Comportamento

O realizador de utopias

Há 500 anos, o padre alemão Martinho Lutero sonhava em reformular o catolicismo. Acabou sendo excomungado e criou uma nova Igreja, a luterana. Hoje, religiões derivadas dos princípios defendidos por ele, como as evangélicas e protestantes, contam com um terço dos brasileiros

Crédito: Lalo de Almeida

A CISÃO Das divergências de Lutero com o catolicismo surgiram igrejas protestantes ou evangélicas, como a Assembléia de Deus em São Paulo (Crédito: Lalo de Almeida)

O monge alemão Martinho Lutero queria apenas realizar um sonho e transformar a Igreja Católica à qual pertencia, mas acabou mudando a história do cristianismo. Ele não concordava com as diretrizes impostas por Roma, na Itália, onde ficava o Papa, chefe da sua Igreja.

Lutero elaborou então um elenco com 95 teses que gostaria de ver aplicadas ao catolicismo e afixou o documento na porta do castelo de Wittenberg, na Alemanha, onde era padre, para que os fiéis tomassem conhecimento de suas ideias revolucionárias. Era dia 31 de outubro de 1517, há exatamente 500 anos.

Entre outras coisas, Lutero criticava a “venda de indulgências”, com os pecadores sendo perdoados desde que fizessem contribuições em dinheiro para a congregação. A Igreja Católica não acatou suas sugestões e passou a combatê-las. Nascia ali o embrião de um novo movimento. Hoje, a Igreja inspirada na reforma protestante de Lutero, está espalhada no mundo todo. No Brasil, os adeptos das igrejas evangélicas já somam 32% da população.

Nascido em 10 de novembro de 1483, Martinho Lutero vinha de uma família pobre. O pai queria que ele fosse jurista. Lutero, contudo, acabou virando monge recluso num mosteiro em Wittenberg. Sempre foi muito temente a Deus. Em 1505, quase foi atingido por um raio.

Por ter escapado com vida, passou a ser mais devoto ainda. Mas logo o monge começou a mostrar seu inconformismo com dogmas e orientações vindas do Papa. Fez duras críticas à indulgência concedida pela Igreja, na qual o perdão divino só seria alcançado em troca de colaborações em dinheiro pelos fiéis. “Assim que o dinheiro entra no cofre, a alma sai voando do purgatório”, pregou Lutero à época.

Depois de lançar seu manifesto em 1517, Lutero casou-se com uma freira que largou o convento, provocando a ira do Papa. Outros gestos de Lutero também desagradaram a Igreja. Ele traduziu a Bíblia para o alemão e acabou com as missas em latim, para que as pessoas pudessem compreender melhor o que os pregadores diziam.

Passou a usar a imprensa para propagar seus escritos pela Alemanha e outros países. Apesar de discordar do Papa, Lutero não rompeu com a doutrina cristã. Ele sempre acreditou no “poder do diabo” e considerava justo que as bruxas fossem queimadas nas fogueiras. Entendia que Deus tornava o homem bom e justo e que a salvação só viria com a fé em Cristo. Queria uma fidelidade absoluta aos ensinamentos dos evangelhos. Por isso, seus seguidores passaram a ser chamados de luteranos, evangélicos ou protestantes.

Evasão de fiéis

A disputa com a Igreja Católica aumentou e Lutero passou a sofrer ameaças vindas de Roma. Ele precisou ficar um ano escondido num castelo no interior da Alemanha. Quando voltou, não se dizia mais católico romano. Começaram a surgir então as Igrejas com orientação luterana, onde não havia mais o culto a imagens e não se reconhecia mais a presença do corpo e do sangue de Cristo na Eucaristia. Lutero foi repreendido, mas somente em 1521 foi excomungado pelo Papa Leão X. Com isso, estava oficializada a cisão da Igreja.

A ação de Lutero provocou uma crise no catolicismo, com a evasão de fiéis. Por isso, o papa Paulo III convocou, em 1542, o Concilio de Trento para discutir os caminhos da Igreja Católica. Realizado em Trento, na Itália, o Concílio durou de 1545 a 1563 e marcou a contrarreforma.

Apesar de condenar a venda de indulgências, como combatia Lutero, a Igreja manteve teses condenadas pelos evangélicos: confirmou o culto às imagens de santos e à Virgem Maria, ressaltou a importância das missas, confirmou a existência do purgatório, manteve a proibição do casamento para membros do clero e a indissolubilidade do casamento.

Esses dogmas são mantidos até hoje pelo Vaticano. As divergências entre as duas Igrejas existem até hoje, 500 anos depois do documento de Lutero. Alguns dos seus ensinamentos, contudo, não são respeitados na maioria das congregações evangélicas brasileiras atualmente, onde o fiel é obrigado a pagar o dízimo de seu salário para “alcançar o reino do céu”. É o mercantilismo da fé tão combatido por Lutero há 500 anos. Assim caminha a humanidade.

Lutero, um revolucionário
Formado em filosofia, o monge alemão Martinho Lutero pregava, há 500 anos, mudanças radicais na igreja católica

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> INDULGÊNCIAS
Combatia a prática de indulgências em que os pecadores eram perdoados desde que contribuíssem financeiramente com a Igreja. A indulgência com dinheiro acabou sendo abolida mais tarde pela Igreja Católica.

> FIM DO CELIBATO
Pedia o fim do celibato (que proibia os padres de se casarem). Ele mesmo se casou com uma freira do convento em que pregava. Até hoje, os pastores protestantes estão livres do celibato, enquanto que os padres católicos ainda são terminantemente proibidos de se casarem.

> SEM CULTO A IMAGENS
Lutero pedia que se acabasse também com o culto a imagens de santos e à Virgem Maria, medida implementada nas igrejas luteranas e também nas evangélicas. Foi abolida a Eucaristia, com a presença do corpo e do sangue de Cristo.

> BOICOTE AO LATIM
As missas mudaram radicalmente. Deixaram de ser rezadas em latim. Lutero queria que os pastores pregassem na língua que as pessoas entendiam. Até a Bíblia foi traduzida para o alemão.