Internacional

O Reino Unido dá adeus à Europa

O temor da perda de identidade e a falta de perspectivas entre os britânicos mais pobres e velhos levou à saída da União Europeia, mesmo depois de a maioria ter mudado de ideia. Para se manter, o populismo conservador terá que ir além das promessas de campanha

Crédito: The New York Times/Fotoarena

DESEJO DAS URNAS Como o voto não é obrigatório, as parcelas mais ativas do eleitorado ganharam espaço em um momento de impasse e desgaste partidário (Crédito: The New York Times/Fotoarena)

Durante dois anos e meio, os britânicos que foram contra a saída do país da União Europeia (EU) alimentaram esperanças. Havia suspeitas de manipulação por parte dos nacionalistas conversadores e até uma possível virada histórica diante um novo plebiscito, caso os jovens dos grandes centros urbanos entrassem de vez no jogo político e derrubassem a vitória do Brexit, obtida em junho de 2016 com 52% dos votos. Pura ilusão. A vitória dos conservadores nas eleições de dezembro foi acachapante. O mérito não é só dos conservadores, que fizeram de Boris Johnson o primeiro-ministro que vai separar o Reino Unido de seus vizinhos, principalmente as antigas rivais França e Alemanha. Reunidos em torno do trabalhista Jeremy Corbyn, os ditos progressistas não conseguiram convencer o eleitorado que a luta pela manutenção da integração europeia segue como um caminho para o progresso pela manutenção da abertura de fronteiras – e de mercados cooperativos. Afinal, Corbyn pouco tem de moderno. Aos 70 anos, representa mais o passado trabalhista do que uma alternativa de futuro na qual valeria apostar nas urnas. Seu partido amargou ficar só com 203 das 650 vagas na Câmara dos Comuns, o pior resultado desde 1935, em um país onde o voto não é obrigatório.

BORIS JONHSON Neto de um turco muçulmano, primeiro-ministro conservador é contra a presença de imigrantes (Crédito:Ben Stansall/AFP)

A vitória do conservadorismo nacionalista afeta os partidos e os políticos tradicionais de tal forma que ninguém ainda arrisca afirmar que rumos a vida pós-Brexit vai tomar. Agora, em vez dos jovens, quem dá as cartas são os ingleses — e até alguns escoceses, galeses e norte-irlandeses — mais velhos e menos estudados. Quase 80% deles votaram em Johnson. Vivendo nas periferias e nas cidades menores, eles acreditam ser aqueles que mais sofreram com a chegada das levas de imigrantes e com o forte processo de mudança da matriz industrial iniciado pela conservadora Margareth Thatcher, na década de 1980, para levantar a economia de um país que havia deixado de ser um império e seguia em decadência. Um legado que agora é desfeito por populistas de seu próprio partido, numa reação do eleitorado que acredita ter sido excluído da longa e radical modernização liberalizante promovida pelo thatcherismo — que em plena Guerra Fria comprou carvão barato da Polônia socialista para sufocar as greves de mineiros ligados aos sindicatos sociais-democratas. Um movimento que os trabalhistas não conseguiram reverter — e nem quiseram.

Isolacionismo populista

Para quem observa de fora, o estranho da mudança em curso é que hoje a maioria dos britânicos (54%) entende que permanecer na UE seria melhor. Só que não haverá nenhuma tentativa de virada de mesa. Afinal, o resultado do plebiscito precisa ser respeitado — uma lição de civilidade política para nós. E esse é o trunfo imediato de Boris Johnson. O prazo acertado com o bloco europeu para o Brexit é 31 de janeiro — ao custo da derrubada dos primeiros-ministros Thereza May e David Cameron e de um profundo desgaste do eleitorado com tantos impasses e polarizações.

Além das questões de soberania e identidade, o tema concreto que mais incomoda os britânicos é o emprego. Tanto os qualificados, que até agora eram disputados por jovens bem formados vindos das melhores universidades de outros países da UE, como os da classe trabalhadora, disputados por imigrantes e jovens estrangeiros, principalmente nos grandes centros. A troca dessas vagas por britânicos brancos até pode ocorrer, mas não significará que a vida será perfeita. Longe disso, o Reino Unido deve enfrentar agora barreiras alfandegárias para comprar e vender produtos, sejam legumes ou microprocessadores. Pode parecer irrelevante, já que 80% da economia do Reino Unido está concentrada no setor de serviços. Mas não se pode ignorar que a maioria dos trabalhadores menos qualificados apoiou o Brexit. Pelo menos os apoiadores de mais idade sairão ganhando algo. Jonhson prometeu mais investimentos no NHS, o sistema público de saúde, que deve receber 40 bilhões de libras (R$ 180 bilhões) a mais até meados de 2024. Além de abrir 40 novos hospitais. Mas tudo isso é pouco diante das ambições do isolacionismo populista. Com um PIB de US$ 2,7 trilhões previsto para 2019, o Reino Unido é a sétima economia do mundo. É dado como inevitável que os próximos dois anos serão de ajuste e de estagnação. Se a partir daí o Reino Unido não voltar a crescer, o esforço pode conduzir a um impasse que comprometerá as gerações futuras.