O problema não está em Mandetta

Crédito:  Pedro Ladeira

(Crédito: Pedro Ladeira)

É preciso descobrir urgentemente uma vacina contra os desvarios bolsonaristas. A ameaça dessa praga ao País é latente e tem o poder de agravar ainda mais a hecatombe sanitária e econômica produzida pela pandemia da Covid-19. O Brasil se encontra à mercê de decisões imprudentes. É capaz de perder dias de ação no combate ao vírus para se dedicar a questiúnculas políticas e de natureza narcísica de um mandatário que se apequena e que gera conflitos para impor autoridade. Não são apenas falas e declarações ao léu de um homem inseguro e meio abobado, mas atitudes efetivas que desarrumam a gestão de um País tão complexo e necessitado.

Jair Messias Bolsonaro dá todos os sinais de ser um presidente assolado por inúmeras patologias psíquicas, dentre as quais a da perseguição sistemática e a da inveja sem medida. Com essa última voltou a mostrar de maneira eloquente que não suporta, nem aceita, o protagonismo técnico exibido por alguns de seus melhores ministros. No passado recente, se insurgiu contra o titular da pasta da Justiça, Sergio Moro — pela natural popularidade e respeito que ele desperta no público —, e, dias atrás, até mesmo o “Posto Ipiranga” czar da economia, Paulo Guedes, sentiu o peso dos muchochos do chefe, indo se exilar em casa no bairro carioca do Leblon.

Agora foi a vez de Luiz Henrique Mandetta, que dirige a Saúde, ser alvo desses arroubos. Ele tem atuado com tamanha desenvoltura técnica e seriedade nas deliberações que passou a aparecer nas pesquisas de opinião com o dobro de aprovação popular reservada ao próprio Bolsonaro. Foi o que bastou. Ao notar a projeção do subordinado, Messias resolveu colocar a sua cabeça a prêmio. Até porque, como especialista da saúde, e baseado na experiência mundial, Mandetta vinha orientando, responsavelmente, o isolamento, como medida para evitar o colapso do sistema — em clara oposição ao que prega o “mito”. Bolsonaro tem horror a ser contrariado, mesmo quando as evidências e a ciência se impõem aos seus “achismos”. Numa reação desesperada de fazer valer a vontade, o mandatário começou por lançar recados enviesados ao ministro. Em meio a um grupelho de fanáticos que habitualmente fazem campana em frente ao Palácio, Bolsonaro disse, arrotando arrogância, que iria usar a caneta contra “aqueles que viraram estrelas”.

A situação, inédita e equivocada de um comandante que teme a boa atuação da própria equipe, não passou em branco. O intento, na verdade, virou tiro pela culatra e enfraqueceu, ainda mais, a posição do titular do Planalto. No perímetro de seu gabinete, assessores mais próximos não conseguiam acreditar na conduta recalcada do chefe. Às pressas e sob a alegação de que iria deliberar a respeito de medidas estratégicas, o capitão reformado chamou para uma conversa a portas fechadas o Estado-Maior do Palácio. Os generais Braga Netto, Luiz Eduardo Ramos e Augusto Heleno, que formam o triunvirato de ministros militares do núcleo duro do poder, além do deputado Osmar Terra, levado a tiralocolo para intenções insuspeitas do capitão, reuniram-se no início da tarde da segunda-feira e ouviram dele a palavra de ordem: Bolsonaro queria a demissão imediata de Mandetta.

Não tinha nenhum outro assunto em pauta. Só esse, que acabou por se estender ao longo do dia. Braga Netto e Ramos trataram de argumentar sobre o risco da medida extrema. Falaram da instabilidade que a decisão despropositada acarretaria. Buscaram, em vão, dissuadir o presidente, esse resoluto e cego de inveja. Não encontrando aval dos militares de confiança, Bolsonaro marcou uma reunião extraordinária com todos os ministros (dessa vez até Mandetta), além do presidente do Banco Central e do BNDES, ao final da própria segunda-feira.

Entre um encontro e outro, fez chegar a público por intermédio dos interlocutores que o destino do auxiliar estava selado. “Bombeiros” entraram em campo nas vozes de forças constitucionais. Um verdadeiro cordão de isolamento pareceu se formar em torno do nome de Mandetta. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, ligou pessoalmente para o general Ramos e informou que o Congresso era contra a demissão. O Supremo Tribunal Federal, por intermédio de seu presidente, Dias Toffoli, também fez chegar ao Planalto que a Corte não via com bons olhos esse afastamento. Servidores públicos do Ministério, numa atitude inédita, desceram do prédio e foram para a rua em sinal de protesto ao afastamento, apoiando Mandetta.

E na reunião das cinco horas inúmeros ministros se manifestaram contra a decisão. Bolsonaro estava acuado. Percebeu que já não mandava como queria. A tutela providencial, na ação de parlamentares, ministros, governadores e técnicos da área, estava em franco vigor. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sacramentou a mensagem apontando que os poderes não iriam tolerar decisões fora do âmbito da ciência nesse momento grave. “Estamos todos seguindo o ministro Mandetta”, disse em endosso a mobilização. Bolsonaro estava isolado, mais fragilizado do que nunca em menos de dois anos de mandato. Teve de capitular e recuou após uma confusão desnecessária, enquanto o titular da saúde saía da fatídica conferência de cúpula para comunicar o seu “fico” ao povo.

Segue onde está, ninguém sabe até quando. Mas o episódio deixa lições e mensagens importantes. A primeira delas: o problema não está, nunca esteve, no condutor da pasta da Saúde. Emana diuturnamente da cabeça de um presidente fora de si, perdido em atitudes inexplicáveis e declarações sem fundamentação científica, que tenta menosprezar o impacto brutal do que ele chama de uma “gripezinha”. Perdeu há algum tempo a noção de realidade e as condições mínimas para governar.


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