Conflitos políticos nos últimos anos levaram a instituição Forças Armadas a uma encruzilhada: profissionalismo técnico-operacional dos seus quadros ou participação na ambiência política dos governos.
Após o regime militar, as lideranças nas casernas decidiram pelo recolhimento aos muros dos quartéis. Haviam saído do período de vinte e um anos de governo e carregavam as sequelas do poder.
Reavaliaram posturas e promoveram ações para fortalecer o papel de estrutura exclusiva do Estado, com olhos fixos na lei maior, a Constituição Federal.
Hoje, a suposta desarmonia das relações entre civis e militares vem desafiando a manutenção da estabilidade e da paz social do país.
As invasões dos Poderes da República no dia 08.01.23 aceleraram e aprofundaram essa marcha da insensatez.
Por muitos anos, o comportamento e a formação militares eram prioritariamente cartesianos. Ao longo daquele processo de circunspecção autoimposto, foram absorvidos traços mais robustos das ciências humanas e sociais, cambiando o perfil dos homens e mulheres das armas.
A Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), escola de formação da oficialidade do Exército, como qualquer organização militar de ensino, é um mundo de quietude severa.
As montanhas do maciço da Mantiqueira fazem reinar dentro de seus muros normas rígidas de comportamento com base na ética, disciplina e hierarquia.
Não faltar à verdade. Não prevaricar. Respeitar superiores, pares e subordinados. Devoção ao espírito de corpo e outros destes “mandamentos” estão grafados a cinzel nas decenárias paredes de mármore da Real Academia.
Quem dos fardados disso destoa, não pode chamar-se militar.
O professor Samuel Huntington, conselheiro de segurança no governo americano de Jimmy Carter, no livro O SOLDADO E O ESTADO aponta a lealdade e a obediência como as mais altas virtudes militares.
De fato, são atributos indissociáveis da cultura militar. Lealdade a uma causa e a um grupo, obediência às leis e aos superiores hierárquicos (sejam civis ou militares).
Em sua análise, Huntington apontou que as instituições democráticas americanas alcançaram o controle civil sobre o militar, solidificando o relacionamento entre esses atores sociais.
Os pais fundadores dos Estados Unidos tinham muita preocupação com o comportamento do Exército continental logo após a guerra da independência. Criaram os instrumentos para controlá-lo. Desde então, o poder político se impõe sobre o poder militar.
Mundo afora, quando ocorre um desvio do soldado da atividade precípua que lhe é destinada, quase sempre a ausência da liderança política responsável aparece como um fator coincidente na história.
É imprescindível que se consolide em nosso país a crença de que o profissionalismo militar está indelevelmente atrelado ao efetivo controle do poder civil.
Dos atores que devem atuar nesse processo de maturação – o político, o militar e a sociedade -, espera-se comportamentos que construam sólidas pontes para vencer o caudaloso rio da desconfiança.
Do comandante supremo das Forças Armadas, que ganhou destaque na proporção dos desafios de momento, incorporar com responsabilidade a liturgia e as ações inerentes do cargo.
Só assim, quando houver a exigência de instalação de uma estrutura de guerra, seja em um conflito externo ou mesmo em um interno, essa autoridade estará respaldada para definir as diretivas no nível mais alto da política de Estado.
Dos militares, fortalecer os sistemas de preparo, emprego e ensino das forças, promovendo a especialização dos seus recursos humanos, habilitando-os aos desafios modernos.
Também, vacinar-se contra o partidarismo. Um mal que está fracionando a coesão e abalando os pilares da hierarquia e da disciplina, com possibilidade de rachar os círculos castrenses vertical e horizontalmente.
O agente político das Forças Armadas é o Ministério da Defesa. É urgente dar-se a esse órgão de governo o estofo que lhe cabe. Quanto mais fortalecido, mais estável as relações civis militares.
Da sociedade, a firmeza para assegurar e cobrar o dever implícito das Forças Armadas, clarificados no artigo 142, da Constituição Federal. Servas de seu destino, elas se rendem com maturidade a essa subordinação.
A segurança do Estado vem em primeiro lugar. Sem ela a democracia é folha amassada, triturada e jogada no lixo da utopia.
Objetivos pessoais que possam debilitar essa segurança devem ser eliminados imediatamente. “Oitos de janeiro” não podem ser repetidos.
Paz e Bem!