Entrevista

Wellington Dias, Governador do Piauí

O que já é grave, pode ficar muito pior

Joao Allbert

O que já é grave, pode ficar muito pior

Iara Lemos
Edição 05/03/2021 - nº 2668

Presidente do Fórum Nacional de Governadores, Wellington Dias (PT), governador do Piauí, tem acumulado nos últimos meses tarefas que ultrapassam as obrigações dadas aos governadores de estado. A fim de evitar o colapso total na saúde pública do País devido à pandemia, Dias e outros governadores partiram para a linha de frente no enfrentamento do caos sanitário, buscando negociações com outros países e empresas para a aquisição de mais doses de vacinas, uma tarefa que deveria caber ao Ministério da Saúde, mas, que, sob comando de Eduardo Pazuello, um mero cumpridor de ordens de Bolsonaro, não tem dado respostas satisfatórias aos gestores estaduais. Os governadores esperam que suas ações possam contornar as dificuldades, em um momento que a Covid atinge o auge da crise no País, em que já acumula mais de 260 mil mortos, tornando-se o maior em número de mortes diárias no mundo. “Os governadores resolveram arregaçar as mangas para evitar que a gravíssima situação dos nossos hospitais se alastre: corremos um risco real de colapso na rede hospitalar”, disse Wellington Dias à ISTOÉ.

Os governadores redigiram uma carta criticando as mentiras ditas por Bolsonaro. O que os senhores consideram mais grave na fala do presidente?
Estamos em um momento em que, independentemente das diferenças e das disputas eleitorais, temos de deixar as estratégias políticas de 2022 para 2022, porque neste instante é gravíssima a situação brasileira e temos um real risco de colapso na rede hospitalar. Temos uma nova cepa da Covid surgindo, que é um vírus com transmissibilidade muito mais elevada, que tem aumentado o número de casos e também o tempo das internações. E essa nova cepa de vírus demonstra ser mais letal. A cada 100 pessoas doentes que entravam na UTI, a gente tinha no máximo 50% de óbitos. Agora, estamos chegando a 60% ou 70%. Aí, num momento destes, qual é o sentido de o presidente Bolsonaro divulgar nas redes sociais uma informação distorcida de que liberou um grande volume de recursos aos estados para o combate à pandemia, mas coloca lá também todas as transferências previstas na Constituição?

O que, na verdade, é uma obrigação constitucional do governo federal, certo?
Sim, é uma obrigação do governo. Ele se esquece que uma parte da receita é da União, mas outra parte é do fundo de participação dos estados e municípios, do Fundeb e até recursos do INSS. Isso confunde a sociedade. Cria um problema sem precedentes, sobretudo em um momento delicado em que as pessoas estão com os nervos à flor da pele, irritadas e com a paciência curta. Olha o que ocorreu com o governador Ibaneis Rocha, do Distrito Federal. Esse tipo de informação errônea do presidente estimulou uma manifestação em Brasília contra o governo dele, o que, além de gerar aglomeração, colocou a saúde das pessoas em risco.

Manifestação, inclusive, apoiada pela deputada Bia Kicis, fiel seguidora de Bolsonaro, não é?
Exato. O que eu digo é que esse tipo de postura coloca um risco adicional no caos. Se todo mundo caminhasse na mesma direção, como acontece em outros países, teríamos mais facilidade para vencer a crise. Afinal, há um inimigo comum, que é o coronavírus.

O senhor acha que Bolsonaro, agindo dessa forma, coloca a saúde da população em risco?
Com certeza. Há um risco real. O que estamos vivendo com esse elevado número de óbitos é consequência direta do não cumprimento de regras por uma parte da população que segue orientação do presidente.

Como Bolsonaro tem uma forte atuação nas redes sociais, o senhor acredita que essa carta dos governadores pode reverter o peso das agressões do presidente?
Certamente não, mas não poderíamos deixar de dar uma resposta. Neste aspecto, quem está ganhando, infelizmente, é o coronavírus.

A falta de leitos, que já estava numa situação calamitosa, ficou ainda mais crítica. A maioria dos estados está com mais de 90% das UTIs ocupadas e o Ministério da Saúde deixou de pagar pelos leitos aos estados?
Temos uma situação de insegurança, porque de um lado somos obrigados a cuidar de todos os pacientes que chegam à nossa rede hospitalar, temos que pagar os leitos, as equipes de médicos e profissionais da saúde, e de outro lado não somos ressarcidos pelo governo federal desses custos. Na última reunião com o ministro Pazuello, ficou acertado que no dia seguinte o governo iniciaria os pagamentos desses leitos. O ministro disse que havia uma verba de R$ 5,2 bilhões para isso, mas os pagamentos não aconteceram. Alegou falta de recursos no orçamento.

Além de não pagar pelos leitos, o governo está deixando as pessoas sem auxílio emergencial e o País corre o risco de romper o teto de gastos…
Exatamente. Todos sabiam que o valor autorizado poderia ir além do teto. Para você ter uma ideia, no ano passado foi executado no orçamento, e agora consta no orçamento deste ano também, um gasto de R$ 43 bilhões a menos com a Saúde. Ora, de janeiro até agora, temos um recrudescimento da pandemia em todo o país, e temos menos recursos. O que estamos pedindo é que seja assegurado ao Ministério da Saúde um valor equivalente ao que foi executado no Orçamento de 2020, para que não haja interrupção de serviços por falta de recursos.

