A Polícia Federal investiga o furto de amostras de vírus que foram furtadas do laboratório de virologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no dia 13 de fevereiro. Durante as diligências, a professora doutora Soledad Palameta Miller foi presa em flagrante como suspeita de furtar o material biológico.
Na decisão judicial, o tipo das amostras — até então mantido em sigilo pelos órgãos públicos — é tratado como vírus. Miller chegou a ser levada à Penitenciária Feminina de Mogi Guaçu, no interior de São Paulo, na segunda-feira, 23, após a Polícia Federal cumprir um mandado na Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde a professora atuava.
As amostras biológicas, que estavam desaparecidas desde fevereiro, foram recuperadas pela corporação em laboratórios da Unicamp utilizados por Soledad e, em seguida, encaminhadas ao Ministério da Agricultura e Pecuária.
No dia 24 de março, a Justiça Federal concedeu liberdade provisória, com medidas cautelares como proibição de comparecer à Unicamp e uso de tornozeleira eletrônica. No Termo de Audiência de Soledad, ao qual a IstoÉ teve acesso, a professora pode responder por armazenamento e descarte indevido de material biológico, o que poderia ter colocado em risco a saúde de outras pessoas.
Por meio de comunicado, a Unicamp afirmou que permanece colaborando com as investigações, e ressaltou que “os detalhes do caso serão preservados para não comprometer o andamento” das apurações.
Biossegurança do laboratório
O laboratório onde ocorreu o furto possui centros que operam com níveis 2 e 3 de biossegurança (NB-2 e NB-3). Isso significa que é certificado para manipulação de materiais das seguintes classes de risco:
- Classe de risco 2 (moderado risco para o indivíduo e baixo para a comunidade): segundo o Ministério da Saúde, inclui agentes que podem causar infecções em humanos ou animais, mas se espalham pouco e têm tratamentos e prevenções eficazes. Exemplos: Schistosoma mansoni e vírus da rubéola;
- Classe de risco 3 (alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade): são agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento. Exemplos: Bacillus anthracis e vírus da imunodeficiência humana (HIV).
Quem é a professora
Soledad atualmente é coordenadora do Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa orientadas a vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.
Além disso, atuou como analista no Laboratório Nacional de Biociências do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), em projetos na área de engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais dirigidos para terapia de câncer.
Na Unicamp, realizou pós-doutorado no Laboratório de Virologia, em projetos relacionados ao desenvolvimento de vacinas vetorizadas, protótipos de testes rápidos para diagnóstico de doenças aviárias e estabelecimento de modelos alternativos para diagnóstico e produção de vacinas veterinárias.