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Entrevista

Roberto Jefferson

O PT está louco por um cadáver

Mateus Bonomi

O PT está louco por um cadáver

Octávio Costa e Ary Filgueira
Edição 19/01/2018 - nº 2509

Recuperado de um câncer no pâncreas, Roberto Jefferson, presidente do PTB, quer voltar à vida pública, da qual está afastado há 11 anos, depois de ter o mandato de deputado cassado no mensalão. Vai trocar o Rio de Janeiro por São Paulo. “Preciso construir um grande PTB no Brasil. Só vou conseguir fazer, se tiver um grande PTB em São Paulo. Vou me candidatar a deputado federal por lá”, explica. Uma de suas propostas será a extinção da Justiça do Trabalho. Ele garante, no entanto, que essa não é bandeira de sua filha, a deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ), que está impedida, por liminar, de assumir o Ministério do Trabalho. Na entrevista, Jefferson também afirma que não torce pela prisão de Lula, mas bate sem piedade no PT e critica a pressão dos petistas contra o Judiciário. “Eles querem uma guerra civil? Derramamento de sangue? O PT está louco por um cadáver”, acusa. Apesar de ter sido o primeiro a revelar a existência do mensalão, ressalta que não suporta delatores. “Canalha que mete a mão e, para se salvar, acusa os outros”. Feita a distinção, Jefferson diz se orgulhar de sua denúncia: “Eu consegui eliminar do jogo do poder Zé Dirceu, o homem que teria sido o Nicolás Maduro do Brasil”.

O senhor ainda confia que sua filha venha a ocupar o cargo de ministra do Trabalho?

Confio pelos valores que ela tem. É uma grande gestora pública. Foi secretária municipal da Prefeitura do Rio de Janeiro na gestão de César Maia. O apreço que tenho pela Cris é que ela tem voo próprio. Ela é Cristiane Brasil, diferentemente dos filhos dos políticos do Brasil que tem o sobrenome do pai, pois ela tem o da mãe. Ela não quis o caminho mais fácil. Foi escolhida por ação do presidente da República e não por indicação do pai. Levei quatro nomes de homens ao presidente Temer para que escolhesse. Ele disse: “Por que não uma mulher? A Cristiane Brasil. Gestora experimentada, qualificada”.

Acredita que a Justiça vai derrubar essa liminar?

Vamos tentar. O momento é muito difícil. Há uma intervenção muito grande do Judiciário na gestão da administração pública. O Judiciário está querendo suprimir o poder Legislativo e Executivo. Foi o que combinamos com o presidente.

O senhor deu uma declaração de que é favor da extinção da Justiça do Trabalho. É uma bandeira da sua filha ou apenas sua opinião?

Sempre defendi a extinção. É a minha opinião que quero discutir dentro do meu partido. A Justiça do Trabalho é ideológica, populista, socialista. A minha filha foi condenada a pagar ao motorista do meu neto. Ele tem empresa com personalidade jurídica. O rapaz bateu o carro dele, estava no período de experiência. Além de não pagar o carro, quis receber os poucos meses que estava em experiência. Ele citou o meu neto e a mãe dele, que é a Cristiane. Como meu neto mora na casa dela, o juiz decretou a culpa da minha filha porque ela é mãe no exercício de pátrio poder. Hoje ainda entra um tal de danos morais que é um absurdo. Ficou um poder absurdamente desmedido. A Justiça do Trabalho interpreta o empregador como um bandido, culpado. Ele tem contra a si a presunção da culpa. A Justiça do Trabalho é a babá mais rica do mundo.  Os juízes são verdadeiros mandarins.

Sua filha pensa assim?

Você tem de perguntar para ela. Ela deve estar lendo o que eu escrevo.

Essa sua postura não soa como retaliação à Justiça do Trabalho devido à situação da sua filha?

Eu já fazia críticas antes no meu blog. São os salários (dos servidores da Justiça do Trabalho) mais altos dos tribunais.

Caso não dê certo a nomeação da deputada, o senhor tem uma outra opção para o Ministério do Trabalho?

Vamos decidir isso com a bancada. Ela (Cristiane) voltaria então para disputar a reeleição.

Por falar em eleição, como o senhor analisa as eleições presidenciais deste ano?

Não creio num outsider. Creio que venha aí um político experimentado, limpo, sem cumplicidade com essa coisa de Lava Jato. Deve vir um político de centro que, a meu ver, é o Geraldo Alckmin, governador de São Paulo. É um homem preparadíssimo.

O PTB está fechado com ele?

Nós temos conversado. Não quero dizer que está fechado. Mas as nossas seções regionais são muito próximas do PSDB. Há convergência de interesse em vários estados. Mas tenho uma larga tranquilidade para dizer que o fechamento será com Geraldo Alckmin.

Por que o nome dele não decola?

O Lula apanhou quatro vezes para ganhar. Por que essa preocupação com candidato de centro? Alckmin está bem.

Não é pouco 6% nas pesquisas?

Não. O Dória arrancou com 3% para ser prefeito de São Paulo. Creio que a classe média que deu a vitória ao Lula sobre o Alckmin naquela época, em 2006, não repetirá o voto no PT, mesmo que o Lula seja candidato. O perfil do eleitor do presidente esse ano vai o ser o mesmo que elegeu Fernando Henrique em 1994.

O senhor acha que a disputa no segundo turno será contra o PT?

