O que muda se os EUA classificarem o PCC e o CV como grupos terroristas

Especialistas alertam para riscos de interferência política de Trump no Brasil com nova classificação de terrorismo

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Donald Trump Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein

O governo de Donald Trump, por meio de comunicado do Departamento de Estado dos Estados Unidos, informou que vê as facções criminosas brasileiras PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como ameaças à segurança regional. A indicação da Casa Branca de enquadrar esses grupos como “terroristas” é vista com preocupação pelo Palácio do Planalto, uma vez que a classificação exige três critérios principais: ser um grupo estrangeiro, possuir capacidade para ações criminosas de alto padrão (tipo terrorismo) e representar ameaça direta aos cidadãos ou ao território estadunidense.

Embora não existam documentos que comprovem a atuação dessas facções em solo americano para crimes comuns ou tráfico, é de conhecimento público que esses dois grupos criminosos mantêm alianças com organizações como a italiana “Ndrangheta”, tendo como objetivo o tráfico internacional de entorpecentes produzidos na Colômbia, Peru e Bolívia, que atravessam o território brasileiro pelos portos de Santos (SP) ou Paranaguá (PR) com destino à Europa.

A ofensiva de Donald Trump contra o crime organizado transnacional não é recente. Em fevereiro de 2025, os EUA designaram como terroristas cartéis mexicanos (Sinaloa, Jalisco Nueva Generación e Noreste) e o grupo venezuelano Tren de Aragua. Na ocasião, o secretário de Estado, Marco Rubio, explicou que a intenção era “proteger nossa nação e o Hemisfério”, fornecendo às autoridades policiais ferramentas adicionais para interromper campanhas de violência e terror.

Especialistas, no entanto, questionam a eficácia e o propósito dessa medida. Thiago Moreira de Souza Rodrigues, professor da UFF, explicou à IstoÉ que, desde os atentados de 11 de setembro 2001 às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York, os EUA criaram normas excepcionais, como confisco de bens e prisões sem acusação formal, que seriam aplicadas a esses grupos. Para ele, a possível classificação tem viés geopolítico.

“O conceito de terrorismo não faz o mínimo sentido, uma vez que grupos terroristas têm propósitos políticos e ideológicos. Os grupos de narcotráfico são empresas ilegais. Se eles têm relação com o Estado, com penetração institucional ou de enfrentamento pelo controle territorial, isso não tem objetivos políticos, mas justamente para viabilizar seus negócios.”

Reforçando essa visão, Bruno Paes Manso, pesquisador do NEV/USP (Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo), afirmou que tal classificação pode abrir brechas para intervenções dos EUA na soberania brasileira, justificando ações em território nacional. Além disso, há o risco de restrições migratórias: a Proclamação 14161, de junho de 2025, permite que o governo estadunidense vete vistos para cidadãos de nações com “presença significativa de terrorismo”.

Diante desses riscos, a gestão Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenta evitar o avanço da classificação, propondo aos EUA a ampliação da cooperação policial e de inteligência. O presidente brasileiro planeja uma visita oficial à Casa Branca para se reunir com o republicano, mas, devido a dificuldades de agenda, a data para março ainda não foi confirmada.

Uso político do tema

Segundo a pesquisa Genial/Quaest de fevereiro de 2026, a segurança pública é a maior preocupação de 27% dos brasileiros, superando economia e saúde. Com base nisso, a oposição tem aproveitado o cenário na tentativa de desgastar o governo Lula.

O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou um vídeo no X com notícias sobre a preocupação do governo com o enquadramento de facções, e questionou: “A quem o PT e Lula realmente servem?”. Ele ainda defende que o “narcoterrorismo” deveria ser prioridade e acusa o governo de “fazer lobby para evitar que os EUA classifiquem PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas”.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos EUA desde março de 2025, também reforçou o apoio à medida americana: “Eu estou do lado daqueles que combatem narcoterroristas. Lula está do outro. E você?”, indagou.

Para o professor Thiago Moreira, uma possível intervenção estadunidense na condução da polícia de segurança brasileira não é a solução, porque essa narrativa pode fortalecer a ultradireita ao unificar medos sociais sob um argumento ideológico que, embora tecnicamente incorreto, torna-se plausível para o público.