O presidente ilegal e mentiroso

Crédito: Ueslei Marcelino

(Crédito: Ueslei Marcelino)

Com placa da moto encoberta, capacete irregular e sem máscara, o presidente Jair Bolsonaro esbanjava dias atrás crimes passíveis de punições evidentes na sua “motociata” sem noção, a debochar do isolamento. Virou corriqueiro. O Messias desobedece leis e impõe sua própria vontade como verdadeiro dono do País. Só ele pode, manda e desmanda. Uma delegada teve a “ousadia” de pedir buscas no Planalto para investigar a origem de atos antidemocráticos — que até as cortinas do Palácio sabem, muitos saem de lá. Não deu outra: foi sumariamente afastada, retirada do caso pelos asseclas servientes ao capitão. Embora atuando dentro do estrito dever, amparada pela lei, contrariou o “soberano” e levou o destino que — supõem os aliados — merecia. Não é mais apenas cheiro de totalitarismo no ar. É fato. O “mito”, com a complacência dos demais poderes, tomou conta. Virou inclusive as regras e princípios disciplinares das Forças Armadas. Quanto mais o resto. A Suprema Corte faz vista cega a tantas afrontas. O Congresso, cooptado, nem dá bola. E segue a escalada do controle absolutista. Dentro do Planalto, está agora evidenciado, o gabinete do ódio difundiu e operou acessos a sites apócrifos que martelavam fake news e palavras de ordem contra poderes constituídos e opositores. Canais que vêm estimulando atos antidemocráticos — ilegais por natureza — receberam diretamente da boca do caixa da Secom, a Secretaria de Comunicação do Governo, milhões em verbas e foram privilegiados frente aos veículos da mídia profissional. Ao menos R$ 52 milhões do fundo de recursos emergenciais, inicialmente previstos para a pasta da Saúde no combate à pandemia, foram automaticamente desviados para propaganda extra-oficial do capitão e de sua imagem. Há uma esbórnia autoritária em curso em Brasília e apenas quem está mancomunado com a turma dos abusos procura não enxergar. A CPI lança luzes sobre uma infinidade de desvios de atuação, mas o temor geral é de que nada seja feito após o inquérito. O mandatário nunca é responsabilizado. Mesmo as rotineiras multas, corretamente aplicadas por desrespeito à ordem de uso de máscaras, são ignoradas. O Planalto diz que ele não vai pagar e acabou. E quem terá peito de impor o contrário? Nem pergunte às autoridades constituídas. Parecem todas amuadas e receosas de contrariar o chefe.

Nunca se viu nada igual no País, a não ser em tempos de regimes de exceção. Voltamos a esse estágio? O presidente que comete ilegalidades como quem vai comprar pão na esquina também se mostra um mentiroso contumaz, incorrigível, absolutamente convencido de que suas aleivosias funcionam. No evangelho da loucura que professa recorreu a quase todo repertório possível de falsidades. Outro dia alegou que nenhum País tinha comprado imunizantes de maneira antecipada durante o ano passado. Propositadamente esqueceu, ou decidiu omitir, que boa parte dos países europeus, Reino Unido, EUA, Israel, Canadá, China e mesmo os vizinhos como Argentina, Uruguai e Chile, e uma penca de outros mais, o fizeram. A quem tentava enganar? Certamente apenas à tribo de adoradores fanáticos, sedentos de ouvir a homilia de desaforos e mentiras do capitão dia após dia. As transgressões, perfídias e ataques consomem a jornada do presidente praticamente de segunda-feira a domingo. Que desastre devora hoje o Brasil! Bolsonaro — ficamos sabendo há pouco, com a revelação das propostas de contrato — deixou de adquirir vacinas pela metade do preço pago por países da Europa. Tinha essa opção e não a aceitou, mesmo após a fabricante Pfizer ter incluído nas cláusulas a promessa de devolver o dinheiro na hipótese de não cumprir com as entregas.