Tem duas hipóteses. Lula sendo absolvido, ele é o candidato. Aí teremos uma eleição que vai ao segundo turno e teremos uma disputa entre Geraldo e ele. Se Lula perder no Tribunal Regional Federal agora no dia 24, ele vai disputar a eleição como ficha suja, pendurado num mandado de segurança. Os votos não serão computados. Disputa a eleição, mas os votos dele não serão computados. Não sendo, vão para o segundo turno o segundo e o terceiro colocados. O Brasil já teve essa experiência em Osasco, em 2012, quando o Celso Giglio, do PSDB, ganhou a eleição para prefeito em primeiro turno, mas seus votos não foram computados porque teve sua candidatura impugnada pelo Tribunal Regional Eleitoral. Quem ganhou a eleição foi até o candidato do PT, Jorge Lapas, que ficou em segundo lugar. Se o Lula tomar uma martelada de 3 a 0, a eleição será disputada com uma margem de insegurança muito grande.

Isso não seria bom para o Brasil?

Claro. Mas o PT não se importa com o País. Se importa com o poder. É a diferença do PT para os outros partidos. Senão, não teria jogado tanto dinheiro fora em aventuras socialistas em países que não comungam o ideário da maioria do povo do Brasil.

O Ciro é um candidato viável?

Sim. O Lula não sendo candidato, Ciro é um forte candidato da esquerda. A meu ver. Tem desenvoltura, discurso, bagagem. Pode ser que junte até o PT em torno de si.

Num cenário entre Alckmin e Ciro no segundo turno, quem venceria?

O Alckmin é mais forte.

O Ciro não teria a favor dele o Nordeste?

Você acha que o Nordeste consegue juntar o Brasil em torno de si para derrotar o Sudeste? Penso que essa eleição passará por São Paulo. O Brasil ficou muito traumatizado com a eleição do Collor, em 1989. Ele tinha um discurso liberal, mas foi aquele desastre que vimos. Ciro tem um jeitão estouvado. Estamos precisando de um candidato moderado. Que una o Brasil. Que seja um picolé de chuchu. Não sou a favor do acarajé apimentado. Sou a favor do picolé de chuchu, que agregue as pessoas.

Geraldo Alckmin não vai gostar disso

Não tem importância. Eu não preciso que goste de tudo o que eu fale. A minha lealdade ele vai contar com ela. O próximo presidente tem que estabelecer limites institucionais, para evitar essa crise que o País está vivendo. O poder não começa na toga, mas na farda. Não se afirma na caneta, mas no fuzil. Não adianta essa tentativa de aventura que vai acabar desembocando no que ninguém está esperando e nem torcendo.

O senhor quer dizer aventura do Judiciário?

Sim. Esse ativismo. Essa invasão dos outros poderes.

Mas o PT também reclama da conduta do Judiciário. O senhor está concordando com Lula?

O Lula não pode querer negar os inquéritos de que ele participou. Ele é alvo de investigações profundas da Polícia Federal, do Ministério Público, do Judiciário, que levaram vários de seus companheiros… Companheiros não, companheirismo é palavra sagrada. Aquela turma é colegada. Então, as investigações já levaram um grande grupo da colegada para a prisão. Até a memória da falecida é tisnada como culpa. O Lula é o único inocente. Água pura num cano de esgoto. Ainda não vi exacerbação de poder dentro da Lava Jato. A atuação do juiz Sérgio Moro é recatada. O único exagero que ele cometeu foi divulgar a conversa de Dilma e Lula sobre a tal nomeação.

O senhor foi vítima da sua própria denúncia no processo do mensalão do PT?

Quando eu disse que recebi R$ 4 milhões na eleição municipal de 2004, para prefeito, por caixa dois, sabia que estava me arriscando. Saí de cabeça erguida. Como denunciante. Porque delator é uma palavra depreciativa. Eu fui um denunciante. Delação premiada é conversa para canalha, que mete a mão e, depois para se salvar, acusa os outros. Para mim, o importante da minha denúncia foi desmascarar o PT. Eu consegui afastar do jogo do poder Zé Dirceu, o homem que teria sido o Nicolás Maduro do Brasil. A Dilma se atirou no chão por si própria. Não tinha torcida no próprio partido dela. Diferente do homem orgânico que era o Zé Dirceu. Poderia ser o presidente da República. Hoje, estaríamos vivendo momentos dramáticos.

Como o senhor analisa a liberdade do José Dirceu?

Acho que ele está abusando. Lembro que, quando eu saí em liberdade condicional, dei entrevista e o ministro Luís Roberto Barroso ameaçou me prender se eu desse outra entrevista. O Zé Dirceu, em cumprimento de pena, está concitando a luta no dia 24. Como é isso? Que conversa é essa?

Como o senhor vê essa ação do PT de convocar as pessoas?

Eles querem uma guerra civil? Uma convulsão? Derramamento de sangue? O PT está louco por um cadáver. Quer ostentar o cadáver. Você viu o que disse a Gleisi Hoffmann? “Vai dar morte”. Morte de quem? Eles vão matar alguém? Ou vão querem que morra alguém dos deles? Eles vão desafiar a polícia para que faça um cadáver para ficarem ostentando o cadáver pelas ruas do Brasil, para se colocarem como vítimas da truculência policial? É uma coisa muito ruim quando uma pessoa concita a luta de morte em favor do poder que almeja.

 

 

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