Comportamento

O resgate de Montezuma

O cocar que o imperador mexicano deu de presente ao conquistador espanhol Hernán Cortés, em 1519, volta a ser alvo de disputa séculos depois: a primeira-dama exige que o museu austríaco devolva o artefato ao México

Crédito: Divulgação

TESOURO Cocar de Montezuma: a jóia do imperador mexicano é feita de ouro, prata e cobre (Crédito: Divulgação)

GUERREIRO O imperador Montezuma foi responsável pelo desenvolvimento da nação asteca no século 16. Liderou a luta contra a colonização espanhola na América, mas foi vencido (Crédito:Divulgação)

Parte significativa da história da humanidade, a colonização foi a maneira que o homem encontrou para se espalhar pelo mundo séculos atrás. Com o uso da força, conquistadores se apropriaram das riquezas de diversos povos, causando sequelas culturais e econômicas que duram até hoje. É o caso do México: o país asteca começou a ser colonizado pela Espanha em 1519, ano em que chegou à América o navegador Hernán Cortés. Sem saber das intenções dos “homens brancos”, o imperador Montezuma presenteou o espanhol com um precioso cocar feito de ouro, prata e cobre. A cortesia, porém, não impediu a tomada do território pelos colonizadores europeus.

O México tornou-se independente em 1821 e, desde então, luta para reaver objetos espoliados pelas expedições europeias. Recentemente, a historiadora mexicana e primeira-dama Beatriz Gutiérrez Muller, esposa de Andrés Manuel López Obrador, presidente do México, organizou uma campanha para reaver o Cocar de Montezuma. O artefato está localizado no Museu de Etnologia de Viena, Áustria, que já havia negado a devolução do artefato em duas ocasiões, 1991 e 2011. Historicamente, sabe-se que os museus mais importantes do mundo estão repletos de obras de arte espoliadas, fato que reforça o debate atual sobre apropriação cultural. “Os europeus pensavam que tudo que eles encontravam em civilizações dominadas automaticamente pertencia a eles”, diz Diego Amaro, professor e historiador do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL). “O pensamento era que eram donos do território, então podiam levar embora o que quisessem. ”O presidente mexicano foi incisivo sobre o tema e está articulando maneiras de obter de volta os bens extraídos do seu país.

Divulgação

Na última semana, López Obrador se reuniu com o presidente austríaco Alexander van der Bellen para tratar do assunto. Sua intenção é expor o cocar durante as comemorações do bicentenário da independência mexicana, em 2021. Houve contato com outras autoridades, como Sergio Mattarella, presidente da Itália, Brigitte Macron, esposa do presidente francês Emmanuel Macron, e até o Papa Francisco, uma vez que essas nações também têm peças mexicanas em seus museus. Por meio do Twitter, o presidente mexicano divulgou as negociações. “Recomendei a Beatriz Gutiérrez (que lidera o projeto) que insistisse no penacho de Montezuma, embora se trate de uma missão quase impossível, dado que se apropriaram dele por completo.” Autoridades austríacas alegam que a fragilidade do objeto impede o transporte das peças — é a mesma razão alegada pelo país nas duas ocasiões anteriores. Para evitar maiores polêmicas, a restauração do Cocar, realizada entre 2010 e 2012, foi defendida por especialistas das duas nações, que concordaram com os procedimentos de reparo e asseguraram que “tudo estava sendo feito” para preservar o artefato histórico.

 

Desculpas

“Museus em todo o mundo dizem que as obras são ‘patrimônios da humanidade’, mas recusam-se a devolvê-las a seus verdadeiros donos” – Diego Amaro, historiador (Crédito:Divulgação)

O presidente mexicano também cobrou pedidos de desculpas oficiais à Igreja Católica por conta das apropriações feitas na colonização. O assunto foi debatido diretamente com o Papa Francisco, mas até agora nenhuma posição foi emitida pela autoridade máxima da Igreja. Para o historiador Diego Amaro, diversos museus sobrevivem às custas de objetos espoliados de outras nações, o que movimenta cifras milionárias e torna a possibilidade de restaurá-los aos seus locais de origem uma missão quase impossível. “Museus em todo o mundo dizem que as obras são ‘patrimônios da humanidade’, mas recusam-se a devolvê-las a seus verdadeiros donos”, afirma Amaro. “Na Alemanha nazista, havia grupos especializados na captura de obras de arte raras. Até hoje não se sabe quantas relíquias inestimáveis estão desaparecidas.”

Obras como a Mona Lisa, pintada pelo italiano Leonardo da Vinci e exposta no museu do Louvre, na França, ou o busto da rainha egípcia Nefertiti, pertencente ao Museu de Berlim, na Alemanha, provam que a apropriação cultural foi adotada há muitos anos pelas então poderosas nações europeias. O cocar de Montezuma é apenas mais um entre os inúmeros tesouros roubados de territórios conquistados em todo o mundo.

Veja também

+ Homem salva cachorro da boca de crocodilo na Flórida
+ Conheça o phloeodes diabolicus "o besouro indestrutível"
+ Truque para espremer limões vira mania nas redes sociais
+ Mulher finge ser agente do FBI para conseguir comida grátis e vai presa
+ MasterChef: Fogaça compara prato com comida de cachorro
+ Cirurgia íntima: quanto custa e como funciona
+ Zona Azul digital em SP muda dia 16; veja como fica
+ Estudo revela o método mais saudável para cozinhar arroz
+ Arrotar muito pode ser algum problema de saúde?
+ Tubarão é capturado no MA com restos de jovens desaparecidos no estômago
+ Cinema, sexo e a cidade
+ Descoberta oficina de cobre de 6.500 anos no deserto em Israel