller torna “Meu Pai” diferente de outros filmes que mostram a saúde de um personagem se deteriorando. Sua opção reforça a tragédia da doença, que é a de perceber que seu corpo funciona perfeitamente, mas seu cérebro, não. O enredo, portanto, incorpora a confusão do personagem ao roteiro – e é isso que faz o filme tão especial. Em um momento, Anthony conversa com a filha Anne; na cena seguinte, a mesma personagem é interpretada por outra atriz. Em vez de exigir que o espectador imagine o que Anthony está sentindo, ele faz com que o público veja a mesma coisa que ele. Isso cria inicialmente uma sensação de desconforto, mas torna mais crível a aflição provocada pela perda da consciência. O público pode até se perder em alguns momentos, mas logo compreende que está vivendo uma experiência semelhante ao que acontece na mente do personagem – e isso reforça o sentimento de empatia. “Participar desse projeto me ajudou a concentrar a mente na minha própria mortalidade”, afirma Anthony Hopkins na apresentação do filme. “Acredito que simular a demência será uma forma bastante efetiva para evitá-la.” Durante as filmagens, o ator recordou a experiência no relacionamento com o próprio pai: “Tenho 82 anos, mais do que ele tinha quando morreu. Assim, compreendi o papel de Anthony desde o início. De certa forma, foi como interpretar o meu pai.” Questionado sobre uma possível aposentadoria, Hopkins é taxativo. “Eu morreria se abandonasse a minha profissão. Eu tenho de ser um velho guerreiro! Um sobrevivente!”

RAINHA Olivia Colman: para o diretor Florian Zeller, a maior atriz da atualidade (Crédito:Istock)

A atriz Olivia Calmon, que ganhou o Oscar de Melhor Atriz em 2019 com “A Favorita”, volta a concorrer esse ano com “Meu Pai”, mas dessa vez na categoria de Atriz Coadjuvante. Popular em todo o mundo graças ao premiado papel de rainha Elizabeth na série “The Crown”, Olivia foi humilde ao comentar a atuação de seu colega. “Hopkins é um ser cheio de vida. Passávamos o tempo conversando, mas no minuto que o diretor gritava ‘ação’, ele estava pronto para atuar”, afirma. A história do filme fez a atriz se recordar de sua infância. “Minha mãe trabalhava como enfermeira, me lembrei de vê-la cuidando de pessoas mais velhas”, afirmou. “Meus pais ainda são jovens, mas recordo quando minha mãe teve de cuidar da minha avó. Em breve estarei em um papel semelhante.”

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