Acordo extremamente vantajoso, recusado deliberadamente, de caso pensado. Bolsonaro não gosta de vacinas, está evidente. Protelou o quanto pode a aquisição delas. Em alguns episódios, como no da Coronavac, chegou a ser peremptório, assegurando que não iria “fechar negócio e ponto”. Os eventos se sobrepuseram à teimosia e ao ciúme oficiais. Mas a irresponsabilidade está tipificada. Como em diversas outras ocasiões. São inúmeras, quase ilimitadas, as circunstâncias nesse sentido. Em Haia, o Tribunal Penal Internacional começa a avaliar, sob a direção do recém-eleito procurador Karim Asad Ahmad, uma pilha de pedidos pendentes para que se abra uma investigação preliminar contra Jair Bolsonaro e seu governo, por violações diversas. Um dos pedidos é relatado pelo ex-primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu — derrubado recentemente —, que reconheceu o risco real de que Bolsonaro venha a ser preso por genocídio de povos indígenas. Lá fora, denúncias como essa, decerto, parecem ter maior apelo. A ameaça ao capitão do Planalto já é percebida no exterior há meses. Um chefe de governo criminoso, irremediavelmente, capaz até de bravatear que o seu ministro da Saúde estaria preparando um parecer para dispensar o uso de máscara. Na toada negacionista, mais de um vez levantou suspeitas, sem nenhuma base técnica, sobre a eficácia dos imunizantes – na semana passada, de novo, contra a Coronavac, por mera picuinha política com o arquirrival paulista, João Doria. Bolsonaro dobra a aposta na radicalização porque sabe que o cerco se fecha. Na CPI, o Brasil ficou sabendo de outra grave irregularidade praticada pelo governante. Documentos obtidos pela Comissão de Inquérito demonstram que ele ligou ao premiê da Índia, Narendra Modi, pedindo a liberação de cargas de insumos de cloroquina para duas empresas privadas, SEM e Apsen. É uma atribuição absolutamente fora da liturgia do cargo — ferindo gritantemente a Lei —, um presidente atuar em benefício de laboratórios para atender a interesses particulares. Sem contar o viés político da propaganda desavergonhada de uma droga, reconhecidamente, ineficaz contra a doença que castiga o mundo. Eis o fora da lei da República em seu estado bruto. Quase cem mil brasileiros — a conta está precificada pelas estatísticas e tempo de adoção dos imunizantes — morreram pelo atraso proposital na compra de vacinas. O morticínio tem um responsável direto e ele esta sentado na cadeira de comando da Nação. A CPI vem sendo eficaz para mostrar a lógica federal por trás de toda essa onda de equívocos. Havia uma intenção, de toda criminosa e abominável, de contaminar o mais rapidamente possível a maioria dos brasileiros para, dessa maneira, se alcançar a pretensa imunidade de rebanho. O saldo da experiência seria monumentalmente desastroso, com milhares ou milhões de outras vidas perdidas. Eis a sanha da inconsequência montada no poder. O governo, deliberadamente, fez o diabo para anarquizar o sistema de Saúde no País: atrasou vacinas, promoveu pseudos tratamentos precoces, desconsiderou apelos por cilindros de oxigênio para atenuar o drama em Manaus e até retardou encomendas de kits de intubação. Todo mundo viu! O “mito” genocida precisa o quanto antes ser contido e responder pelos atos. A tessitura de mentiras não pode dissimular ou abafar tamanha barbaridade. Nem obstruir a Justiça no intento da punição. É sabido, Bolsonaro conta ao seu lado com uma tríade de grupos armados: de policiais simpatizantes a milícias violentas, além de alguns militares de diversos escalões. E, eventualmente, civis de revolveres em punho podem se juntar ao bando para tentar garantir à força seu posto. Mas nada será capaz de dobrar uma democracia tão duramente conquistada e estabelecida. Grotesca é a onda de delitos e violações de toda ordem praticadas pelo mandatário em pessoa, e não se pode ser indulgente diante da incúria, de tanta negligência administrativa, do descaso e desprezo a vidas. Bolsonaro tem de pagar. Não apenas com a derrota nas urnas. De forma escancarada, ele mostra que nada mais importa do que o projeto de reeleição para mais quatro anos de barbaridades. Governar jamais esteve no escopo de ações. Ele nunca desceu do palanque. Apenas consolida o plano de estímulo a uma seita que o siga e o venere, espalhando veneno e alastrando a praga de uma realidade paralela, duvidosa, fortalecida pelo ódio e perseguição aos que se contrapõem. Assim o presidente vai exercendo o seu comando, de traços ditatoriais, na base da ignorância, desmando e irresponsabilidade. Precisa ser contido, interditado ou desalojado, antes que seja tarde demais.


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