O recado das potências
GEOPOLÍTICA O chinês Xi Jinping pediu respeito às diferenças e criticou a “Guerra Fria 2.0”. João Doria (abaixo) defendeu o respeito à ciência no combate à Covid-19 (Crédito:Li Xueren)

Pelo segundo ano consecutivo, o presidente Jair Bolsonaro não participou do Fórum Econômico Mundial de Davos. O maior encontro mundial de autoridades para debater os rumos do planeta aconteceu entre os dias 24 e 29 em condições excepcionais — foi virtual, diante da maior crise sanitária do século. E o líder brasileiro não fez falta. Sua única aparição no evento aconteceu em janeiro de 2019, quando fez um discurso relâmpago de oito minutos, considerado pífio por analistas internacionais. No ano passado, sua ausência preencheu uma lacuna. Diante do avanço das queimadas, do absoluto descaso ambiental e dos seus repetidos insultos a líderes internacionais, ninguém queria ouvir o mandatário brasileiro. E Bolsonaro também não tinha nada a dizer, já que está na contramão do mundo em praticamente todos os temas sensíveis: da cooperação internacional até a defesa da democracia. Davos atesta de que o País virou um “pária” no cenário internacional, como já definiu com orgulho o chanceler Ernesto Araújo.

O recado das potências
Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

A ausência do presidente acontece em um momento no qual chefes de Estado somam esforços para conter o avanço da pandemia, com a produção de vacinas e a defesa das medidas restritivas. Em lado oposto, Bolsonaro é crítico do isolamento social, provoca aglomerações e defende ideias negacionistas. Segundo Paulo Velasco, professor-adjunto de política internacional da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), a ausência do brasileiro revela a perda de uma vitrine de grande destaque para o País. Mas ele pondera: “Por outro lado, evitamos constrangimentos, como em 2019, com um discurso muito ruim. A presença de Bolsonaro poderia evidenciar o pouco prestígio que o Brasil tem internacionalmente.”

No lugar de Bolsonaro, o governo foi representado por outros políticos. O vice Hamilton Mourão, escolhido por Bolsonaro para gerenciar a crise na Amazônia, participou de uma mesa sobre financiamento na região e bioeconomia. Tentou aparentar normalidade. Disse que o governo brasileiro teve um 2020 “desafiador” no meio ambiente, mas “apesar da escassez de recursos o Brasil trabalhou para conter as queimadas ilegais e o desmatamento”. Os dados, no entanto, desmentem o general. Segundo levantamento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o Brasil encerrou 2020 com o maior número de focos de queimadas em uma década. E o Pantanal registrou 22.119 focos de queimadas, cerca de 120% a mais que no ano anterior.O recado das potências

Meio ambiente

Na ausência do mandatário, representaram o governo o ministro da Economia, Paulo Guedes, que falou sobre os desafios da retomada econômica; Tereza Cristina, da Agricultura, que abordou a inovação na agricultura; e Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, que analisou a geopolítica. Já o governador de São Paulo, João Doria, debateu o futuro das cidades. Coube a ele defender as medidas sanitárias preconizadas pelos cientistas para a pandemia. Também apresentou a colaboração de São Paulo no desenvolvimento de uma vacina em parceria com a China.

Entre os líderes, em face da crise da pandemia, a necessidade de cooperação internacional deu a tônica das intervenções. Joe Biden, que acaba de assumir, não participou. Mas foi representado por John Kerry e pelo infectologista Anthony Fauci, que respondem por dois temas centrais de sua gestão: o meio ambiente e o combate à Covid-19. No mundo pós-Trump, vários reforçaram a importância do multilateralismo, do combate à desigualdade social e da defesa do meio ambiente. O presidente da China, Xi Jinping, fez um discurso pautado pelo respeito às diferenças. “Cada país é único e nenhum é superior ao outro”, disse. Ele também fez acenos ao multilateralismo e criticou o isolamento entre nações. A China trava várias disputas comerciais e geopolíticas com os EUA, já chamadas de “Guerra Fria 2.0”. Isso não deve diminuir na gestão Biden. As fricções vão do monopólio da tecnologia 5G às críticas feitas pelo agora ex-presidente Donald Trump pela falta de democracia em Hong Kong. A chanceler alemã Angela Merkel também endossou o multilateralismo e disse que o mundo não pode ficar dividido entre aqueles que apoiam a China ou os EUA.

Já Emmanuel Macron, presidente da França, concentrou seu discurso na sustentabilidade como uma das chaves para a economia mundial no pós-pandemia. A prioridade global, segundo ele, deve ser pautada pela defesa do meio ambiente e do clima, bem como pela redução da desigualdade social. Segundo Velasco, o discurso das lideranças mundiais reflete os desafios da época. “Só o multilateralismo e a cooperação internacional aprofundada entre os países vão combater os efeitos da crise sanitária e os percalços econômicos advindos dela.” O Fórum também terá uma edição presencial este ano em Cingapura, entre os dias 25 e 28 de maio, e volta à Suíça em 2022. Provavelmente sem Bolsonaro.