Edição nº2594 13/09 Ver edições anteriores

O rei surdo

Era uma vez um rei. O monarca de um reino muito grande e cheio de riquezas. Um governante amado pelo povo, mesmo quando não falava coisa com coisa. Coisas de rei, que pode tudo.

O povo, por sua vez, mesmo tendo que pagar impostos exorbitantes, com o reino caindo aos pedaços, vivia feliz. Coisas de povo, que aceita quase tudo. O rei vivia num castelo afastado, o que era bom, pois ninguém aparecia para reclamar. No castelo enorme viviam também os ministros e alguns nobres amigos do rei.

Os ministros falavam com o rei sobre todos os assuntos que importavam na arte de governar. Tim-tim por tim-tim, eles explicavam o que precisaria ser feito para fazer feliz o povo, os nobres e eles mesmos, os ministros. O rei sentava no trono do salão de audiências, onde os ministros e nobres aguardavam sua vez de falar. Um a um, eram chamados por um mestre de cerimônias que ficava ao lado do trono batendo com um bastão no chão e fazendo ares de grande solenidade:

– Sua Nobreza Abgmor Josley, Ministro da Comida.

O ministro caminhava por um longo e felpudo tapete vermelho para ir cochichar seus planos para o rei. Para dizer a verdade, aquele ritual era só para ocupar tempo, já que ninguém na corte fazia coisa alguma de prático ou de interessante naquele palácio.

E, para dizer a verdade toda, o rei não precisava de nada daquilo. Em primeiro lugar, ele conhecia todos os ministros e não necessitava daquelas apresentações e pompas. Além do que, sempre fazia o que lhe dava na telha — ou na coroa —, independente da opinião de quem quer que fosse. Porém, o mais importante era o fato do rei ser surdo. Surdão de verdade, não por força de expressão.

A mouquidão real era imensa, dessas que não deixam nem um trovão passar. Assim, durante as audiências, os ministros falavam e o rei apenas via seus lábios mexendo, entediado. Depois que a explicação, pedido ou conselho fossem devidamente apresentados, o rei decretava o que bem lhe desse na cabeça. E pronto.

Como o populacho não ligava para nada, só para as festas do reino, pouco importava o que decretasse a coroa. E assim foi por muitos e muitos anos. Mas como todo mundo sabe, um dia as coisas mudam. E o reino começou a empobrecer vertiginosamente.

Os motivos eram muitos. Primeiro, os nobres e os ministros roubavam descaradamente. Depois, com tantos impostos para pagar, o povo não tinha mais dinheiro sequer para viver, o que dirá para produzir riquezas. E, por fim, todos começaram a reclamar sem parar daquela roubalheira generalizada.

Só que o rei nem ligou. Em sua surdez absolutista, não ouviu o clamor popular. Os ministros e os nobres começaram a perceber que aquilo não acabaria bem, mas, por via das dúvidas, não pararam de se corromper. Todos queriam se garantir para o futuro.

Com o tempo correndo e os problemas se avolumando, o povo passou a se reunir na porta do castelo para protestar, apesar da distância. A multidão batia panelas e pedia a cabeça dos ministros e do rei, que nada fazia. Seu único cuidado era não se aproximar das janelas, pois não queria ser alvo de uma tomatada. Mas não teve jeito.

Um dia o povaréu invadiu o castelo e prendeu o rei. Sua filha, a princesa, passou a governar. Mas a genética é um troço complicado. A coitada era surda também. E quase muda. Não deu outra. Descontente, a galera foi lá e arrancou sua cabeça de cima dos ombros reais.

Cansado de reis incapazes de ouvir, o povo fez a sua revolução. Só que, em vez de acabar com a monarquia, apenas escolheram uma nova família nobre para comandar a nação. No início, o novo rei até que não foi de todo mal. Novos ministros, novos nobres e novas festas, algo que aquela gente sabia fazer muito bem. Mas, como todo mundo já sabe, as coisas mudaram de novo.

Foi no dia que o ministro da Honestidade foi apresentar um plano importante. Mal ele começou a discursar, o rei levou a mão em concha ao ouvido e gritou:

– Dá para falar mais alto? Não estou te ouvindo direito.

Tem monarca que não ouve ­— e nem quer. O problema é que junto também vieram ministros que sequer sabem falar. Depois acabam todos decapitados e ninguém sabe direito a razão

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Mentor Neto

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