PANDEMIA * 2020

“O senhor quer ver caminhões do Exército transportando corpos?”

O ministro Mandetta avisou o presidente: as mortes em escala começam a acontecer também no Brasil, mostrando a face mais tenebrosa de uma doença que não é uma mera “gripezinha”

Crédito: NELSON ALMEIDA

SEM RITUAL Coveiros fazem sepultamento de mortos pelo coronavírus no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo (Crédito: NELSON ALMEIDA)

SEGURANÇA Padre italiano benze caixões das vítimas de Bérgamo: velórios proibidos e cremação (Crédito:PIERO CRUCIATTI)

Entre as tradições enraizadas da humanidade, os rituais de despedida dos mortos são as mais universais. Mas por causa da pandemia de coronavírus essas práticas estão sendo deixadas de lado e feitas com rapidez. O choque cultural não ocorre pela mudança dos costumes e sim pelos efeitos da tragédia e pelas mortes em larga escala. Entendidos como focos potenciais de contaminação, os velórios estão proibidos em várias partes do mundo ou limitados por tempo e número de pessoas. Há também casos como o da China em que os enterros foram totalmente substituídos por cremações. O sistema funerário encontra-se em colapso em muitos países e já não atende a demanda crescente pelos sepultamentos. As confraternizações estão sendo feitas remotamente e não há tempo para despedidas e orações. Enquanto isso, abrem-se mais covas para garantir que os mortos pela Covid-19 tenham sua última morada.

MEDO DE CONTÁGIO Em Madri, na Espanha, caixões são transportados por agentes de saúde com máscaras (Crédito:BALDESCA SAMPER)

O caos é vivido na Espanha, Itália, China, EUA, Irã e Equador, países nos quais a crise chegou mais rápido, e começa a atingir o Brasil, onde a situação fica mais grave a cada dia. Em alusão ao pavoroso número de mortes na Itália, que já passa de 13 mil, e ao avanço generalizado da epidemia, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez uma pergunta ao presidente Jair Bolsonaro, que se opõe ao isolamento social: “O senhor quer caminhões do Exército carregando corpos?”. Mandetta se referia à situação da cidade italiana de Bérgamo, onde esse caminhões foram usados para transportar centenas de corpos que foram levados para cremação sem passar pelo velório. As cinzas seriam entregues posteriormente aos seus familiares. O cemitério local está fechado pela primeira vez desde a 2a Guerra Mundial.

O caso brasileiro ganhou divulgação internacional pelo jornal americano The Washington Post, que publicou imagem do cemitério paulistano de Vila Formosa com dezenas de covas abertas para receber os corpos de pessoas que morreram e morrerão em decorrência da Covid-19. O diário ainda lembrou a tolice do presidente brasileiro que tratou a pandemia com “fantasia”. No País, até quinta-feira 2, havia 252 óbitos confirmados de coronavírus, mas esse número pode ser maior por causa da subnotificação e da demora na confirmação de exames realizados em pessoas que já morreram. De acordo com o Ministério da Saúde, 81% dos óbitos pela Covid-19 no País, o equivalente a 195 mortes, ocorreram na região Sudeste. Se os testes em processamento confirmarem que há mais mortes decorrentes da Covid-19, o número total de óbitos aumentaria 122%.

LOGÍSTICA Em Nova York, corpos são armazenados em câmara frigorífica antes de serem levados para o cemitério (Crédito:Divulgação)

Por força da pandemia, a prefeitura da capital paulista foi forçada a realizar ações de adequação para o setor funerário. Só no estado de São Paulo foram 164 óbitos e mais 201 mortes que ainda aguardam resultado dos testes para confirmação da doença. Entre as ações que foram tomadas estão o afastamento de 257 sepultadores que faziam parte de grupos de risco e o aumento a frota de carros funerários de 36 para 56, deixando dez para o atendimento exclusivo de translado de vítimas de coronavírus. Houve também a contração de 220 profissionais em caráter de emergência. Todas essas ações somadas indicam um aumento no fluxo de trabalho funerário. Por segurança, velórios foram suspensos.

Em média, o Serviço Funerário de São Paulo realiza 250 sepultamentos diariamente, mas nos meses de inverno esse número sobe para 340, em função do crescimento de doenças e traumas respiratórios fatais. Como não há tempo hábil para se confirmar a causa de todas as mortes, os óbitos considerados suspeitos recebem o carimbo de D3 na folha de declaração de morte, a sigla que determina a forma como esse corpo será tratado. Esse possível aumento de sepultamentos requer esforços tanto do poder público como do setor privado. Para Gisela Adissi, presidente da Associação e do Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Acembra e Sincep), as empresas estão preparadas para alta que deve ocorrer entre 6 e 21 de abril. “Mesmo com uma sobrecarga, em locais específicos como São Paulo, temos condição de atender”, diz. Nas funerárias particulares de São Paulo registra-se um aumento entre 10% e 20% na quantidade de óbitos nas últimas semanas.

Situação no mundo

A profusão de mortes – já há 1 milhão de infectados e 51 mil óbitos no mundo – tem feito vários países adotarem medidas de exceção para dar um destino aos corpos das vítimas. Na China, os caixões foram confiscados e estão proibidos os enterros. As autoridades locais distribuem os corpos para cremação. No Irã, a marcante tradição islâmica é colocada em segundo plano para que os corpos sejam enterrados em caráter emergencial. O governo corre para construir novos cemitérios. Em Nova York, o local que foi utilizado como necrotério para as vítimas do 11 de Setembro foi reativado. Militares correm para montar necrotérios em frente a hospitais de campanha. Em Madri, na Espanha, os corpos são levados para uma pista de patinação de gelo que agora funciona como necrotério improvisado. O colapso no Equador é tamanho que as pessoas morrem em casa e alguns cadáveres já são encontrados nas ruas. Em todo o mundo, as mortes em larga escala viraram um triste realidade.

A peste avança

Jornal americano destaca a abertura de covas no cemitério da Vila Formosa para receber corpos de vítimas da Covid-19