Até quando os estados aguentam essa situação?
Esse tempo já se esgotou, tanto que os estados apelaram ao Supremo para podermos ter essa garantia da liberação de recursos. Mas ainda na segunda-feira, 1, tratei com o Ministério da Saúde e com o presidente da Câmara, Arthur Lira, que nos prometeu ajudar na liberação dos recursos o mais rápido possível.

Até parece que o combate à pandemia não é prioridade do presidente e do ministro da Saúde, certo?
No Brasil, temos de separar quem está do lado do coronavírus e quem está do lado do combate ao coronavírus. Cada um vai tem de escolher o seu lado. Não é razoável que a gente não tenha as medidas necessárias para cuidar da população. Sentimos falta de ter no Brasil o que há em outros países, como Espanha, Alemanha, até mesmo nos Estados Unidos. Com Trump, havia uma situação semelhante à do Brasil: a falta de um plano coordenado. Qual foi a consequência de negar a pandemia? Na gestão de Trump, quase meio milhão de pessoas morreram. Quando Joe Biden passou a coordenar as medidas de combate à Covid, exigindo o uso da máscara, regras de restrições e empenho pela vacina, em pouco dias os americanos já ultrapassaram 50 milhões de doses aplicadas.

E isso poderia estar acontecendo aqui também se o presidente fosse outro?
É isso que a gente espera do Brasil agora, que a gente tenha o governo central se esforçando para obtermos a vacina, dialogando para que haja a liberação urgente dos recursos para os estados, fazendo o que é necessário para a governança desse colapso.

O senhor é a favor da saída do ministro da Saúde?
Não cabe a mim decidir sobre a manutenção ou a saída de um ministro, mas pelo bem do País precisamos ter no Ministério da Saúde alguém em quem possamos confiar e ter um plano estratégico para atingir, ainda em abril, pelo menos 50 milhões de pessoas vacinadas. Com a vacinação do grupo de maior risco, que responde a 70% das internações e óbitos, a gente poderá tirar essa pressão da rede hospital e, assim, salvar 18 mil pessoas por mês.

O ministro diz que até a metade do ano boa parte da população estará vacinada, mas estamos em março e só 3% da população foi imunizada. O senhor acredita que o ministro vá cumprir o que disse?
A nossa decisão de entrar em campo para comprar vacinas, de tratar com líderes de outros países, como da China, Índia, Reino Unido, Rússia e Estados Unidos, é um trabalho que deveria ser do governo central em qualquer lugar do mundo e era para acontecer também no Brasil. Ocorre que nós, governadores, entramos em campo para poder garantir que tenhamos alternativas de outras vacinas. Na última terça, 2, estivemos na União Química, que está sendo autorizada a fabricar a russa Sputnik.

Há estados em que as vacinas já estão faltando. Há uma previsão para isso ter fim?
Acertamos com o Instituto Butantan e com o Sinovac, que fornece os insumos da China, e com o Ministério da Saúde, um cronograma de entrega de vacina e estamos bastante confiantes para receber mais uma boa quantidade de doses ainda em março. Serão pelo menos 35 milhões de doses. A avaliação é que será possível recebermos mais 47 milhões de doses em abril. Isso permitiria vacinar pelo menos 20 milhões de pessoas em março e outros 23 milhões em abril.

O lockdown é a saída?
A solução duradoura é a vacina. Enquanto isso não acontece, veja que fechamos fevereiro com apenas 3% da população vacinada. Vamos ter de encontrar alternativas para reduzir a transmissão. Precisamos reduzir a hospitalização para reduzir o colapso nacional. Pedimos ao ministro que faça uma checagem na rede farmacêutica para começarmos a resolver problemas de falta de abastecimento de remédios. Será um colapso dentro do outro. É uma questão de vida ou morte.

Especialistas dizem que estamos à beira do colapso e que a situação ainda vai piorar em março.
Estamos há 40 dias com mais de mil mortes por dia. Em aproximadamente 14 estados os casos ainda estão em crescimento. Neste instante, já temos os primeiros sinais de colapso. Um estado não está podendo ajudar o outro, nem o setor público pode ajudar o privado, e vice versa. Isso é alarmante. Estamos chegando no limite da nossa capacidade de atendimento. Não há mais recursos humanos disponíveis. O colapso já chegou. Já temos pessoas sem leitos com respiradores e não temos mais UTIs. Várias regiões do País já estão nessa situação e caminhamos para esse ser o quadro na totalidade dos estados.

A culpa deve ser atribuída ao presidente e ao ministro da Saúde?
É claro que a falta de um plano centralizado pelo governo federal levou a esse quadro. O Brasil responde hoje por mais de 10% dos óbitos do mundo. Só esse dado diz claramente que temos mais de três vezes mais óbitos do que a média populacional do mundo. Sinal de que a ausência de uma ação articulada do poder central levou a uma catástrofe sem precedentes no Brasil.

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