Comportamento

O que acontece com a Amazônia

O governo brasileiro precisa cuidar melhor da grande floresta. Mas responde a altura às críticas de outros países, já que muitas delas sequer procedem

Crédito: RICARDO OLIVEIRA/EM TEMPO/AE; inema

NO CHÃO Castanheira centenária cortada em Parintins (AM): exploração descontrolada (Crédito: RICARDO OLIVEIRA/EM TEMPO/AE; inema )

A derrubada da floresta Amazônica não parou de crescer nos últimos dois anos e tudo indica que só vai aumentar. No primeiro semestre, perdeu-se uma área de 2.432 quilômetros quadrados, equivalente a mais do que a soma dos municípios de São Paulo e Salvador, aponta o levantamento Terra Brasilis, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que monitora a integridade da cobertura vegetal da região. Só em junho, a destruição da floresta atingiu quase mil quilômetros quadrados, 88% maior que no mesmo período do ano passado. O Pará é o estado mais afetado, sendo responsável por 48,6% de tudo que foi perdido para motosserras e queimadas, precursoras da abertura de pastos para o gado. Quase toda essa atividade é clandestina e tende a aumentar com a chegada do período de estiagem, que vai de junho a novembro.

Além do tempo seco, o fator político dá uma pesada contribuição à devastação. A posição do governo brasileiro de afrouxar a fiscalização e não destruir mais os equipamentos dos madeireiros e carvoeiros ilegais ajudará a aumentar a produção de gases de efeito estufa e impedirá que o Brasil cumpra as metas estabelecidas no Acordo de Paris, criado para atenuar o aquecimento global. Pelo documento, assinado em 2015, o Brasil se comprometeu a zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030. Por isso, a atual postura trouxe dissabores ao País no encontro do G20, em Osaka, na semana passada. A primeira-ministra alemã, Angela Merkel, afirmou estar preocupada com os rumos da política ambiental brasileira. O presidente Jair Bolsonaro rebateu a crítica, declarando que o Brasil é alvo de uma “psicose ambientalista” por parte de países que destruíram sua natureza de modo agressivo.

Grande compradora de commodities brasileiras, a Alemanha é uma das mantenedoras do Fundo Amazônia junto com a Noruega. O programa destina R$ 3,4 bilhões para ações de conservação na Amazônia, incluindo boa parte do financiamento do Ibama, mas é alvo de críticas. O governo brasileiro dissolveu o comitê organizador do fundo e quer mudar as regras de aplicação desses recursos para indenizar proprietários rurais cujas terras se situem dentro de unidades de conservação. Alemães e noruegueses são contra essa ideia.

“Esses índices são manipulados. Se você somar os percentuais que anunciaram até hoje de desmatamento, a Amazônia seria um deserto” General Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI)

União europeia

Para ter acesso aos recursos, o Brasil deve manter sua taxa de desmatamento anual abaixo de 8,1 mil quilômetros quadrados. Em 2018, a depredação foi de 7,5 mil quilômetros e esse limite pode ser ultrapassado em breve. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, afirmou na segunda-feira 1 que “esse assunto está em aberto ainda”. Já o primeiro-ministro francês, Emmanuel Macron, foi enfático. Seu país não assinará acordos econômicos com o Brasil caso Bolsonaro deixe o Acordo de Paris. Entre as cláusulas com a União Europeia está o bloqueio de produtos provenientes de desmatamento. O que pode prejudicar o agronegócio é que um embargo desse tipo muitas vezes começa mediante uma mera suspeita.

O governo tratou de revidar as críticas. Questionado sobre a política ambiental de Bolsonaro, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general da reserva Augusto Heleno, afirmou na quarta-feira 3: “Quem tem de cuidar da Amazônia somos nós. Esses índices são manipulados. Se você somar os percentuais que anunciaram até hoje de desmatamento, a Amazônia seria um deserto”. Foi um argumento parcial, já que do final dos anos 1980 até 2008 o ritmo de destruição anual da floresta oscilou entre o dobro e o triplo do atual, de acordo com o próprio Inpe. O que o ministro desconsiderou é que o monitoramento mensal é preliminar e, quando revisto, costuma apontar um estrago até maior, já que as medições finais são mais precisas.