Saúde

O segredo da ressuscitação

A reversão da morte é um dos grandes desafios da medicina, mas a prática recente mostra que a melhor forma de salvar uma vítima de parada cardíaca é com medidas simples e rápidas

Crédito: Klaus-Dietmar Gabbert

SALVAÇÃO Paramédico simula o uso de um desfibrilador com um boneco: a reversão da morte súbita (Crédito: Klaus-Dietmar Gabbert)

Desde tempos imemoriais são feitas tentativas de reverter a morte. Tentar salvar o próximo é um impulso universal e altruísta do ser humano. Na Bíblia, há uma passagem que narra os esforços do profeta Eliseu para ressuscitar o filho de sua mulher, Sunamita, usando respiração boca a boca. O médico e alquimista Paracelso foi pioneiro, no século 16, na utilização de foles de lareira para introduzir ar nos pulmões de pessoas aparentemente mortas com o objetivo de trazé-las à vida. Hoje em dia, a fórmula de reversão da morte passa por técnicas de compressão pulmonar e por um aparelho chamado desfibrilador externo automático (AED). Se no passado a morte súbita era reconhecida em casos de afogamento, asfixia ou trauma, no mundo contemporâneo sua principal causa é uma parada cardíaca fulminante. “O mais importante na ressuscitação é fazer os procedimentos com simplicidade e prontidão”, diz o cardiologista Sérgio Timerman, diretor do Laboratório de Treinamento e Simulação em Emergências Cardiovasculares do Instituto do Coração (Incor). “É imprescindível dar diagnóstico e atendimento rápidos”.

Hoje, os males que mais provocam paradas cardiorrespiratórias são doenças cardiovasculares, coronarianas, cerebrovasculares e a embolia pulmonar. Diagnosticar a causa da parada aumenta as possibilidades de ressuscitação. Depois que o coração para, as chances da pessoa morrer aumentam 10% a cada minuto que passa. A partir do terceiro minuto, a probabilidade de ficar com alguma sequela é muito grande. “Tempo é vida”, diz Timerman. “Quanto mais a gente complica para fazer a ressuscitação, pior é”. Antigamente, por exemplo, media-se o pulso e agora não se faz mais isso num primeiro atendimento de emergência. Só se buscam dois sinais simples: se a vítima está respirando e se está consciente. Medir o pulso não é função de quem não é médico e a respiração boca a boca tampouco deve ser aplicada por leigos. O importante é reconhecer a parada e iniciar as compressões até que chegue o socorro. “A gente vê pessoas que resistem a uma parada cardíaca por 30, 40 minutos, quando bem atendidas, e ainda conseguem voltar à vida. Mas isso é incomum”, afirma.

Choque elétrico

Os desfibriladores emitem um choque elétrico que reativa o coração. Embora sejam indispensáveis, eles não são eficientes em todos os casos. Há três situações que levam a uma acidente cardiovascular. A mais comum, que representa 60% dos casos, é a fibrilação ventricular, quando o coração passa a bater de maneira caótica e deixa de funcionar como uma bomba. Nesse caso, para reverter o ritmo desordenado, a única maneira é usar um desfibrilador. Outras situações são a assistolia, em que o órgão para de bater e fica sem nenhuma contração, e a atividade elétrica sem pulso, que deixa o coração com os batimentos dissociados. Tanto na assistolia como na atividade elétrica sem pulso, o desfibrilador não tem eficácia. Daí a necessidade de um diagnóstico rápido antes do uso do equipamento.

“O mais importante na ressuscitação é reconhecer a parada cardíaca e iniciar imediatamente o procedimento de compressão torácica. Nesse caso, tempo é vida” Sérgio Timerman, cardiologista (Crédito:Pedro Dias)

Segundo Timerman as principais novidades nos processos de reversão da morte estão, na verdade, na pós-ressuscitação e nos procedimentos realizados no hospital. Depois que o paciente se salva, há recursos que devem ser usados para garantir a sobrevivência. O primeiro é a oxigenação por membrana extracorpórea, feita com um aparelho que promove a oxigenação continua do sangue do paciente. Outro tratamento é a hipotermia ou resfriamento da temperatura do corpo, cujo objetivo é preservar as células nervosas.

No Brasil, Timerman estima que haja 280 mil tentativas de ressuscitação por ano e os índices de reversão são baixos. Se um cidadão tiver uma parada cardíaca no meio da rua longe do ambiente hospitalar e sem qualquer apoio técnico, suas chances de sobreviver são de 1%. Mas se o acidente acontecer num hospital ou em um lugar com gente capacitada para lidar com emergências, como o metrô de São Paulo, por exemplo, essa probabilidade pode subir para 30% ou 40%. Em São Paulo existe uma lei desde 2005 que determina a obrigatoriedade de manutenção de um aparelho desfibrilador em locais que tenham concentração ou circulação média diária de pelo menos 1500 pessoas, mas a adesão à lei deixa muito a desejar. De qualquer forma, o conhecimento sobre a ressuscitação está se disseminando e reverter uma morte que parece certa não é mais um milagre.