Comportamento

O rinoceronte da Sibéria

Animal viveu há mais de 20 mil anos e foi achado por acaso com 80% da carcaça conservada. Além disso, órgãos internos e presas também estão em bom estado

Crédito: Divulgação

ERA DO GELO Imagem ilustrativa do rinoceronte- lanudo: animal era jovem e morreu afogado (Crédito: Divulgação)

Valery Plotnikov

O derretimento das geleiras por causa do aquecimento global está causando um efeito surpreendente e estimulante para a ciência: a descoberta de espécies pré-históricas com o corpo em perfeito estado de conservação. O último desses achados foi feito por paleontólogos russos, que identificaram um lendário rinoceronte da Era do Gelo na região leste da Sibéria. As condições do animal impressionaram. Datado em mais de 20 mil anos, o rinoceronte da espécie lanudo tem 80% da carcaça intacta, desde órgãos internos como genitália e intestinos até tecidos moles e dentes.

O animal teria vivido no fim do período Pleistoceno e morreu jovem. “Ele devia ter entre três e quatro anos quando foi separado da mãe e morreu por afogamento”, afirma Valery Plotnikov, pesquisadora da Academia Russa de Ciências. “O achado nos permitirá reconstruir o paleoambiente daquele período”, acrescenta. A região da Sibéria tem sido, por conta da degradação do meio ambiente, um sítio paleontológico cada vez mais promissor. De repente, restos mortais de animais extintos aparecem na superfície. O rinoceronte-lanudo foi descoberto por acaso e não em uma escavação científica. Alexei Savvin, morador da região de Lacútia, estava passeando quando viu algo estranho próximo ao Rio Tirekhtyakh, em agosto de 2020. Ele informou as autoridades russas, que só agora divulgaram as informações. Embora outras descobertas tenham sido feitas na Lacútia, o rinoceronte é tido como um marco por sua perfeição.

PRESERVAÇÃO O chifre foi achado quase intacto ao lado da carcaça do animal: gelo e umidade evitaram decomposição do corpo (Crédito:Valery Plotnikov/Mammoth Fauna Study Department at the Academy of Sciences of Yakutia via AP)

“Cerca de 90% dos fósseis encontrados são apenas ossos. Achar um animal bem preservado é como se ele estivesse vivo. É um sonho”, diz André Strauss, arqueólogo da Universidade de São Paulo (USP). “Desde o século XVIII a Sibéria revela descobertas desse tipo. Isso é importante para remontar o passado e uma megafauna extinta”, acrescenta. A área da permafrost, tipo de solo encontrado na região do Ártico constituído por terra, gelo e rochas, é um dos principais sítios paleontológicos da Rússia. Em 2014, outro filhote de rinoceronte foi encontrado ali. O animal, apelidado de Sasha, chamou atenção de cientistas ao redor do mundo. É por isso que o cuidado com a nova descoberta é extremo. Os pesquisadores ainda não fizeram a remoção do material para um laboratório de ponta na cidade de Yakutsky porque as estradas estão intransitáveis.

Aquecimento global

“O aquecimento global impacta nas descobertas por conta do derretimento das geleiras” André Strauss, arqueólogo (Crédito:Divulgação)

As mudanças climáticas são responsáveis pelo derretimento das geleiras há décadas. Contudo, mesmo com os alertas da Organização das Nações Unidas (ONU), a situação parece não ser levada a sério. Há quem diga que o caos se aproxima e nos próximos anos teremos cada vez mais descobertas em ambientes gelados. “A tendência é aparecerem cada vez mais animais”, afirma Fernando Perini, professor de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Independentemente dos problemas ambientais, a comunidade científica chama atenção para os riscos do contato com animais milenares. Segundo Perini, diversos fósseis podem preservar vírus pré-históricos. “Uma preocupação da ciência é com relação aos patógenos congelados com os animais porque não teríamos como lidar com eles”, ressalta. “É preciso ter cuidado, mesmo que os estudos com DNA sejam avançados”.

André Strauss afirma que apesar dos benefícios para a ciência, a situação é complicada dentro do campo arqueológico, visto que, de certa forma, o aquecimento global “ajuda” as escavações e traz à tona segredos guardados nas geleiras. “O primeiro procedimento quando se acha um material é levá-lo para os laboratórios especializados, mas infelizmente acontecem erros na hora de preservar”, diz. Em agosto do ano passado, a ossada um mamute de 10 mil anos, ainda com vestígios de tendões, foi encontrada num lago no Norte da Sibéria. Alguns meses antes, havia sido descoberta a cabeça de um lobo gigante de 30 mil anos. Com o degelo acelerado, a tendência é que muitas novas surpresas apareçam nos próximos tempos.


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O Reino das descobertas
Degelo na região da Sibéria revela corpos de animais em excelente estado de conservação

Urso Spelaeus

No final de 2020, o fóssil do mamífero com tecidos moles, dentes e órgãos internos em perfeito estado foi encontrado. Acredita-se que o gigante tenha entre 22 mil e 39,5 mil anos. A espécie, que vivia em cavernas, foi extinta há 15 mil anos.

Mamute

O animal lendário que viveu na Era do Gelo foi recuperado na Sibéria. Tanto seus ossos como tecidos moles estavam conservados por conta do gelo e da baixa umidade, fato que retarda a decomposição dos animais. Estima-se que ele tivesse mais de 10 mil anos.

Lobo

Com 18 mil anos, o cachorro-lobo foi encontrado com dentes, nariz e pele praticamente intactos. Especialistas acreditam que o cão é o mais antigo que se tem registro e pode ter contribuído para a evolução de outras espécies.

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