O que o Brasil põe na mesa para reverter tarifaço dos EUA

Além de argumentos de soberania, governo brasileiro recheia negociações com "cardápio" de ativos que interessam à Casa Branca

O que o Brasil põe na mesa para reverter tarifaço dos EUA

O governo brasileiro articula uma reação diplomática e comercial para reverter as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos sob produtos nacionais – ação do presidente Donald Trump em função do processo judicial contra o aliado Jair Bolsonaro (PL). Neste domingo, 26, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o líder americano se reuniram em um encontro classificado como “positivo” e já sinalizaram negociação para acertar os conflitos econômicos.

Após a reunião, o mandatário brasileiro usou as redes sociais para comentar a conversa. “Tive uma ótima reunião com o presidente Trump na tarde deste domingo, na Malásia. Discutimos de forma franca e construtiva a agenda comercial e econômica bilateral. Acertamos que nossas equipes vão se reunir imediatamente para avançar na busca de soluções para as tarifas e as sanções contra as autoridades brasileiras”, escreveu.

Para além dos argumentos de soberania, o Brasil coloca na mesa de negociações um “cardápio” de ativos estratégicos que interessam diretamente à Casa Branca e podem ser utilizados como moeda de troca para os acordos. O País possibilita, entre outras frentes, a instalação de data centres de empresas norte-americanas, concessões ou parcerias na extração de terras raras e a redução de barreiras à importação de etanol dos EUA.

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Data centers

No campo da infraestrutura tecnológica, o governo brasileiro apresenta à parte norte-americana um argumento para atração de investimento: o País dispõe de abundante energia renovável, uma vantagem para hospedar data centres de grandes players dos EUA.

Segundo autoridades brasileiras, trata-se de converter o Brasil em “hub mundial de data centers”, de modo a absorver demandas externas de processamento de dados, inclusive das empresas americanas. Na teoria, isso ajudaria a atrair investimento direto, gerar empregos com possibilidade de qualificação e fortalecer a soberania digital. Para os EUA, seria uma alternativa segura a outros países com marcos regulatórios menos previsíveis. A proposta vem sendo apresentada como um dos principais “ativos de negociação” no diálogo sobre tarifas.

Terras raras

Amostras de terras raras: Óxido de cério, Bastnasita, óxido de neodímio e carbonato de lantânio.
REUTERS/David Becker

O Brasil também destaca seu enorme potencial em reservas de minerais estratégicos, uma vez que o País conta com o segundo maior reservatório mundial de terras raras – grupo de 17 minerais essenciais para tecnologia, carros elétricos, armas, computadores e que estão entre os insumos mais disputados no plano geopolítico.

O Palácio do Planalto enxerga nesse recurso uma carta geopolítica. Com os EUA buscando reduzir a dependência da China (que possui a maior reserva mundial de terras raras) na cadeia de suprimentos tecnológicos, o Brasil tenta se posicionar como fornecedor alternativo, desde que as parcerias envolvam industrialização local e transferência de tecnologia. O governo também destaca que qualquer exploração deverá respeitar critérios ambientais e a soberania sobre o subsolo.

“Vamos discutir sobre os minerais críticos, quais as convergências dos interesses entre o que nós temos de potencialidade mineral e o capital americano para explorar esses minerais, respeitando a soberania nacional”, disse ainda em outubro o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, sobre o encontro entre Lula e Trump.

Tarifa sob etanol

Não é de hoje que a gestão Lula tem sido pressionada por alguns setores a rever uma medida incômoda ao governo americano: a tarifa do Brasil sobre o etanol de milho produzido nos EUA.

Atualmente, o Brasil cobra 18% de tarifa sobre o etanol americano importado, enquanto os EUA aplicam 2,5% sobre o etanol brasileiro. A diferença, inclusive, já foi citada pelo governo Trump. Apesar disso, a demanda encontra forte resistência de autoridades brasileiras, que enxergam a redução como uma ameaça à competitividade do etanol nacional no mercado interno.

Mesmo que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, comandado pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin, tenha indicado que a redução da tarifa ao etanol americano não está na agenda das negociações, a pauta pode ser usada como moeda de troca secundária.

Relação desgastada

Do outro lado, os pontos de tensão que agravam o desgaste diplomático entre Brasil e EUA são diversos. Em julho de 2025, os EUA sancionaram o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky – a primeira vez que essa lei foi aplicada a um magistrado brasileiro. Para o Brasil, essa sanção, aliada à imposição de tarifas sobre importações, é considerada uma tentativa de interferência seus assuntos internos.

A maior parte dos conflitos se dão sob acusações do governo americano de que Jair Bolsonaro seja alvo de “caça às bruxas” no Judiciário brasileiro. O ex-presidente passou por uma ação judicial no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentar impor um golpe de Estado no Brasil, sendo condenado à 27 anos de prisão. Trump usou o processo como justificativa para impor o tarifaço e sancionar autoridades do País – movimento cuja autoria também foi reivindicada pelo deputado Eduardo Bolsonaro, filho do ex-líder.

No tema da Venezuela – que tem tomado as manchetes das últimas semanas – a postura de Lula de buscar o diálogo e reintegração diplomática com a Venezuela contrasta com a posição de Trump.

Atualmente, os EUA promovem uma ofensiva intensa contra o país de Nicolás Maduro sob o pretexto de combate a narcotraficantes, endossando a rivalidade dos ambos os líderes. O governo brasileiro, por outro lado, já sinalizou discordar das ações norte-americanas, reafirmando os aliados pela América Latina e se diferenciando da atuação internacional dos EUA.

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, chegou a dizer que Lula se colocou à disposição para atuar como interlocutor entre os Estados Unidos e a Venezuela. Segundo o chanceler brasileiro, Lula disse que a América do Sul é uma região de paz e que é necessário buscar soluções aceitáveis.