Jorge Messias, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao STF (Supremo Tribunal Federal), foi rejeitado pelo Senado para ocupar uma vaga na corte na última quarta-feira, 29. A derrota ganhou peso histórico, já que a última vez que parlamentares rejeitaram uma indicação presidencial à cúpula do Judiciário foi em 1894, no governo de Floriano Peixoto — ou seja, há 132 anos atrás.
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Ao longo de três mandatos, o presidente Lula (PT) indicou 10 ministros para a corte, sem nenhuma rejeição até então. Cristiano Zanin e Flávio Dino foram nomeados no atual governo, mas Messias enfrentou resistências do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que preferia a indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG). A obstrução foi abraçada ainda pela oposição ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), forte crítica das escolhas petistas.
Peso histórico em ano eleitoral

A postulação de Messias carimbou a tentativa de Lula conectar-se com o público evangélico, visto que o advogado é fiel da Igreja Batista Cristã. O petista contava com uma vitória a poucos meses da corrida presidencial que, de brinde, ainda remediaria sua rejeição entre o eleitorado religioso — comumente associado à oposição.
A expectativa foi abalada por uma derrota histórica, depositando o peso eleitoral do lado contrário da balança e expondo ainda mais a ferida entre Planalto e Congresso. Segundo o professor especialista em STF e fundador da FGV Direito Rio Álvaro Palma de Jorge avaliou à IstoÉ, a rejeição de Messias é considerada histórica “principalmente por ser um fato inédito sob o atual regime legal brasileiro”, marcando o primeiro veto desde a promulgação da Constituição de 1988.
O professor aponta que a sabatina deixou de ser um mero “rito de passagem” para ganhar contornos de instrumento político — o que está ligado à mudança do papel do STF na vida política brasileira. À medida que o Judiciário passou por um processo de “hipertrofia” institucional, tornando-se cada vez mais protagonista e “associado à judicialização da política e da politização da justiça”, o cenário se reconfigurou.
O Poder Judiciário é um dos temas centrais das campanhas para 2026, com postulantes exigindo reformas no sistema e direcionando críticas aos magistrados da Corte — acusações que aumentaram após indícios de suposto envolvimento de alguns juízes com o escândalo Master. Ciente dessa movimentação, o Senado passou a conduzir processos de escrutínio muito mais contundentes.
Como rejeição recai sobre o STF

Dentre os integrantes do STF, apenas os ministros Luiz Fux, André Mendonça e Nunes Marques sinalizaram apoio à aprovação de Messias e solicitaram votos a favor do indicado. Alexandre de Moraes chegou a se reunir com Alcolumbre — apontado como a principal obstáculo contra advogado-geral — pouco antes da sabatina.
O professor Álvaro Palma ressalta, porém, que o apoio público de um ministro do STF pode, a depender do contexto e de qual ministro oferece a chancela, atrapalhar um indicado em vez de ajudá-lo. “Trata-se de um momento em que há conflitos concretos entre o Supremo e Senado. Na própria sabatina, alguns senadores fizeram referências a ações e movimentações de ministros do STF e como isso os incomodou”.
Com a rejeição, Lula não perde o direito à indicação. O presidente poderá escolher um novo nome ou enviar novamente o nome de Messias ao STF, mas dependerá da articulação política do governo no Congresso. Até lá, a Corte seguirá desfalcada — o que é permitido pelo regimento do Supremo, mas pode “atrapalhar algumas questões de ordem prática”, avalia o professor.
A vacância de uma cadeira causa redistribuição e sobrecarga de processos, uma vez que o volume de novas ações que seria destinado ao ministro ausente passa a ser absorvido pelos demais integrantes. Além disso, a falta de um magistrado compromete a fluidez dos julgamentos: com as turmas reduzidas a um número par de membros, o risco de empates cresce, gerando insegurança jurídica e dificultando a conclusão de temas essenciais.