Cultura

O Rio de Ruy

Em “Metrópole à beira-mar”, Ruy Castro mapeia a vida do Rio de Janeiro nos “loucos anos 20”, quando a capital da República revolucionou a cultura e a política - e lançou o modernismo no Brasil

Crédito: Divulgação

ELETRIZANTE O Rio se ilumina à noite na Exposição do Centenário da Independência (1922), preparando o palco para as grandes mudanças comportamentais. Ruy Castro conta a história cultural da cidade na época (Crédito: Divulgação)

Os anos 1920 foram conhecidos como “os anos loucos” ou “a década barulhenta”. A Grande Guerra havia acabado e dado espaço à aparição de novas formas de vida. As responsáveis pelas mudanças de costumes foram as mulheres, até porque elas sobreviveram às baixas da guerra: 10 milhões mortos e o dobro de feridos, muitos deles sem pernas e testículos. Atribui-se a elas a decadência do patriarcado. O cenário estava em ruínas, mas vibrava. Uma nova era chegava de repente ao mundo para perturbar os hábitos.

O Brasil levou alguns meses para ingressar nela, a começar pela capital. Aportaram no mar carioca as representações diplomáticas, das modistas, dos artistas e dos produtos da recém-chegada era mecânica, com os discos e os filmes, vindos da Europa e sobretudo de Hollywood. Não demorou uma semana para o Rio se converter em uma das mais esfuziantes capitais culturais do planeta. Tudo o que se seguiu é a matéria tema do livro “Metrópole à beira-mar – o Rio moderno dos anos 20”, de Ruy Castro, lançamento da Companhia das Letras. Não é de hoje que o Jornalista e escritor mineiro de 71 anos narra histórias ambientadas na velha capital. É o Rio de Ruy, mais colorido e fascinante do que qualquer outro poderia imaginar.

PUBLICIDADE As revistas semanais como Eu sei tudo, que ilustra um avião despejando folhetos sobre o centro da cidade. Leques anunciam o lança-perfume Flirt (abaixo) no carnaval de 1919, o maior da história

Galãs sem barba

Desta vez, recua ainda mais no tempo para ressuscitar um panorama social, político e artístico desconhecido e até desprezado. Trata-se de uma obra de história da cultura repleta de imagens e painéis de costumes que revelam o clima alegre de uma cidade que se reconstruiu para os novos tempos. Saíram de cena os espartilhos e as rendas, o penteado com chapelões, a casaca, a cartolas e a barba. As saias subiram, as cinturas baixaram, a gola em “V” e o cabelo à la garçonne insinuavam mais que entregavam. A cartola deu lugar à palheta e a botina aos de borracha, jaquetões cederam aos paletós leves e a barba ao rosto escanhoado como os galãs de Hollywood. As mulheres passaram a fumar charutos, requebrar e jogar tênis. Os moços “sportsmen” saltitaram e cantaram fino. O namoro foi derrotado pela relação passageira, o “flirt”, marca de um lança-perfume vendido em 1919.

A partir da Exposição do Centenário da Independência, em 1922, a rede elétrica jogou holofotes sobre atores, músicos, escritores e mulheres que sacudiam o moralismo com uma versão tropical do tempo. O Rio “aboliu a noite”, disse Albert Einstein, ao visitar a cidade em 1925. O samba urbano do compositor Sinhô e de seu discípulo, o cantor sussurrante Mário Reis, concorria com os crooners de foxtrote. Histórias eróticas e satânicas dos dândis João do rio e Benjamin Costallat de das fatais Chrysanthème e Rosalina Coelho Lisboa sacudiam livrarias e vendiam revistas. O crítico Agrippino Grieco chocou chamando Machado de Assis de imitador do humorista Laurence Sterne. As versões nacionais das “flappers” da era do jazz irromperam ainda mais licenciosas que as americanas. Eram chamadas de “melindrosas”, porque melindravam, azucrinavam os conservadores de pince-nez. E como. Moças da alta sociedade, passaram a exibir os corpos na rua, “à imitação das meretrizes”, como reclamavam. Os carros alegóricos passaram a exibir garotas seminuas no corso carnavalesco. E o carros engarrafaram pela primeira vez a avenida Rio Branco. “O odor de estrume das ruas, foi substituído pelo de gasolina”, afirma Ruy.

Ao enfeixar todas essas tendências em uma narrativa irresistível, Ruy Casto defende, com despretensão, uma tese que desagradará aos acadêmicos uspianos: o Rio atuou como a locomotiva cultural do Brasil, e não a provinciana São Paulo, com seus 570 mil moradores. Até alguns dos principais líderes da Semana de Arte Moderna de 1922 vinham do Rio: Di Cavalcanti Villa-Lobos, Elsie Houston e Manuel Bandeira. A pá de cal na década foi dada pela Revolução de 30, quando os invasores gaúchos amarraram os cavalos ao obelisco da avenida. O ambiente pesou, a realidade soterrou a fantasia carioca. Mas seu legado permaneceu, afirma Ruy. “O Rio fizera a sua parte – tocara o Brasil para a frente”.